Peeping Tom (1960)

por Daniel Lukan

“I have always felt that Peeping Tom and 8½ say everything that can be said about film-making, about the process of dealing with film, the objectivity and subjectivity of it and the confusion between the two. 8½ captures the glamour and enjoyment of film-making, while Peeping Tom shows the aggression of it, how the camera violates… From studying them you can discover everything about people who make films, or at least people who express themselves through films.” Martin Scorsese

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Quando Michael Powell filmou Peeping Tom, em 1960, mal sabia que estava por lançar sua próspera carreira de diretor ao desprezo da crítica e do público. O novo filme do diretor que contava com títulos muito bem recebidos – A Matter of Life and Death (1946), Black Narcissus (1947) e The Red Shoes (1948) – sofreu críticas pesadas e até mesmo censura em alguns locais, saindo de exibições públicas logo em seguida. O longa começaria a conquistar certo prestígio, sobretudo entre os especialistas, a partir do fim da década de 70, quando Scorsese começou a colocar o filme em evidência ao ressaltar suas virtudes cinematográficas. Portanto, quais são as possíveis justificativas para dar razão a tamanho insucesso?

É certo que Psycho foi um dos fatores responsáveis por obscurecer o êxito de Peeping Tom; com ambos lançados no mesmo ano e com uma pequena diferença de meses, restou ao filme de Powell aceitar a posição de ‘café com leite’ perante a relevância histórica e cinematográfica de um dos maiores sucessos de Alfred Hitchcock. No entanto, é também certo, como é também muitas vezes esquecido, que os dois filmes possuem temas bastante similares em seus roteiros e, principalmente, o fato de que apresentam uma mudança significativa na abordagem do suspense/horror no cinema. Tanto em Peeping Tom quanto em Psycho é contada a história de um rapaz solitário, reservado, educado e aparentemente calmo (Mark Lewis e Norman Bates); os personagens são filhos de pais dominadores que, mesmo mortos, continuam a afetar o comportamento de ambos na vida adulta.

Dentre outros pormenores que fatalmente apontariam a similaridade entre as duas narrativas, é interessante destacar como essa proximidade apontava o estabelecimento de uma nova tendência dentro da narrativa de terror; uma vez que, até a década de 60, o terror constituía-se das adaptações de histórias e personagens clássicos, tais como: Nosferatu e Frankenstein. Ou então, em casos como Das Cabinet des Dr. Caligari, no qual o vilão é um monstro-sonâmbulo controlado pelo insano Doutor Caligari. Ou seja, o terror consistia em temer seres absurdos, mutantes, criaturas sobrenaturais e coisas análogas. Dessa forma, ao contrário do terror tratado como o resultado de acidentes da natureza ou algo (ou evento) sobrenatural, Peeping Tom e Psycho instituem o terror como algo real e humano.

Primeira cena, Mark filma a prostituta que será sua primeira vítima.

Primeira cena, Mark filma a prostituta que será sua primeira vítima.

O terror abordado de modo mais verossímil e humano pode ser apontado como mais um obstáculo para a recepção do filme e consequente desastre na carreira de Michael Powell; visto que, ao contrário de Hitchcock, ele apresenta a narrativa de forma menos digerível. A explicação de tal acontecimento se torna perceptível na medida em que ressaltamos a principal diferença entre personagens tão similares: enquanto Norman Bates é construído metodicamente como um vilão – por mais que essa vilania se torne questionável, ou ao menos justificável, no final do filme –, Mark Lewis não é desenvolvido como vilão em momento algum, mesmo quando pouco conhecemos a respeito dele, e muito além disso, ao longo da história o identificamos também como vítima. Isto é, o espectador deixava não apenas de ver o “mal” representado pelo ser-não-humano, pelo demônio, ou qualquer coisa do tipo, como também passava, ao mesmo tempo, a sentir empatia pelo mesmo.

Assim, aparentemente o público não soube identificar-se com o “mal” e a crítica demorou a perceber a representatividade do mesmo. E, inevitavelmente, Peeping Tom fracassou.

Contudo, o que precisava ser visto em Peeping Tom? Era fundamental compreender que além de uma personagem que, de modo constrangedor à época, era simultaneamente o mal que ocasionava o terror e um ser humano empático, Lewis estava ali também representando o lado violento e violador do processo de produção fílmico. Portanto, ao tentarmos entender a complexidade dos traumas e suas consequências na vida do protagonista, estaremos próximos da compreensão de fenômenos cinematográficos exteriores à narrativa.

Com relação às origens das perversões de Mark, é evidente que são traumas derivados de acontecimentos de sua infância. Em vídeos que a princípio pareciam gravações ingênuas de momentos da infância da personagem, mas que na verdade eram registros dos experimentos feitos pelo pai de Mark, é mostrado como o protagonista era reduzido a um mero objeto de estudo científico. A.N. Lewis, interpretado pelo próprio Michael Powell, se tornou um cientista famoso ao publicar o resultado das análises feitas com Mark que consistiam no registro das reações do menino à situações que lhe causavam medo.

Em relação a esse primeiro fato, a escopofilia, exposta no já adulto Mark, veio como um resultado da ‘inversão’ explicada por Freud nos seguintes termos:

“Sempre que se descobre no inconsciente uma pulsão desse tipo, passível de ser pareado com um oposto, em geral pode-se demonstrar que este último também é eficaz. Toda perversão ‘ativa’, portanto, é acompanhada por sua contrapartida passiva: quem é exibicionista no inconsciente é também, ao mesmo tempo, voyeur.” (FREUD, 1925, p.106)

Quer dizer, como mecanismo de defesa contra as agressões feitas a sua privacidade ele passa a internalizar, identificar e imitar as ações do seu agressor. Sua estrutura psicológica que antes era, inconscientemente, exibicionista – embora fosse um exibicionismo totalmente involuntário – ao inverter com sua característica oposta, e até então passiva, assumiu sua identidade como voyeur. Consequentemente, de agredido a agressor, sua constituição psicológica inverteu-se; logo, a câmera com a qual era agredido passou a ser sua principal arma de agressão e suas reações ao medo, que antes eram suas ‘feridas’, passaram a ser sua obsessão.

A expressão de medo primeira vítima frente à faca e a câmera.

A expressão de medo da primeira vítima no momento do assassinato.

Mark Lewis assistindo o vídeo do primeiro crime.

Mark Lewis assistindo ao vídeo do primeiro crime.

Vale ressaltar que desde seu início o filme busca afastar algum tipo de julgamento moral em relação ao voyeur, uma vez que, a perspectiva do assassinato da primeira cena de filme é intradiegeticamente partilhada por nós, espectadores. Ou seja, não somos apenas testemunhas, como de costume, mas também um pouco autores. Em Peeping Tom, o voyeurismo é representado de duas maneiras distintas, pois, na sequência do assassinato da abertura do filme vemos o ‘verdadeiro’ voyeur e assassino em seu momento fetichista de prazer, no qual assiste ao ‘documentário’ do crime cometido.

Assim, além das justificativas narrativas para a empatia do espectador com o personagem que normalmente simbolizaria o mal, é perceptível que as decisões cinematográficas para a representação dessa história permitem que o público possa visualizar o papel de voyeur ao qual se submete, além de identificar a mesma coisa relacionada aos realizadores cinematográficos; como Andrea Sabbadini expõe no seguinte trecho:

“[…] but because being a film, in Martin Scorsese words, ‘where the process of film-making becomes an accessory to the crime’ (1980), it stabbed the narcissistic film establishment at its heart by depicting both film-lovers and film-makers as voyeurs.”(SABBADINI, 1960, p.208)

Isto é, Mark Lewis mata, registra em imagens todo o assassinato e depois se dá o prazer de assisti-lo. Levando em consideração suas três vítimas (uma prostituta, uma atriz e uma modelo), sendo todas elas personalidades que exercem profissionalmente algum tipo de exibicionismo e que, portanto, complementam o quadro psicológico de inversão do exibicionismo para o voyeurismo sofrido por Mark; cabe a nós, enquanto espectadores de cinema, identificarmo-nos como voyeurs entretidos na observação de assassinatos, crimes, romances, aventuras, etc., de pessoas (personagens) que não possuem a consciência de serem observadas. Ao mesmo tempo, Lewis representa o realizador cinematográfico em suas diversas acepções (diretor, produtor, roteirista, etc.), mostrando o incansável registro de acontecimentos, situações e personagens que possuem sua privacidade violada em razão da busca pelo registro “perfeito” com o objetivo de agradar esteticamente o espectador.

Peeping Tom (Figura 4)

Desse modo, através de uma narrativa sugestivamente banal a respeito de um assassino-voyeur-fetichista, Michael Powell conseguiu expressar e discutir por meio das imagens algumas implicações morais e psicológicas do processo de produção cinematográfica, bem como da relação do seu produto final com o público. Por mais que a princípio tenha sido um total fracasso por praticamente duas décadas e seja responsabilizado pela ruína da carreira do diretor; Peeping Tom, com seu valor elevado por Martin Scorsese, merece ter seus méritos ressalvados dentre os filmes do gênero, pois, junto com Psycho de Hitchcock, fora talvez um dos principais precursores de uma nova tendência mais madura das narrativas de terror no início da década de 1960. Além disso, destaca-se por ser um sublime ensaio psicológico sobre a produção cinematográfica e seu público.

Referências:

FREUD, Sigmund. Um caso de histeria, três ensaios sobre sexualidade e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. 1996.

SABBADINI, Andrea. Watching voyeurs: Michael Powell’s Peeping Tom. In: Psychoanalysis and FilmLondres: Karnac. 2001. P. 201-210.

THOMPSON, David; CHRISTIE, Ian . Scorsese on Scorsese. Londres: Faber & Faber. 1989.