La muerte de un burócrata (1966)

por Thiago Campelo

Há quem diga, por mais incrível que pareça, que La muerte de un burócrata, 1966, de Tomás Gutiérrez Alea (1928 – 1996) – Titón, como era conhecido – foi um filme de impacto em sua carreira por acaso; que foi pensado e produzido como fundamento financeiro para a produção de seu tour de force de dois anos depois, Memorias del subdesarollo. No entanto, afirmar tal coisa só evidencia total desconhecimento dos métodos pelos quais o ICAIC (Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográfica), o qual Alea foi cofundador, e o governo cubano trabalhavam à época.

É certo que naquele ano La muerte de un burócrata foi o filme que mais levou espectadores aos cinemas de Cuba, tornando-se um dos maiores clássicos, na acepção mais comum da palavra, do país; de fato é uma obra de peso. Entretanto, fugindo da lógica do mercado cinematográfico, sobretudo ocidental, não foi necessariamente o filme pelo qual Titón consolidou sua carreira. A Cuba pré-Revolução exibia, quase exclusivamente, filmes estadunidenses e a indústria era tão incipiente quanto a de qualquer outro país latino-americano; a pós-Revolução, pelo contrário, produzia cinema cubano de qualidade para cubanos. Logo, nomes com Octavio Cortázar, Humberto Sólas Borrego, Julio Garcia Espinosa e o próprio Tomás só começaram a produzir significativamente a partir de 1959.

Alea, que foi estudante do Centro Sperimentale de Cinematografia, na Itália, no início dos anos 50, já produzia, desde o final da década de 40. Curtas-metragens ficcionais, seguidos de pequenos documentários, foram o início. Após a Revolução, em 1960, entrega seu primeiro longa ficcional e também o primeiro longa produzido pelo ICAIC, Historias de la Revolución e em 1964 lança Cumbite, filme o qual Michael Chanan assinala como a maior produção neorrealista feita pelo ICAIC. Portanto, nesses primeiros anos pós 1959, Alea já tinha galgado seu lugar como principal cineasta da ilha.

O filme, no que concerne o seu enredo, é bem simples: um trabalhador exemplar morre ao cair na maquina que ele mesmo criara para produzir bustos de José Martí, deixando viúva (Silvia Planas) e o sobrinho Juanchín (Salvador Wood). Para conseguir o direito de pensão para sua tia, Juanchín sofre os percalços de uma verdadeira odisseia burocrática. Seu tio, Paco, foi enterrado com sua carteira de trabalho e aí consiste todo o problema: é preciso desenterrar o homem para que, com o documento, o processo da pensão corra normalmente.

A sátira está posta: o personagem principal, imerso nesse contexto do peso da burocracia, é levado à loucura ao mesmo tempo em que toda a sociedade constituinte da narrativa possui essa característica potencializada a ponto de todas as suas manifestações serem mecanizadas. Tal supervalorização da burocracia, no contexto fílmico – que para muitos é vista como uma denuncia seríssima sobre o sistema cubano – nada mais é do que o simples uso das características do gênero; apesar de que, de acordo com Chanan “política no cinema cubano não é um subtexto que qualquer cineasta ou crítico pode incluir ou deixar de lado; é o inevitável e sempre presente intertexto da estética e seu constante diálogo com o político”.

O objetivo aqui é o de provocar o riso, apesar de ser evidente que a crítica está lá, que a sociedade é burocrática e que o próprio Titón se surpreendeu ao ver uma mulher saindo aos prantos da estreia do filme por ter vivenciado a mesma situação. Assim como a caricatura, a sátira estica, modela e simplifica, a fim de evidenciar os traços do seu alvo – obviamente os negativos – que pela rotina deixamos de perceber.

Koestler nos deixa claro que “a ironia é a arma mais eficiente do satírico. Sua função é de derrotar seu oponente em seu próprio terreno, fingindo aceitar suas premissas, seus valores, seus métodos de raciocínio a fim de expor seu absurdo”. É pelo riso que são ratificados, através dessa ironia, os conflitos entre elementos incompatíveis, nesse caso, da sociedade mostrada por Alea.

A mecanicidade evidenciada pelo filme, que acaba por nos afastar do contexto explorado, é outro grande fator – e talvez o maior exemplo de todos – para o sucesso de La muerte de un burócrata enquanto comédia. É através de Bergson, que se percebe que a comicidade das situações está baseada justamente nesse movimento morto tão bem expressado na figura de um burocrata: “o cômico é essa propriedade da pessoa pela qual ela se assemelha a uma coisa…”, “… uma imperfeição individual ou coletiva que requer a correção imediata. O riso é a própria correção”.

No começo do filme, o funeral. Um provável amigo da família discursa, em cima do tumulo, sobre toda a grandiosidade de Paco, o defunto. O risível, aqui, são os gestos do homem. Um títere, cujos movimentos são coordenados por uma força exterior é como pode ser visto não só ele, mas todos os personagens. Ao longo do discurso, o confronto entre os feitos eloquentes do morto narrados e as imagens de sua insignificância são outro ponto cômico por sua justa ambivalência; a questão dialética entre som e imagem também fazem parte da comicidade do filme e da construção crítica. Outros momentos de maior clareza são o assassinato do burocrata (Manuel Estanillo) por Juanchín, quando um dos coveiros encontra-o atracado ao corpo e ao abrir a boca ouve-se o som da sirene da ambulância do plano seguinte; a funcionária que começa a dizer o que expõe a legislação sem parar de datilografar até que sua fala se torne incompreensível; o foguete que percorre a repartição pública enquanto o processo de Juanchín é jogado de uma mesa a outra; o uso do caixão guardado em casa como mesa; a animação que mostra a máquina e a morte de Paco…

No entanto, é ao ver a flâmula que diz “DEPATRAM, primeiro lugar em ping pong”, enquanto Juanchín espera por um carimbo para poder exumar o corpo do tio, onde se observa com maior vigor tal quesito. Conclui-se que Alea é um brincalhão. Ele zombando do público por tamanha ênfase nesse ponto relevado por Bergson, o principal motivo da graça de todo filme: a confluência do movimento morto com a figura da burocracia.

O filme é repleto de humor negro e momentos nonsense que pontuam a narrativa graciosamente: um chinês que aparece do nada dizendo “isso nunca teria acontecido na China, filho”; a figura de um padre que surge nos momentos de multidão proferindo conselhos e o garçom com dentes de vampiro. Uma clara referência a Trouble with Harry, 1955, de Hitchcock.

La muerte de un burócrata é um filme-homenagem. Não só pela dedicatória inscrita nos créditos iniciais como um documento oficial.

“QUINTO: Dedicar este filme a Luis Buñuel, Stan Laurel, Oliver Hardy, Ingmar Bergman, Harold Loyd, Akira Kurosawa, Orson Wells, Juan Carlos Tabío, Elia Kazan, Buster Keaton, Jean Vigo, Marylin Monroe e a todos que trabalharam na indústria do cinema de Lumière até hoje”.

É um filme-homenagem por reverenciar Hitchcock no mesmo tom de humor em alguns de seus movimentos de câmera e em elementos de cenário. Por também usar da comicidade mais simples e eficiente, o mecanismo do boneco de mola, do Guignol, presente em Keaton e Chaplin, na cena em que a entrada do cemitério se torna um verdadeiro carnaval, onde as pessoas se agridem por causa da fila obstruída e a polícia não consegue conter a situação. Por citar Marylin Monroe através da sensualidade feminina estereotipada que atrai os homens das repartições e Harold Loyd enquanto o protagonista está pendurado nos ponteiros do relógio. É uma clara homenagem ao surrealismo e a Buñuel nos momentos de sonho, onde Juanchín puxa por cordas o caixão do tio e no momento em que um pequeno esqueleto de plástico oscila pendurado no retrovisor do rabecão. Aliás, o surreal compartilha os meios pelos quais surge a comicidade.

Chanan nos diz, inclusive, que o filme:

“é quase como se Alea sentisse necessidade de expurgar a comédia hollywoodiana, embora seja a grande tradição da comédia, é um gênero em si subversivo”. “Não é um cinema que precisa ser repudiado no mesmo sentido que o resto de Hollywood”.

Nesse contexto de repúdio, é importante ressaltar que à época, a corrente teórica em voga era o “Terceiro Cinema”, numa alusão à antiga relação geopolítica que dividia o globo em três. A questão aqui era o desenvolvimento de uma estética própria, dialética, antropofágica e descolonizada, como teorizou Glauber Rocha; um cinema imperfeito, como fez Julio Garcia Espinosa. Desse modo, sendo o riso, consoante com Lukan, analisando Koestler e Bergson, “um impulso agressivo de acordo com o qual se tenta rebaixar o objeto do riso”, seria displicente rechaçar a tradição hollywoodiana.

O filme começa e termina com planos de estatuária de anjos e ao longo dele aparecem os bustos de José Martí e, no momento da animação e do primeiro funeral, Paco transfigurado em escultura após cair em sua máquina. Aqui, o que se mostra, é outra linha satírica posta em uma camada mais profunda da narrativa. A crítica se dá sobre a burocratização da arte e a mistificação do homem. José Martí é um herói da independência cubana, uma figura simbólica da história do país e a função de Paco, um trabalhador exemplar, era proporcionar que cada cidadão possuísse um busto padronizado do mártir. Assim, esquece-se das características humanas e homem passa a ser símbolo; confecção que só a morte, trazida pelos anjos, pode dar. O mesmo acontece com Paco que ao morrer se torna a imagem do proletariado inteiro. Ambas as imagens padronizadas; feitas pela máquina.

Titón é de fato o mais importante cineasta cubano, e construiu, junto de outros personagens do cinema da ilha, uma estética nacional própria. Trazendo consigo certa carga neorrealista, como quase todo o “Terceiro Mundo”, La muerte de un burócrata instiga uma relação não estritamente objetiva com o espaço e as atuações. A câmera de Alea compõe movimentos fluidos em certas sequências que dão ao espaço sentido narrativo e cômico. É de fato uma comédia aparentemente simples no que se refere a tecnologias cinematográficas, mas de humor fino e grande densidade semiótica.

 Referências:

BERGSON, Henri. Rire: Essai sur la signification du comique (le). 26 ed., Paris : Alcan, 1927.

CHANAN, Michael. Cuban Cinema. Originally published: The Cuban image. London: British Film Institute: Bloomington, Ind.: Indiana University Press, 1985.

KOESTLER, Arthur. The Act of Creation. 6 ed. New York : The Macmillan Company, 1967.

MUERTE de un burócrata (la). Direção: Tomás Gutiérrez Alea. Fotografia Ramón F. Suarez. Havana: ICAIC, 1966 [produção]. 1 filme (85min), 35mm, p&b.

SILVA, D.L.S. A representação do riso grotesco no banquete gargantuesco. 2013. 46 p. Monografia (Graduação em Letras – Francês) – Instituto de Letras, Universidade de Brasília, Brasília.

STAM, Robert; tradução Fernando Mascarello. Introdução à teoria do cinema. 4ed. Campinas, SP: Papirus, 2003.