Mammu, es tevi milu (2013)

por Daniel Lukan

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Um menino passando da infância à adolescência tentando acobertar seus maus comportamentos e baixo rendimento na escola dá início a uma série de mentiras que fogem ao seu controle. Ele vive sob o risco de voltar a morar fora da cidade com a avó, com quem vivera em parte da infância. Agora, perto da adolescência, ele vive com a mãe em Riga – capital da Letônia – e convive com uma intensa cobrança por bons resultados, sobretudo como saxofonista na apresentação da orquestra da escola, no entanto, essa cobrança a nível autoritário não é acompanhada de atenção, orientação e presença. Com o pai ausente e mãe trabalhando várias horas seguidas, o menino passa boa parte do tempo livre andando pela cidade de patinete e divertindo-se com seu amigo; até começar a se comportar de forma afrontosa e subversiva, a faltar aulas e até mesmo a cometer alguns delitos.

O parágrafo anterior é – exceto por alguns detalhes – extremamente semelhante à história de Antoine Doinel no filme que concorreu à Palma de Ouro em 1959: Les quatres cents coups, de François Truffaut. Contudo, trata-se do resumo de Mammu, es tevi milu (Mãe, eu te amo) que é o primeiro longa-metragem do diretor letão Janis Nords e concorre na mostra competitiva do Brasília International Film Festival (BIFF) 2014.

Apesar dos enredos bem parecidos, Mammu, es tevi milu não é nem de longe algum tipo de plágio do consagrado filme de Truffaut. O longa é carregado de momentos alusivos em caráter de homenagem ao filme francês; entretanto, o filme insere esses conflitos semelhantes em uma nova realidade. Obviamente pode-se discutir o que é ou não plágio, uma vez que uma história inserida em um novo contexto pode claramente tratar-se de um. No entanto, longe disso, Raimonds não é apenas um Antoine letão. Eles possuem personalidade, caráter e objetivos distintos. Se os esqueletos de ambas as narrativas mostram-se quase idênticos, em contrapartida, as realidades que os circundam são extremamente distintas e os personagens que as vivenciam pensam e agem de modos diferentes. Enquanto Antoine é um menino pobre francês que se mostra insensível (em certo nível) e que deseja fugir de casa desde o princípio, dando pouca importância às consequências de suas atitudes; Raimonds é um letão de classe média baixa, sua grande ambição no filme não é liberdade – como queria Antoine – mas a atenção de sua mãe, tanto que é essa forte ligação que dá o andamento e gera os conflitos do filme. Raimonds mente e tem comportamentos ruins por dois motivos associados à relação com sua mãe: ou para chamar atenção ou para esconder fatos que fariam que ela o punisse.

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Ou seja, Mammu, es tevi milu deixa clara sua influência pelo cinema de Truffaut, principalmente por Les quatre cents coups, que serve de guia narrativo e recebe algumas sutis homenagens ao longo dos pouco mais de oitenta minutos. Porém, Janis Nords dá um novo tom, ausente na obra do diretor francês. A fotografia do filme apresenta uma mistura que vai de um aspecto mais acolhedor e convidativo especialmente nas tomadas internas na casa do protagonista (exceto pela cena conflituosa em que Raimonds leva um tapa na cara e, em seguida, decide fugir de casa, momento em que, apesar de abandonar o clima acolhedor e convidativo, não deixa de nos aproximar do personagem e ficar mais íntimo de seus problemas); a um aspecto mais ameaçador e distante que se sobressai nas sequências noturnas pelas ruas de Riga.

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Além do roteiro sólido e empático e da fotografia simples, mas primorosa, vale destacar as atuações. Com destaque para Kristofers Konovalovs que dá vida a Raimonds, conseguindo transmitir de forma bem natural a melancolia e a solidão que acompanham o protagonista, tanto quanto, demonstra como, mesmo mentindo e até mesmo roubando, ele não é carregado de desvios de caráter, pois, a todo momento percebemos que Raimonds tem quase sempre boas intenções, mas que, devido à falta de sorte e extrema inocência, acaba entrando em uma situação pior e com mais problemas do que estava anteriormente. Vita Varpina que interpreta a mãe de Raimonds tem um papel de menos destaque, embora também complexo; ela apresenta de forma convincente uma mãe rigorosa e autoritária, mas que, no entanto, por ser bastante ausente devido à carregada rotina de trabalho, controla tal rigor sem muita rigidez e acaba por deixar o filho exageradamente livre.

 O filme construído com problemas cotidianos de uma criança comum e solitária que vive apenas com a mãe fomenta seu roteiro ao utilizar da ingenuidade de um garoto azarado que gera descontroladamente mais e mais conflitos. Todavia, o grande trunfo da história e ponto fundamental do roteiro é justamente a forte ligação da relação mãe e filho, uma vez que, a mãe força uma autoridade e rigor exagerado de modo a compensar o evidente abandono do filho, que por sua vez, se envolve em todos os problemas, que compõem o filme como um todo, ao tentar evitar ao máximo confrontos e desentendimentos com a mãe. Ele se esforça totalmente para não decepcioná-la.

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Por fim, o filme acaba por distanciar-se bastante de sua maior referência. Les quatre cents coups apresenta uma total desunião familiar e também sucessivas tentativas de reconstrução e reaproximação dentro de um núcleo familiar tradicional entre um pai, uma mãe e um filho; mas que, no fundo, é um núcleo familiar falido. São três personagens totalmente desapegados uns dos outros e, portanto, vivem em conflitos precisamente por tentarem se adequar a uma convenção à qual não estão habilitados a viverem juntos. Enquanto isso, Mammu, es tevi milu desenvolve uma discussão a respeito de conflitos familiares que são gerados por um forte apego entre a mãe e o filho, mostrando como a sinceridade, o contato e a comunicação são fatores essenciais na manutenção de uma boa relação; embora, mesmo a quebra dessa base não seja suficiente para destruir esse vínculo.

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Isto é, Truffaut de forma um pouco mais pessimista e intimista apresenta um seio familiar que representa um meio de repressão e desunião que tende a ser diluído. Ao passo que Janis Nords passa em tom bem mais otimista, e com uma história de objetivo mais universal, como a família, sobretudo em sua forma mais reduzida, constitui um ponto de amor e união quase indestrutível (com o perdão do exagero).

Nota: O filme foi exibido no primeiro dia de mostra competitiva no BIFF 2014, 29/08 às 20h30, com um pequeno debate após a exibição. Além de duas exibições no Cine Cultura no Liberty Mall: uma no último domingo (31/09) às 15h e outra programada para amanhã (02/09) às 19h.