The eternal return of Antonis Paraskevas (2013)

por Thiago Campelo

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Dos idos dos anos 90 à primeira metade dos anos 10 do século XXI a Europa unida, ou o que se imaginou disso, foi da busca da terra prometida, passando pelo paraíso até a recente chegada ao inferno. Os investimentos econômicos e expansões da UE afetaram diversas áreas da vida do continente e, claramente, o cinema também foi atingido de maneira significativa.

As maciças inversões na área, no início da última década do século XX, contribuíram fortemente para o que na década seguinte, ao menos até 2007/08, pode ser visto hoje, apenas 6 anos depois, como o período de um cinema (ou uma tentativa de cinema) multicultural, efeito do In varietate concordia bravejado pelo bloco. Como “agradável” prenúncio do que viria a ser esse futuro do cinema, Les trois couleurs (1993 e 1994), do gênio polonês Krzystof Kieslowski, foram lançados. Os três grandes hits de Kieslowski no oeste foram feitos com dinheiro francês, o que explica a relação das cores e dos conceitos basilares de cada uma das películas, para justamente comemorar e promover a ideia que seria disseminada sobre a Europa nos anos subsequentes com a fundação efetiva da UE através do Tratado de Maastritcht, em 1992.

De fato, a noção de multiculturalismo cinematográfico apareceu com força nos anos 2000. Michael Haneke e Lars von Trier são exemplos disso por vários aspectos de suas cinematografias, tais como: o uso do inglês como língua padrão de alguns filmes, a mistura de equipes e de investimentos, as produções sem limites impostos pelas fronteiras… As coproduções entre os países do bloco se proliferaram e a ideia de identidade cinematográfica nacional se tornou mais rarefeita.

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No entanto, Kieslowski já previa em cada um dos três filmes das cores um dos pontos falhos desse casamento: essa união seria sempre instável, jamais uma “Ode à alegria”. As identidades, sobretudo as dos países secundários, seriam de certa forma, liquefeitas.

A década de ouro da União Europeia chegou ao fim e nos seus dois últimos anos o euro, único laço que os mantinham mais coesos, enfraqueceu drasticamente. Nesse contexto, a Grécia foi um dos países mais afetados e o seu cinema começa a refletir com maior força sobre os questionamentos que tomam proporções cada vez mais robustas com o passar do tempo, mas que, ao menos alguns deles, já eram abordados na obra de Theodoros Angelopoulos (1936 – 2012).

É possível imaginar que um cinema sobre as consequências da crise econômica na Grécia levaria como principal assinatura a do engajado Costa-Gravas ou que ele seria pelo menos a principal referência que, nos últimos anos amenizou seu ímpeto panfletário e tem se dedicado a produção de dramas sociais mais minuciosos, como nos casos de Le couperet (2005) e Le capital (2012).

Sob esse panorama, Elina Psykou desenvolveu pela primeira vez um longa-metragem. The eternal return of Antonis Paraskevas (2013), O eterno retorno de Antonis Paraskevas, trata de um homem maduro, Antonis (Christos Stergioglou), âncora de um programa de televisão na Grécia, que simula o seu sequestro, indo para um luxuoso hotel fechado durante o inverno, com o intuito de reavivar sua carreira e a audiência de seu programa matinal. Antonis, ao menos pelo que nos é mostrado, é um homem só, silencioso e atordoado.

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O título já nos prepara certo terreno. “O eterno retorno”, um dos maiores conceitos que Nietzsche elaborou em A gaia ciência (1882), constrói uma noção de complementaridade do real. O movimento cíclico do conceito não faz referência ao tempo em si, mas sim de uma simbiose de forças constitutivas da realidade que, por sua vez, não é objetiva. A morte de Deus despolariza essas forças e é através desse movimento cíclico que essas instâncias se alternam infinitamente sem nunca alcançar um fim.

No Eterno retorno de Psykou, o filme começa com um carro que entra em um túnel e encerra da mesma forma. A metáfora do ciclo, concluída após 88 minutos, é desenvolvida ao longo do planejamento do retorno da personagem. Antonis Paraskevas, em vertiginosa decadência, necessita satisfazer o seu desejo de tornar-se eterno na mente do público e para isso planeja incessantemente o regresso perfeito. No entanto, a questão central é que isso nunca acontece. O processo nunca tem fim. Paraskevas solta pistas de seu paradeiro e de sua situação, atraindo a atenção da mídia nacional de tempos em tempos. Ele acaba criando uma espécie de aura em torno da sua figura, por mais que não seja mais quem ele e a Grécia imaginam ser. É dessa forma, então, que ele se perpetua. O seu retorno, se concluído, poria fim a todo o drama midiático criado para o consumo e ele logo seria esquecido. É nesse sentido que a construção imagética de Psykou e o conceito de Nietzsche se aproximam: na inexistência de um fim e a experimentação cíclica das instâncias constitutivas da vida.

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Paraskevas sofre de uma forte crise de identidade. O hotel fechado é o seu limbo. A decadência de sua imagem pública lhe atormenta e o seu narcisismo é tamanho que mesmo em contato com a mídia atual, ele prefere rever os seus momentos de glória enquanto âncora de TV. Ele era o rosto de todo um país, o representante máximo do entretenimento grego. Sua fissura é tamanha que, ao se filmar repetidas vezes como um chef da gastronomia molecular, de forma que suas tentativas de produzir espaguete artificial nunca dão certo, o frustram a ponto de lança-lo em um momento de loucura.

É ainda no hotel, onde ele faz repetidamente as mesmas coisas todos os dias. Come macarrão, tenta se filmar, vê televisão, acorda sempre às 4h da manhã, lava suas roupas, abre e fecha as portas dos mais de 300 quartos… O hotel adquire uma dimensão interior do personagem. É uma construção impressionista do espaço. Não há alegoria de uma ruína mais efetiva do que um hotel de luxo fechado ou abandonado e é isso o que Paraskevas é e deixa bem claro na sua interação com o cenário e os objetos de cena.

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Antonis não é só a representação pura e simples de um drama individual contemporâneo; a ilusão de vida de uma pessoa pública. O personagem é também metáfora para todo um país. A Grécia é o que consideramos quase inquestionavelmente como a base de toda a civilização ocidental e é essa representação já corroída pelo tempo que ainda perdura sobre o imaginário da maioria das pessoas. No entanto, assim como Paraskevas, o país não é mais aquilo que imagina ser. A crise identitária tão comum na sociedade pós-moderna é o tema central do filme e ela não é trabalhada de maneira a lhe dar uma solução. Não há reconforto e a ênfase está posta justamente para o processo de construção de uma identidade que nunca tem fim. A dúvida do que de fato se é, é o eterno retorno do âncora de TV, da Grécia e da Europa.

As diferenças sociais, econômicas e culturais dos vários países europeus integrantes da UE, com o ápice da crise recente, são, através da película, problematizadas. O que anunciou Kieslowski nos anos 90 toma proporções mais concretas aqui.

As imagens que Paraskevas vê, sentado em uma poltrona enquanto come, numa sala cheia de estátuas que remetem ao passado grego, põe em choque o fantasma do que se foi e a decadência atual. A cobertura televisiva da passagem de ano que precedia o momento de implantação do euro e a crise pessoal de Antonis realça também a construção das noções de identidade nos mais diversos níveis. O mesmo acontece na cena em que ele se desprende fisicamente da figura que era, revisitando o seu passado glorioso e o do hotel.

Nesse ponto, o filme que era uma comédia se torna um drama pesado, mas ainda respeitando a mesma letargia da primeira parte. É a partir daí que o plano de regresso, que se constitui em um não regresso, é posto em prática e a personagem assume-se enquanto andarilho.

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O filme é composto em parte por planos relativamente abertos, o que exige uma adequação da atuação de Christos Stergioglou ao próprio espaço enquanto reflexo do drama de seu personagem. A própria demora entre cortes está aí para deixar que o espaço signifique para além da moldura da atuação. Os closes inexpressivos também são inseridos, ao longo da película, como link mais efetivo da relação entre espaço e personagem. A inércia é o tom escolhido por Elina Psykou para conduzir a narrativa de The eternal return of Antonis Paraskevas. São 1 hora e 28 minutos de duração que se estendem de maneira não enfadonha por um tempo aparentemente muito maior onde cenário, personagem, narrativa  e história confluem para construção de um sentido inacabado.

Nota: O filme foi exibido no sexto dia de mostra competitiva no BIFF 2014 (Brasília International Film Festival), 03/09 às 20h30, com um pequeno debate após a exibição com a diretora do filme Elina Psykou. Além de duas exibições no Cine Cultura no Liberty Mall: uma na última quinta-feira (04/09) às 21h e outra na sexta-feira (05/09) às 15h.