Providence (1977)

por Gustavo Fontele Dourado

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Alain Resnais (direita) dirige John Gielgud (esquerda) dentro da mansão do filme, imagem que lembra a condição e atitude da providência com o gesto de Resnais e a meditação pesada de Gielgud.

Os filmes que envolvem escritores e o seu universo tornaram-se quase um gênero à parte principalmente ao longo da segunda metade do século XX e da primeira década do século XXI com filmes como No Silêncio da Noite (1950), de Nicholas Ray, As Horas (2002), de Stephen Daldry, Barton Fink – Delírios de Hollywood (1991), dos Irmãos Coen, Paixões que Alucinam (1963), de Samuel Fuller, Fome (1966), de Henning Carlsen e muitos outros filmes que marcaram época e ainda são rememorados como fundamentos do cinema e/ou pilares do imaginário da cultura pop, da cultura underground e dos outsiders.

Alguns filmes que envolvem escritores utilizam este tipo de profissão apenas como um fundo de informação para caracterizar um personagem imerso em outras questões, em outros conflitos, como a de um assassinato. Conflitos que se tornam mais importantes no foco narrativo, já outros lidam mais com o processo de criação literária e também há os que se preocupam mais com os fatos da vida ou da biografia do escritor. O filme de Resnais apresenta praticamente estas múltiplas facetas e histórias em um único filme. Porém, sem usar o recurso de múltiplas referências que se acumulam – o de junção de citações – e sim oferecer uma complexa estrutura e personagens abissais em complexidade e em ambivalência.

Providence apresenta a reinvenção dos filmes de escritores, sobre escritores e sobre a escrita de uma maneira única, pois Alain Resnais é o autor que expande seu estilo cinematográfico de diversas memórias, de fragmentos, de introspecção, de mistura de tempos e de poética ao filme e ao seu tema. O resultado é original e se aproxima de livros como Mrs. Dalloway (1925), de Virginia Woolf (eloquência bela nas palavras ao retratar várias camadas do tempo) e Ulisses (1922), de James Joyce (usar nomes dos próprios amigos e aproveitar suas vidas como material para a literatura) – cânones do “romance de vanguarda” (DAMASCENO, 2013) ou romances subversivos do século XX. Obras que utilizaram de técnicas de expressão parecidas com as que Resnais usou no cinema em filmes como Muriel (1963), o Ano Passado em Marienbad (1961) e Vocês Ainda Não Viram Nada (2012).

O que é afinal o cinema de Resnais? O próprio não gostava de explicar sua obra (AUMONT, 2004) e há reflexões de que sua obra é fugidia de classificação acadêmica ou de rótulos. Outros já o consideram um literato dentro do fílmico com fortes influências de Alain Robbe-Grillet, roteirista e literato que trabalhou com Resnais no Ano Passado em Marienbad (1961). Pode-se argumentar que literatura e cinema são aspectos diferentes de uma mesma arte mais ampla e que Resnais é esse duplo e Providence é sua obra que mais resiste a classificações institucionais preguiçosas ou burocráticas.

A escrita não é apenas um fundo morto ou meramente uma citação em Providence, mas uma das questões centrais ao lado de conflitos múltiplos como o do escritor com os seus personagens, do escritor consigo mesmo, do criador com o seu círculo social, do inventor de histórias com o seu corpo e o do narrador com a sua família. Ele não é meramente um profissional que se limita ao campo em que se inscreve, em que atua e à palavra “escritor”, mas como uma figura que usa das letras e principalmente da sua voz.

John Gielgud, ator inglês que acompanhou todo o processo do século XX  durante sua vida desde 1904 até 2000, interpreta Clive Langham dentro de sua mansão – chamada Providence – que se parece com um pequeno castelo de estilo norte-americano. Clive está preso dentro da doença de seu corpo, agonizando em seu quarto cheio de objetos numa madrugada dentro da solidão de sua mansão. Enquanto agoniza, ele cria personagens baseados em sua própria família – seus filhos e sua esposa são os exemplos principais. Estes personagens, que tem os mesmos nomes e mesmos rostos da família de Clive, frequentemente mencionam o pai, na narrativa que Clive cria, mas este nunca aparece dentro destas variações de personalidade e de acontecimentos que misturam o que é literário com o que é fato.

Providence traz o processo de criação literária como um sofrimento fisiológico, a analogia com algo que vai sair das entranhas e das profundezas da carne. Em nenhum momento temos contato com papéis de Clive, mas principalmente com a sua voz. O escritor se torna um grande narrador e um declamador de prosa, o corpo passa por algo que abrirá propriedades à voz que depende deste corpo para se expressar. John Gielgud fornece ao personagem a tessitura de fala que aproveita todas as potencialidades do idioma inglês e encanta como se fosse uma espécie de monólogo abstrato, ele é sobretudo um tipo de ator sem máscaras. Ele vive sem um palco, mas tem técnicas que se assemelham às dos atores e atrizes. É preciso o corpo sofrer de uma maneira para o provocar com os gritos que não podemos fazer num estado normal. Alterar pessoas e fatos pela imaginação como os seus próximos são na realidade para o ato de criação é uma forte carga para a mente, um exemplo seria enxergar a própria mãe como uma genocida só dentro de seu pensamento e gerar uma personagem marcante. Certamente isto é um pesar para a maioria das pessoas.

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Clive com problemas intestinais.

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Clive em momento de criação enquanto sofre com a doença.

O filme segue uma montagem intercalada entre os personagens-família de Clive, porém não há voz ou narração do escritor. Vemos apenas as interações dentro de suas casas e de algumas paisagens com um quê de onírico devido ao estilo da direção de arte na construção de alguns cenários e da iluminação que usa bem as dimensões dos ambientes arquitetados e selecionados. As escadas podem representar as profundezas da mente, são as diferenças de nível entre os espaços,  é um labirinto camuflado.

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Dirk Bogarde como Claude Langham, filho de Clive Langham – o escritor.

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Da direita para a esquerda: Ellen Burstyn como Sonia Langham e Dirk Bogarde como Claude Langham. Associação bem dialogada entre direção de arte e direção de fotografia.

Deste estilo de montagem e pela dubiedade do escritor e das relações familiares, encontra-se uma poderosa ambiguidade. As pessoas que Clive usa para contar sua história existem, mas tudo é guiado pelo que ele enxerga nestas pessoas ou ele apenas seleciona uma dimensão, um recorte, de suas personalidades que é pouco vista ou percebida, o que é oculto. Ou talvez tudo seja extremamente modificado e metafórico.

Depois de vários momentos de ambiguidade fragmentada e subtramas, a família se reúne na mansão de Clive. Vê-se que seus filhos são totalmente diferentes, mas Clive não. Nas histórias de Clive: sua família era manipuladora, cheia de problemas e em certos momentos imoral – a luz era fria, melancólica. Quando há o encontro na mansão, as relações familiares são dóceis e com lembranças boas – a iluminação está quente, amarelada. Desta diferença de histórias, entendemos melhor quem é Clive e quem ele foi para os seus próximos.

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A família Langham reunida. O significado de providência também pode ser o de “acontecimento feliz”.

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A mansão “Providence“, de Clive, no momento da reunião da família.

Nos momentos finais da reunião da família, que para Clive deveria ser tão importante quanto um ano novo, o crepúsculo chega e é hora de seus filhos e filha partirem. Há nítidos choques de opiniões entre Clive e seus familiares, o sol já não tem mais espaço neste encontro e é hora de Clive voltar ao interior de sua mansão para terminar sua narração e agonia.

O seu câncer é o da criação, uma doença que acaba com o fim e término de um poema, um conto, um romance… esta é uma das suas providências e através dela Clive se remedia diante de si e ao lado dos outros, da sua família original e das suas famílias criadas. Clive teve muitas doenças que já passaram e o resultado foram fortes produções. O término da obra é o remédio.

É hora de ouvirmos e reouvirmos a Valse Crepuscolaire, do compositor Miklós Rózsa e Clive talvez partirá deste mundo ou reencontrará em outro dia sua família que é muito difícil de reunir, mas transforma um único encontro de algumas horas num reatar de laços afetivos que pode se manter por séculos. Há muitas famílias dentro de Clive, muitas almas, por isso ele precisa de uma mansão para que a ocupe. Como ele vai retratar suas famílias agora? Como será sua nova família que entrará na mansão Providence?

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Poster original do filme.

Referências:

AUMONT, Jacques. As teorias dos cineastas. Papirus Editora. 2004.

DAMASCENO, Rodrigo Lobo. Vanguarda, Romance e Romance de Vanguarda: Notas estéticas sobre Ferdydurke, de Witold Gombrowicz. REEL – Revista Eletrônica de Estudos Literários, Vitória, s.2, ano 9, n.13, 2013.