Branco sai. Preto fica (2014)

por Não são as imagens

O filme começa com um depoimento contado de uma maneira impessoal, o personagem Marquim do Tropa descreve com uma narração várias coisas para contextualizar o filme. Primeiro recria a noite da Ceilândia na época da sua adolescência, segundo ilustra de maneira crua o tratamento da polícia para com os negros, homossexuais e mulheres que frequentavam esses locais noturnos (onde elas eram chamadas de putas). A partir daí o filme se torna uma dupla narração onde Marquim fala de seu passado e as imagens falam de seu presente, sua situação atual, e uma coisa chama atenção – o fato de no passado ele ser um dançarino e no presente ele ser um cadeirante.

O mérito de Adirley surge aí, pois ele não cita o incidente que causou isso diretamente, ficando para cada um que assiste ligar uma coisa à outra. Por não montar em cima do incidente e fazer um circo ao redor do mesmo esse filme já ganha muitos pontos, pois a coisa mais óbvia que um documentarista faria seria explorar isso. Ao invés disso ele nos permite conhecer Marquim e seu modo de vida, sua rotina e seus planos, porém essa parte se imerge um pouco em uma ficção futurista de modo que não se pode saber o que exatamente é o Marquim e o que é o personagem de ficção. Após isso ele introduz o personagem Dilmar Durães, um homem que mora em um conteiner no meio de um terreno urbano. Ele possui o nome de Cravalanças e se revela em determinado ponto do filme que ele é um viajante do tempo e possui uma missão. Ele sozinho deve salvar a humanidade marginalizada do horrível futuro de onde veio onde os cristãos assumiram o poder. Ele é retratado como um louco que vê coisas, parte das quais vemos junto com ele, logo ficamos sem saber se a loucura dele é só dele ou se nossa também.

O último personagem fechando a trindade é o personagem Shockito, também dançarino como Marquim, eles eram do mesmo grupo, e não possui uma perna. Igualmente aqui Adirley não faz circo do incidente, nem a perna amputada nem as pernas imóveis são mais personagens que as pessoas, na verdade mal são coadjuvantes, fazem parte das pessoas. Essa abordagem humana dá um destaque mais digno aos personagens. Shockito é menos ficcional, como Marquim, e sua rotina também anda lado a lado com o passado da sua condição. Com o tempo se percebe que Shockito não se inclui ativamente na trama ficcional criada por Adirley e assim se exploram alguns outros aspectos de seu personagem, porém estes só servem pra encher linguiça e nos dar uma informação gratuita que não contribui com a história. O filme com o tempo se imerge completamente na criação ficcional e chega às vias de fato, se o faz com ou sem sucesso é difícil dizer pelo excesso de construções dramáticas inconclusivas.

O filme se trata de um falso documentário onde a ficção se propõe a elaborar uma crítica ao incidente que vitimou Shockito por ser o único que fala a respeito de como veio a perder a perna. Marquim desabafa que “pegou trauma” e isso deixa livre intepretação para se realmente foi no mesmo dia em que o incidente de Shockito ocorreu, sendo reforçado através das fotos deles juntos como dançarinos (aparentemente). O gênero de falso documentário se caracteriza por ser de difícil atribuição de suas partes, ou seja, não se pode afirmar com certeza o que é de fato realidade e o que é de fato ficção. Apesar disso um falso documentário não deixa de ser um documentário, possuindo uma realidade, um contexto e personagens. Shockito é 100% realidade enquanto Marquim e Dilmar funcionam dentro da ficção, Marquim talvez oscilando entre os dois. Paira uma dúvida no ar para o que realmente causou a deficiência de Marquim e se é realmente relacionado ao incidente de Shockito. Pela falta de confirmação ou negação se torna tentador relacionar as duas deficiências, ainda mais se tratando de violência policial. Shockito dessa forma, para não ficar desvinculado da trama ficcional, é vinculado a Marquim por ambos possuírem uma relação com o passado e uma deficiência física; e é vinculado a Dilmar por ser uma “visão” de Shockito, que o desenha como uma visão de um herói, talvez de um sonho, e coloca o desenho na ‘máquina’ de Marquim. O fato de Adirley buscar esse vínculo entre os personagens e o orquestrar de uma forma tão interessante é louvável mas deixa a desejar no quesito roteiro.

Ficcionalmente a trama é uma ficção científica e Ceilândia faz parte de uma realidade distópica onde a sociedade se dividiu explicitamente, ficando de um lado os escolhidos, os melhores – que residem em Brasília -, e do outro lado os excluídos, os marginalizados – moradores da Ceilândia. Para transitar entre as duas cidades é necessário um passaporte, o qual informa claramente e simplificadamente a etnia do dono do passaporte, entre “branco” e “preto”.

Esse tipo de abordagem configura uma crítica social aumentada e tem o objetivo de trazer a crítica à tona para protagonizar a história. A ficção foi motivada pelo incidente de Shockito e representa o discurso do diretor acerca da violência e marginalização que nascem das intolerâncias raciais, de gênero e de opção sexual. A discussão do longa se desenvolve através de Marquim e Dilmar, onde eles representam dois lados da mesma moeda, sendo Marquim um “ativista” que busca mudar o sistema radicalmente e Dilmar um viajante do futuro que veio impedir que Marquim seja bem sucedido. Teoricamente o comentário final que fica é que não se pode ser radical a respeito da situação social pois isso não vai resolver o problema, provavelmente apenas piorar. É possível que Dilmar seja um viajante do tempo que veio de um futuro em que Marquim foi bem sucedido e agora ele voltou para impedir isso e mudar a história “para melhor”.

A missão de Dilmar é vaga e não se estabelece enquanto objetivo dramático, ele possui momentos cômicos aleatórios e sua missão tenta crescer dramaticamente (seu tempo está acabando, etc) através de molduras temporais mal desenvolvidas. Marquim, da mesma forma, é construído como um revolucionário que se propõe a mudar o sistema radicalmente como já dito porém o roteiro falha em construir isso de uma maneira fechada. Mostram-se cenas soltas de Marquim interagindo com a ‘máquina’ que vai jogar uma bomba no Congresso Nacional (construção sempre hilária porque essa é uma imagem presente nas mentes de brasileiros revoltados), criando passaportes falsos (mas em momento algum eles fogem pra qualquer lugar) e escondendo seus documentos sigilosos dentro de um sofá ao som de sirenes do lado de fora. Pela construção do gênero e da trama Adirley foi bem-sucedido, criando um filme que prende a atenção e arranca risadas pois possui uma essência nacional, humana e realista. Entretanto após certo ponto a construção deixa de funcionar, as amarras feitas se enfraquecem por uma falta de força nas motivações e na resolução dos personagens e o filme perde um pouco do brilho, mesmo sem deixar de brilhar um segundo.

Os planos são estáticos e sem movimento respeitando um dinamismo mais tradicional, mais apropriado para o documentário. Focado, objetivo e claro. As imagens ilustram e trazem histórias que em nenhum momento se verbalizam, contextualizando, informando, atraindo, agradando. Buscam e criam uma intimidade com os personagens, tornando-os interessantes, únicos e reais. Criam um ritmo de dia-a-dia por não abusar demais da edição temporal, jumpcuts, ou seja, as ações que levam certo tempo como os elevadores que Marquim usa para se locomover em sua casa são mostrados na íntegra, sem cortes. Marquim saindo do carro, Shockito tirando sua perna e apagando a luz para dormir, tudo isso ilustra a rotina, mostra a diferença entre essa ação para eles e para a maioria das pessoas, contextualizando a condição dos dois, e ao não criar um discurso de pena em cima disso isso se torna algo corriqueiro, algo que faz parte, ao invés de uma “dificuldade”.

Existem algumas imagens simbólicas como a imagem do túnel do metrô sendo percorrido pela tela que simbolizaria o “túnel do tempo”, vinculado ao viajante do tempo Dilmar. Essa mesma imagem para não ficar “solta” pode ser ligada a imagens que possuem carros de metrô passando, como uma imagem de depoimento de Shockito em que um metrô passa, aderindo o “tema” metrô ao filme. Isso provavelmente foi pensado nesse sentido e faz o seu papel muito bem. Pelas imagens bem capturadas e bem pensadas e pela edição bem-feita o filme não cansa em momento algum, praticamente nos convidando para uma re-assistida.

O roteiro peca nos pontos já citados contudo é extremamente bem-sucedido em criar personagens envolventes e divertidos, diálogos bem marcados e cenas que constroem um discurso sólido e claro nas nossas mentes. A conclusão infelizmente reflete uma certa falta de cuidado a questões cruciais dos objetivos dos personagens e motivações dos mesmos, bem como na relação entre eles e como eles se afetam, coisa essencial já que os três são protagonistas e precisam de um elemento unificador. Existe uma tentativa de elemento unificador que não possui força apesar de toda a sua intenção e curiosidade que desperta por ser pouco trabalhada, desabando ao fim do filme. A força dos personagens e dos temas abordados apesar de tudo isso consegue propulsionar o filme e ele levanta vôo, mesmo não sendo o vôo mais gracioso possível.

O diretor, Adirley Queirós, aborda a temática universal da intolerância e disputa de classes de uma maneira extremamente brasileira, zombeteira, realista e bem-humorada. Cria um filme sem um pingo de otimismo mas que te joga do cinema no mundo com um sorriso no rosto. O personagem de Dilmar, na visão deste crítico, vem pra ilustrar a atemporalidade das problemáticas, a fatalidade do caos e a infertilidade do radicalismo. Da mesma forma os personagens de Marquim e Shockito também ilustram essa infertilidade e atemporalidade trazendo a reflexão que as tragédias vem para ficar e que é importante saber lidar com elas e contorná-las. Quanto os personagens e suas intenções se relacionam a reflexão que fica é que é importante buscar agir pelo bem de todos, mesmo que esse mesmo bem de todos seja uma idéia que favorece poucos. Violência não é a resposta, mas às vezes não existe outra resposta. E o choque maior é quando a gente lembra que essa realidade ficcional existe, essas coisas acontecem, hoje, ontem e amanhã. O filme ganha muito pelo simples fato que nada da realidade horrível que nos é mostrada se escancara pra nós. O filme entretem e todos gostam, todos riem, todos se divertem e a reflexão, a triste reflexão, fica a critério de cada um.

Por essas e outras que Adirley Queirós é um dos melhores, senão o melhor, diretor de cinema da atualidade. Porque ele faz um entretenimento que não deixa de trazer algo relevante, algo que precisa ser discutido, mudado, refletido e em momento algum ele sugere que façamos isso. Faz quem quiser. Recomendado.

Nota: O filme foi exibido no quinto dia da mostra competitiva no 47° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, 20/09/14, às 20h30, antecedido pelos curtas-metragens “Nua por dentro do couro”, 2014 e “Castillo y el Armado”, 2014.

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Lucas Simões – 27 anos, formado em Cinema e Mídias pelo IESB, quase formado em engenharia, quase judoca, quase nadador e quase melhor namorado do mundo de várias garotas. Atualmente trabalha com cinema na função de roteirista e script doctor, exercendo ocasionalmente a alcunha de continuísta em curtas-metragem da região. Sua atividade foi de setembro de 2014 a março de 2015.