Ela volta na quinta (2014)

por Daniel Lukan

 “Se lembra?

O vale…

Que linda melodia você fez

Na estrada íamos só você e eu

Pinheiros altos, verdes, que seriam?

Nos nossos fins a escada longa ao fim”

De maneira bastante despretensiosa começa o último concorrente da mostra competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, exibido na última segunda-feira (22/09). Com o acompanhamento da música “O Vale” (um soul de Cassiano) é apresentada uma sequência de velhas fotografias pálidas e desgastadas que revelam os primeiros anos de namoro entre Maria José e Noberto, os nascimentos dos filhos e outras reproduções do passado do ambiente familiar ao qual o filme está nos inserindo. Ela volta na quinta, do diretor mineiro André Novais Oliveira, foi filmado em um bairro de Contagem (MG) na própria casa da família do diretor e tenta desde o princípio criar tensão entre a realidade viva na memória e o ato criativo da ficção.

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A sequência inicial simples e tocante nos revela um casal de protagonistas que conviveu há anos uma relação amorosa sólida e constituiu uma família que usufruiu afetuosidade e carinho entre si ao longo dos anos. No entanto, a aparência desbotada e deteriorada também nos dá indícios de qual é o estado atual das relações entre os componentes daquele passado feliz.

 A temática abordada já é comovente por si só. Contudo, André Novais aguça as possibilidades dramáticas de sua narrativa ao criar um ar documental em sua ficção. Ressalta-se que não se trata de um falso-documentário. O aspecto documental a que me refiro é composto pela apropriação de todos os fatores reais do núcleo familiar do próprio diretor na composição de sua narrativa ficcional. Ou seja, os personagens não foram criados. Noberto realmente existe, é casado com Maria José e é pai de André e Renato. Ela volta na quinta apresenta personagens reais, interpretados por eles próprios, que são inseridos em uma realidade ficcional paralela.

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Essa reconstrução fantasiosa da vida de personagens reais pode ser considerada o grande trunfo do que poderia ser apenas mais um filme sobre o fim do amor. A história se torna mais crua e particular. Nós, como meros espectadores, não temos consciência do que é ou não real em termos narrativos e, assim, o caso extraconjugal de Noberto se torna mais incômodo a partir do momento que vemos a figura real de dona Maria José. Sem poder discernir com maior precisão o real do fictício, o público se torna menos condescendente com o andamento dos acontecimentos que compõem a narrativa.

Além desses aspectos narrativos, Ela volta na quinta tenta por meio de artifícios técnicos nos deixar mais próximos das relações desenvolvidas. A câmera, quase sempre estática, apresenta longos planos e, juntamente com a captação de som carregada de ruídos, ajuda a compor caráter mais documental e observador do filme. A todo momento somos convidados a nos sentir acolhidos no ambiente familiar, ao apresentar vários episódios isolados do cotidiano dos personagens da família Novais – intercalando entre os de extrema relevância ao conflito amoroso entre os pais e os totalmente irrelevantes à narrativa – o diretor consegue prender nossa atenção através da exposição dos problemas particulares da família em questão, ao mesmo tempo em que consegue conquistar a empatia do público ao expor situações banais e recorrentes a quaisquer famílias, como, por exemplo, a cena em que a mãe conversa com o filho sentado a beira da cama fazendo comparações entre a personalidade dele e a do falecido avô, e outra em que os irmãos riem juntos assistindo a vídeos virais no youtube.

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É em meio a essa construção inocente e despretensiosa que foi composto um dos filmes mais apurados e artísticos dos concorrentes no último Festival de Brasília. Não chega a ser um filme genial e extraordinário, porém, em momento algum passa a impressão de que pretendia sê-lo. Uma narrativa simples e que não exigia muito de seus espectadores, ao contrário dos outros cinco concorrentes do festival, e que, apesar de apresentar proposta de atuação aparentemente arriscada, os atores amadores se destacam e atuam com certa segurança ao darem vida a eles próprios. Portanto, o naturalismo que pretendia-se captar é alcançado.

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O mais interessante é notar como o diretor tenta (e consegue) através de vários mecanismos e de alguns detalhes, técnicos e narrativos, criar uma atmosfera real e documental dentro de um cenário completamente ficcional. O filme conta uma história que não teve um fim e da qual sabemos muito pouco sobre o início, ou seja, no fundo pouco importa como foi o amor entre Maria e Noberto e o que aconteceu com os Novais. O que interessa ver em Ela volta na quinta não são situações de conflito, intriga, clímax e etc., assim como não se pretende observar o cotidiano daquela família. O diretor cria uma forma híbrida entre documentário e ficção na qual uma anula a outra. Não interessa os conflitos narrativos e a concatenação entre os vários episódios, assim como não importa o documentário sobre a família Novais. O que sobressai no filme é a pura e simples realidade. Como é na vida da maioria das pessoas. André Novais Oliveira mostra de forma simplória como o cotidiano é simples e ordinário.

Nota: O filme foi exibido no sétimo dia de mostra competitiva no 47° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, 22/09/14, às 20h30, antecedido pelos curtas-metragens “Estátua”, 2014 e “La llamada”, 2014.