Ventos de Agosto (2014)

por Gustavo Fontele Dourado

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Shirley, uma das personagens principais, move-se pelo mar com a barca durante o início do filme.

O diálogo cada vez mais pulsante entre a antropologia e o cinema no Brasil tem rendido debates de como estas áreas podem causar intersecções de linguagens, inspirações, rupturas e fusões numa obra audiovisual e nas próprias etnografias. O uso do vídeo e da linguagem imagética-sonora tem sido mais presente aos poucos nos cursos de graduação em antropologia pelo país. Todavia, nos cursos de audiovisual a crescente influência antropológica ainda não é tamanha na elaboração dos filmes, de estéticas e de narrativas. Seu campo de diálogo ainda se encontra mais nos setores de pós-graduação, onde o aspecto teórico e acadêmico é predominante se compararmos com mestrados de caráter mais prático ou artístico. Do cruzamento entre o cinema e a antropologia, debates de conceitos duais como o “real” e o “irreal”, a “ficção” e o “documentário”, o “verdadeiro” e o “falso” tem influenciado e aberto portas para pensar o audiovisual e em especial os documentários e, ainda com pouca abordagem prática, nas ficções industriais.

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Shirley dentro de uma das casas da comunidade retratada no longa.

Ventos de Agosto se encontra numa época onde as linguagens do documental e da ficção, se considerarmos como elementos distintos e separados, encontram-se cada vez mais problematizadas como algo só e com infinitas maneiras de conjunções e combinações. Gabriel Mascaro é originário de um cinema documental e concretiza a sua primeira dita ficção com ecos das suas primeiras obras e experimentações de linguagem. Muitos tem classificado Ventos de Agosto como uma ficção de imensos traços documentais, no entanto a obra de Mascaro é sobretudo uma ficção poética. É um olhar etno-visual-sonoro sobre uma comunidade de coletores de coco à beira-mar, de trabalhadores da terra que são enterrados na praia.

Talvez pelo rico retrato de uma comunidade distante da realidade urbana e com uma perspectiva mais etnológica do que a de uma narrativa mais tradicional próxima de muitas ficções, alguns espectadores e críticos tem considerado Ventos de Agosto um documentário mascarado de narrativa ficcional. Também por ter uma caracterização aos seus personagens através da montagem como algo inventado, criado e que foi inspirado das informações de um local verídico que tem atividades que realmente acontecem e que ocorreram. O lugar-comum é o de classificar o olhar antropológico como mais usual e adequado ao cinema documental, em específico nas obras de antropologia visual e fílmica. Associação que também é comum fazer ao retrato de comunidades menos urbanas, ou nas sociedades sem escrita ou nas não-ocidentais. Por alguns destes fatores, esta associação geral ao filme de Mascaro está presente em várias observações e textos. Decerto há mais presença das intenções e construções antropológicas em documentários, mas esta não deveria ser uma regra ou um limite.

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Shirley, interpretada por Dandara de Morais. Jeison, interpretado por Geová Manoel dos Santos.

Como estrutura, o filme apresenta três pontos centrais: 1) o cotidiano da comunidade com seus personagens destacados (Jeison e Shirley). 2) a vida e morte de um estrangeiro na região da comunidade (o técnico de som que grava os ventos). 3) E as influências e impactos que a morte deste estrangeiro tem no cotidiano e comportamento dos habitantes da comunidade, sobretudo em Jeison (pescador e catador de cocos) e Shirley (moça que veio do meio urbano para visitar sua avó em idade avançada).

Como construção espacial, Mascaro mostra a interação que os habitantes tem com a terra, com o céu e com o mar. A primeira tem um importante papel na alimentação central da região e do trabalho como meio de sobrevivência perante às forças da natureza. O céu é um local de pouco contato, o máximo que conseguem chegar são as subidas aos coqueiros para perpetuar suas atividades como catadores de coco. O céu é o inalcançável, já o mar é o mistério: é possível entrar nele para caçar – mas, ele se mostra imenso demais e não é permitida uma entrada muito longa.

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Jeison pescando dentro do mar.

Na terra é possível viver e se consolidar, no céu não é possível viver e no mar só se pode existir por certos instantes. O céu e o mar são complementos indispensáveis ao meio de vida dos habitantes em terra, pois se usa do céu para guiar os horários e anos e para a coleta de alimento. No mar só se fica sob ele, por barcos, e no risco para entrar nele para também suprir a necessidade de comida, pela pesca, nada além disto. Nestes três espaços, Shirley, Jeison, seus amigos e os habitantes da região vivem, se amam, se odeiam e trabalham.

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O técnico de som, interpretado por Gabriel Mascaro.

Depois do cotidiano, a figura do estrangeiro aventureiro surge no filme, do técnico de som que grava os ventos do mundo, alguém para ter contato mais profundo com o céu pela proximidade que o som causa, da audição e em detrimento há a distância do corpo, da visão. Ele é aquele que ousa, que quer descobrir os movimentos do mundo. O vento é originário do movimento do planeta, então qual poder mágico, qual símbolo, qual ritual este técnico de som quer fazer parte? O vento é sobretudo o elemento que vive na terra, no céu e no mar, o que consegue existir como uma vida total, plena, a vida pela correnteza – vive em tudo. Por ser um ocidental, o técnico de som pode ser considerado um maluco, um estrangeiro eterno dentro da ótica de sua própria casa, o ocidente. Sua atividade pode ser incompreensível e reduzida ao absurdo. Por ousar demais em captar os ventos do mundo e dos lugares mais perigosos, sua vida não suporta tanta intensidade. O céu e o mar juntos tiram a vida do técnico de som, não é possível mais terra para lhe abrigar. O que restou foi a morte no mar, “não há nada pior do que morrer no mar” – diz um dos personagens do filme.

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Jeison à esquerda. Shirley à direita. Uma cova no centro à beira-mar.

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Shirley num momento próximo de pegar uma coca-cola e se molhar com o refrigerante.

Depois de sua morte, um mistério assola os habitantes que catam coco e pescam. Não se sabe quem morreu, a morte do técnico de som é associada à de outros amigos da região. Nunca será possível saber quem foi aquele que captou os ventos, sua memória foi fadada ao esquecimento, não há estátuas para uma caveira do anonimato. E depois desse episódio, outras pessoas da comunidade somem como a avó de Shirley. Sumir do filme representa a morte e o enterro à beira-mar, apesar de que não há uma cena que mostra isso. Desaparecer é a morte. Agosto é o mês que traz os ventos do falecer e assim chega a hora da cova na praia, os que são identificados pelos habitantes, os amigos, os que tem nome, são fadados ao esquecimento pelo filme. Os nativos se tornam diluídos na natureza, no tempo, são esquecidos. Enquanto que o estrangeiro, técnico de som, não é enterrado e sua memória permanece, não é esquecido pelo filme. Ele está vivo dentro do filme e existe enquanto o filme viver.

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Cartaz oficial do filme.

O diretor, Mascaro, que inclusive foi também o diretor de fotografia, manipula imagens de forte beleza, jogos com o som e a montagem episódica que precisa de uma observação poética para que os episódios se unam. O filme segue como um exemplo de possibilidades que o olhar antropológico, que não pertence exclusivamente à antropologia, traz ao campo de experimentação aos filmes. Há muitos campos que ainda podem incrementar a confecção de filmes de vanguarda e também os mais tradicionais: o olhar antropológico da globalização, da moda, da modernidade, do urbano, do megalopolitano, do consumo, da linguagem, dos que não usam de matemática ou de números.

Este olhar traz outras possibilidades de criação de mundos no audiovisual e outras perspectivas que merecem ser mais problematizadas juntas para uma criação artística num mundo que está longe de ser totalmente mapeado, ainda há muito o que criar e debater. O novo é recriado pelo olhar e pelo escutar. Desta mistura entre documental e fictício com facetas cada mais múltiplas, novos horizontes para o cinema e para a antropologia podem criar escolas mais maduras com estes elementos no cinema contemporâneo.

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O diretor, diretor de fotografia e ator: Gabriel Mascaro nos bastidores do filme.

Nota: O filme foi exibido no sexto dia de mostra competitiva no 47° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, 21/09/14, às 20h30, antecedido pelos curtas-metragens “B-Flat (2014)” de Mariana Youssef e “Luz (2014) de Gabriel Medeiros. Ventos de Agosto ganhou o prêmio de melhor atriz (Dandara de Morais) e de melhor fotografia (Gabriel Mascaro) na mostra competitiva do 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro no dia 23/09/2014.