Metropolitan (1990)

por Daniel Lukan

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Nomeado ao prêmio de melhor roteiro original da 63ª premiação do Oscar, Metropolitan fez Whit Stillman estrear no meio cinematográfico como um dos fortes nomes do cinema americano independente da década de 90. Os outros dois filmes do período – Barcelona (1994) e The last days of disco (1998) – não receberam tanto destaque quanto o filme que inaugurou a carreira do diretor, entretanto, também são dois bons filmes que compõe uma espécie de ‘trilogia’ sobre a Urban Haute Bourgeoisie (UHB).

O roteiro de Metropolitan foi escrito a partir de várias experiências vividas pelo próprio diretor que ao voltar à Nova York após o primeiro ano como calouro em Havard recebeu alguns convites para festas e reuniões de grupos de debutantes. Ao unir suas experiências pessoais a uma adaptação livre e atual de Mansfield Park, de Jane Austen, Whit Stillman compôs um primoroso roteiro fundado a partir de bons diálogos carregados de um humor irônico e elegante, comparável ao desenvolvido por Woody Allen. Além disso, o modo como expõe uma perspectiva moral (ou até mesmo sociológica) sobre as convicções e pontos de vista dos personagens em relação a: amor, trabalho, fé, sexo, política, ética, etc… e as discrepâncias entre o que pensavam e o modo como agiam assemelham às abordagens dos filmes de Éric Rohmer.

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Os UHB’s meio que definem todo o universo do cinema de Whit Stillman: são filmes sobre jovens adultos pertencentes a um tipo de aristocracia urbana e decadente norte-americana. O rótulo, proposto por um dos personagens de Metropolitan em uma das várias conversas sobre classes e categorias sociais às quais eles e os outros pertencem, é logo adotado e difundido nos diálogos posteriores.

‘Definido’ em um tempo “Not so long ago”, Metropolitan permite caracterizar certa atemporalidade em seu enredo, ou seja, uma ambientação não fiel do início dos anos 90 que, no entanto, busca reproduzir nostalgicamente o início do convívio social entre os jovens das décadas de 60 e 70. O filme tem início quando Tom Townsend (Edward Clements) acaba por engano (e por força das circunstâncias) dividindo um táxi com um grupo de jovens burgueses de Manhattan que estão indo para um pós-festa na casa de Sally Fowler (Dylan Hundley), onde passam a noite comendo, jogando e conversando sobre diversos assuntos. Apesar de criticar esse tipo de reunião, ele acaba indo após o convite e insistência daqueles com os quais estava dividindo o táxi. Após a primeira noite, quando percebe que aquelas pessoas eram mais simpáticas e menos vazias do que imaginava, ele vai gradualmente diminuindo a resistência aos convites para os encontros e saídas com o grupo, até o momento em que está definitivamente inserido naquele ciclo de amizades.

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Metropolitan apresenta a alta sociedade burguesa por meio de uma comédia de costumes na qual a ingenuidade e a arrogância dos personagens são os principais componentes dos sofisticados diálogos e, portanto, o fio condutor de grande parte do roteiro, uma vez que praticamente todos os noventa e oito minutos do longa são dedicados às conversas entre o grupo de amigos. Além disso, o fator satírico dos diálogos é reforçado através da presença de Tom Townsend, um jovem de classe média, que mora do lado oposto da cidade e que é seguidor do socialismo defendido por Fourier; sendo, logo, uma figura completamente destoante com a função de tornar possível uma visualização de uma perspectiva exterior à da classe predominante que é satirizada, evidenciando os comportamentos e pensamentos ironizados.

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Contudo, vale ressaltar que Tom Townsend não aparece apenas como um contraponto que possui a função de atacar os UHB’s, ele possui contradições que também são atacadas pelos outros personagens e que, desse modo, entram no sistema de satirização do filme. Inclusive, como minoria, suas contradições, ingenuidades e até mesmo hipocrisias às vezes aparecem mais claras do que as dos outros. Depois de um primeiro momento de resistência a entrar naquele meio que feria os princípios que defendia até então, torna-se claro como Twonsend passa a buscar a aceitação social daquele grupo por meio da mudança de comportamentos banais que vão se apresentando ao longo do filme, sendo os principais exemplos: a mudança na forma de se vestir, quando ele adquire o smoking que até então apenas alugava em algumas ocasiões; e a principal delas que é começar a ler romances ao invés de continuar a defender que boas críticas eram suficientes para julgar uma obra literária.

Whit Stillman projeta em Metropolitan uma série de discussões comportamentais e ideológicas que excedem as já mencionadas relacionadas a questões de diferenças de classe e aceitabilidade social. Sobretudo, ao expor a fragilidade e a vulnerabilidade do discurso eloquente que esconde a verdade por trás de uma fala emitida por simples conveniência das aparências e das circunstâncias. Isso fica evidente nas sucessivas contradições dos personagens que defendem ideias e postulam princípios a todo momento e na sequência passam a defender coisas opostas, mudam de ideia ou simplesmente relatam uma experiência qualquer que diverge da ideia anteriormente defendida. É possível por meio disso perceber como os personagens construídos apenas em meio aos diálogos se tornam mais inconsistentes e instáveis, visto que não os vemos fazer quase nada além de conversar; logo, não temos a oportunidade de visualizar ações e situações que sirvam de base para definir o caráter deles. Tal efemeridade do discurso é mais evidente na figura de Nick Smith (Chris Eigeman) que aparentemente é a figura mais genuína da urban haute bourgeoisie e que defende de forma mais aberta e sincera as atitudes frívolas, as condutas superficiais e os costumes inúteis da UHB, mas que no final acaba por ser o primeiro a assumir a falência daquele modo de vida.

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Por último vale ressaltar a importância do roteiro na concepção desse longa-metragem que não apresenta inovações e que não chama atenção por seu conceito técnico de audiovisual, estritamente falando; apesar de também não apresentar imperfeições. Poderíamos falar, quem sabe, em um bom desempenho da direção de arte. Em geral, apresenta uma concepção visual e fotográfica simples e satisfatória. No entanto, o roteiro sobressai como o grande trunfo em Metropolitan, e não apenas por sua indicação ao Oscar de melhor roteiro, mas, sobretudo, pela potência que os diálogos adquirem, tornando-se o objeto fundamental na composição narrativa do filme.