El puño de hierro (1927)

por Thiago Campelo

Puño de hierro

O México foi o primeiro país da América a ter exibições de filmes Lumière e, por consequência, a adquirir um cinematógrafo. Em 1896, governava Porfírio Diaz e seu desejo pelos avanços tecnológicos da virada do século, juntamente com sua francofilia escancarada, permitiram que o invento dos irmãos franceses chegasse ao país antes mesmo de chegar aos Estados Unidos, blindado por Thomas Edison.

O cinema mexicano se desenvolveu, grosso modo, sob as mesmas condições que quase todos os cinemas ocidentais, no que toca questões como a censura e a repulsa das classes dominantes. Luis G. Urbina, na época daquela primeira exibição, demonstrou todo seu desentendimento quanto ao sucesso do invento, bem como o reflexo do pensamento de um segmento da sociedade que classificava o cinema como atração exclusiva das massas:

“As massas incultas experimentam, ao sentar-se em frente à tela, o encantamento de uma criança que escuta o conto de fadas narrado pela avó; foge à minha compreensão como pode um grupo de pessoas com a obrigação de serem civilizadas idiotizar-se, noite após noite, com a repetição interminável de cenas cujos anacronismos, aberrações, inverossimilhanças são deliberadamente produzidos para um público do mais baixo nível mental, desconhecedor das mais básicas noções de educação”.

A censura e a repressão exercida pelo Porfirismo, por força da igreja e de setores conservadores da sociedade mexicana, quase minou o cinema nacional que passou a ter exibições programadas pelo próprio estado, que obviamente, controlava o conteúdo das produções.

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Dessa maneira, é inegável que a tradição cinematográfica mexicana é documental. Obviamente, primeiro foram os feitos do regime de Porfírio Díaz a serem filmados, bem como os acontecimentos divulgados pela imprensa, o que aponta para uma semelhança com os primeiros anos do cinema no Brasil. Depois, foram as batalhas da Revolução e até o final dos anos 10, era dentro deste recorte que o cinema mexicano atuava. Em 1919, é Enrique Rosas que dá certa força ao cinema ficcional do país com “El automóvil gris” e a partir daí esse tipo de produção mantém-se estável. Por mais que houvesse passado por uma Revolução, as restrições ao cinema não foram aliviadas e é no limiar do cinema mudo, quase 10 anos depois, que um filme incompleto, desaparecido por 74 anos, por causa da censura, mostra a pungência de uma narrativa sem amarras morais.

El puño de hierro” (1927), de Gabriel García Moreno, foi filmado na cidade de Orizaba, do estado de Veracruz e após a estreia nessa mesma cidade, nunca chegou a ser exibido na Cidade do México. Nos anos 60, 7 rolos de película, com uma edição prévia – que acredita-se ter sido feita pelo próprio diretor –, foram doados para a filmoteca da UNAM e sofreram novas edições, sendo relançado em 2001.

vlcsnap-2014-10-06-19h16m53s239Ainda preso à história do cinema nas Américas, o que de mais interessante se revela é a não exclusividade brasileira sobre o fenômeno que se conhece por ciclos regionais. Desenvolvido nos anos 20, o ciclo regional de Cataguases revelou Humberto Mauro, de “Tesouro perdido” (1927) e “Brasa dormida” (1928), como um dos maiores cineastas da história do Brasil – não necessariamente naquele período –, carregado de autenticidade e classificado como a raiz do cinema nacional. Glauber Rocha, na Revisão do Cinema Novo, o qualifica como “essência maior”.

Pouco se sabe de Gabriel García Moreno e não há uma só linha que lhe dê a mesma importância, no México, que Humberto Mauro possui no Brasil. “El puño de hierro” foi a última direção de Gabriel, que morreu 16 anos depois, fazendo um último trabalho, como técnico de som, no longa-metragem “Diablillos de arrabal” (1940), de Adela Sequeyro.

No entanto, as semelhanças existem. Sem se preocupar com as regras de censura, o filme conta a história de um jovem, Carlos (Octavio Valencia), que sede a curiosidade sobre os efeitos das drogas e influenciado por um traficante chamado Abutre (não se sabe o nome do ator), toma uma dose de morfina. A partir daí, Carlos, em estado aparentemente alucinatório, passa por uma série de acontecimentos, incluindo a aparição de um bando de ladrões de fazendas, um detetive mirim, o envolvimento com o tráfico de drogas e a aparição de um médico que tenta lhe roubar a namorada incentivando ainda mais o seu recente vício.

As semelhanças antes referidas não são obrigatoriamente de ordem estética, mas sim na preocupação de abordar através de uma história ficcional, uma questão estrutural da região de Vera Cruz no início do século XX.

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A película silenciosa é memorável desde seu segundo plano: o braço de um jovem de vida bem estruturada é picado por uma seringa que lhe injeta a substância ilícita: dedos retorcidos e depois relaxados. Logo em seguida, em êxtase, Carlos abraça e beija um burrico que confunde com sua namorada, Laura (Hortencia Valencia). Laura, por sua vez, ao longo de todo o filme, assume uma postura de liderança da relação. Preocupada com o namorado, procura ajuda do Dr. Anselmo Ortiz (Manuel de los Ríos) para que lhe ajude e, aceitando a possibilidade de que Carlos não consiga se recuperar, flerta abertamente com ele.

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Além dela, há Esther (Lupe Bonilla), namorada de Antonio (Carlos Villatoro), amigo de Carlos e também líder do “bando do morcego” – ao menos na alucinação do protagonista. Esther é também uma golpista e traficante, usuária de cocaína que, com a ajuda de Carlos, retira Antonio dos roubos de fazendas e o introduz no tráfico de drogas. Sobre Esther, mais do que sobre Laura, a subversão dos padrões é ainda mais evidente. Esther mostra o corpo, insinua-se e provoca Antonio sem pudores.

Vale ressaltar que todos os personagens, com a exceção do Abutre e de uma figura sorridente que sempre mostra seus falsos dentes, fazem parte, de duas camadas sociais bem distintas: jovens ricos, filhos de fazendeiros e, ao mesmo tempo, traficantes, viciados, golpistas, ladrões e lascivos.

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Sobre o Dr. Anselmo Ortiz, que representa claramente a figura da lei, o portador da resolução do problema das drogas na cidade, é também o chefe do tráfico. O doutor, que, enquanto criminoso atende pela alcunha de “El Tieso”, é o responsável por alimentar a cidade inteira com morfina, cocaína e ópio.

Dessa forma, entende-se o motivo pelo qual o filme foi censurado no final dos anos 20 e ficou perdido por tanto tempo. O México, bem como toda a América, sempre foi muito conservador e, para o período, era inimaginável representar pessoas das classes dominantes passíveis aos infortúnios que atingem majoritariamente a base da sociedade.

Para além dos personagens principais de “El puño de hierro”, é preciso também falar sobre a figura do homem que, desde o começo do filme, aparece com um sorriso disforme. O doutor discursa no coreto da praça sobre os efeitos das drogas. Ele se aproxima, ri do médico retirando a parte da frente dos dentes postiços e faz um sinal negativo. Isso se repete quando a confusão final está armada e ele ri de todos.

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É perceptível que o discurso moralizante do cinema clássico que se propagou por todo o mundo está presente no filme. Os intertítulos dizem: “os depravados que se estabelecem em um antro de vício para dar rédea solta a suas desenfreadas paixões”. O médico fala de deformações causadas pelas drogas. O vício que pode destruir vidas. Entretanto, esse personagem sem nome, que vaga entre a praça e o antro, põe em cheque tal efeito. Ao rir do médico, ele ri de um grupo social específico e faz o filme rir do modelo vigente que ele mesmo faz uso.

El puño de hierro” é um filme que se encaixa justamente na falha do discurso consolidado pelo cinema estadunidense de uma determinada moral. Utilizando-se do grotesco, da deformidade, dos orifícios presentes tanto imageticamente quanto na construção do caráter de seus personagens, Gabriel García Moreno “rebaixa” seu filme para “rebaixar” o cinema como um todo, num filme que, moldado sobre estruturas da cultura popular, amofina a hegemonia de certo modelo de como se fazer cinema.

Referências:

MORA, Carl J. (1988). Mexican cinema: Reflections of a society 1896-1988. Los Angeles: University of California Press.