Procedimento Operacional Padrão (2008)

por Gustavo Fontele Dourado

Standard Operating Procedure

O diretor Errol Morris em locação do filme.

Violação dos direitos humanos e suas consequências fazem parte de um escopo de debate extremamente apimentado, polêmico e que remete a revisões de práticas do ocidente em atos de violência, em guerras e em confrontos dos mais diversos tipos.

O documentário de Errol Morris revela o que poderia ser oculto ou apenas especulado, aquilo que é chamado de Procedimento Operacional Padrão (Standard Operating Procedure) – a humilhação de prisioneiros de guerra para arrancar informações sobre o paradeiro de líderes como Saddam Hussein. Procedimento Operacional Padrão é uma humilhação programada, detalhada e planejada para provocar uma forte alteração no estado psicológico do soldado. Algo que não cause mortes, mas que ponha os soldados iraquianos capturados pelos norte-americanos em situações extremas e especialmente acontecimentos humilhantes.

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Fotografia feita por um membro do exército norte-americano na prisão de Abu Ghraib. Lê-se S.O.P. – Standard Operating Procedure (Procedimento Operacional Padrão).

Como um dos argumentos mais provocantes, o filme apresenta o que poderia ser a violação aos direitos humanos e o Procedimento Operacional Padrão, existiria uma linha muito tênue entre ambos na mentalidade do exército norte-americano. Mas, muito provavelmente tal linha não existe e ambos seriam a mesma coisa. Morris propõe a discussão do ser humano e a relevância do papel que os Estados Unidos têm na criação da história mundial atual em partes muito sombrias com ações e geração de contextos. Os indivíduos no filme são muito importantes para a criação de violência e fatos sombrios, mas eles apenas seguem ordens. Vê-se o que mais de ruim a humanidade pode oferecer, escândalos que só foram revelados por fotografias de fetiches mórbidos registradas e divulgadas ao mundo por acidente, as imagens das humilhações, das torturas e do macabro. Assim o mundo conheceu o que está por detrás das janelas das prisões de guerra.

O que vale é vencer a guerra e o Procedimento Operacional Padrão é um forte instrumento para chegar a objetivos difíceis, uma metodologia da crueldade. Confrontamos algo que muitas vezes a humanidade quer esconder: preconceitos, cinismo e intolerância. A complexidade histórica do ser humano é dialogada, é vista e não é ignorada pelo filme.

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Vemos muitos soldados que participaram da guerra do Iraque e do Procedimento prestarem depoimentos diretamente para a câmera, com closes marcantes e leves pausas – um silêncio que incomoda, um vácuo de violência que passou nestas faces sinceras, nos rostos entrevistados em confissão.

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Amontoar os soldados nus uns aos outros, fazer com que eles se arrastem no chão, cortar a circulação da mão até que ela fique roxa, colocar um homem com cabeça coberta em cima de um suporte com seus braços amarrados em cabos de força em cima de água (os cabos são falsos), isto faz com que o soldado pense que se ele soltar os cabos vai morrer e assim o deixa numa posição por horas. Amarrar uma coleira em um iraquiano também com a cabeça coberta num saco. Humilhações sexuais. Estes são alguns exemplos das torturas que os norte-americanos fizeram e ainda mencionam que fazem ações semelhantes aos prisioneiros em Guantánamo – prisão norte-americana.

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Tudo está localizado no universo eletrônico da fotografia digital, todos os atos foram documentados e através do registro imanente das fotos, é possível localizar a data, o ano e a hora. Forma-se um grande álbum de humilhações e que precisava ser mostrada ao mundo. As fotos foram captadas com câmeras diferentes e programadas com horários distintos umas das outros, porém foi possível organizar e sistematizar as fotografias em um padrão gigantesco que revela e desmistifica as intenções boas das patrulhas de guerra dos Estados Unidos no Iraque. As fotos se assemelham a uma festa na ótica dos soldados norte-americanos, uma visita a um parque de diversões, os sorrisos são automáticos perante a uma câmera, não importa o fundo de tortura.

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Fotografia de uma soldada posando para um iraquiano em coma.

Investiga-se alguns dos anseios dos humilhadores, de suas vontades enquanto pessoas, vontades sexuais, de poder e de visões. Eles ainda são humanos, mas executam suas ordens de desumanidade. Existem seus inimigos que são sugados até a última gota como fonte de informação, de dados para vencer a guerra, o que resta ao iraquianos é o abismo da vergonha, o vazio do não-humano.

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Um dos cartazes do filme. Destaca-se a câmera digital como uma arma para intervir na opinião da mídia.

O estilo de Morris que está presente em outras de suas obras de maneira muito visível: os entrevistados olham para a câmera com closes hipnóticos. Morris sabe filmar um close como Jonathan Demme em O Silêncio dos Inocentes (1991), aproveitar como um mestre o efeito hipnotizante que a presença de um rosto humano causa, são closes de carisma. Outra característica são muitos planos detalhes para descrever acontecimentos – vemos as ações de forma próxima, lenta e presa aos nossos olhos. A encenação de planos muito bem construídos em iluminação e direção de arte para provocar dramaticidade, a música reflexiva e tocante do qual Morris manteve muitas parcerias como as de Philip Glass em A Tênue Linha da Morte (1988) – que provou a inocência de um homem condenado a morte num sistema de justiça corrupto, Uma Breve História do Tempo (1991) – a história de vida do físico cânone da atualidade: Stephen Hawking e Sob a Névoa da Guerra (2003) – filme que acompanha a trajetória do ex-secretário de defesa na presidência de John F. Kennedy durante a guerra dos mísseis e também seu papel ao longo do século XX enquanto século de guerras: o personagem Robert MacNamara. Já neste filme de 2008 o compositor é Danny Elfman, que apresenta uma linguagem semelhante, mas com sua marca de instrumentação e apuro melódico. O uso de efeitos sonoros muito arrojados associados à música contribuem para o impacto que Morris quer transmitir: o choque das ações sociais nos seus aspectos mais sombrios.

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Exemplo de encenação.

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Humilhação coletiva.

Morris mostra ainda o potencial que o cinema tem de denúncia, de politização do mundo e da investigação do social, das facetas que a humanidade tem a oferecer, ou de temas altamente polêmicos como a eutanásia no Dr. Morte (1999). Enquanto que em Uma Breve História no Tempo (1991), vê-se o que a humanidade tem como uma de suas principais qualidades: a inventividade, a criação, a genialidade, a preservação da vida… em filmes como Sob a Névoa da Guerra (2003), A Tênue Linha da Morte (1988) e Procedimento Operacional Padrão (2008) há o que não pode ser ignorado, o que há de ruim no indivíduo contemporâneo, numa sociedade de violência e de crimes soturnos. O factível não se esgotou e há muitos temas, políticas e micropolíticas a serem investigadas e atos que merecem denúncias. Há muito que é desconhecido e oculto dentro destas múltiplas sociedades. O que dizer no Brasil de campos de concentração de japoneses no nordeste brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial? Ou mesmo de outras etnias?

Morris faz um documentário de um jeito mais “clássico”, mas se torna talvez mais instigante que falsos-documentários que talvez trazem mais inovação enquanto linguagem. Todavia, eles podem ter menos importância de investigação perante a complexidade da globalização nos seus âmbitos mais internacionais, transnacionais e locais que tem muito o que oferecer como temas para a arte cinematográfica.