Sideways – entre umas e outras (2004)

por Não são as imagens

O filme é em primeiro lugar um roadmovie, um filme de estrada, onde há uma jornada literal para algum lugar e um objetivo a ser cumprido, ao longo de tudo isso o personagem ou os personagens sofrem mudanças ao serem afetados pelo que encontram pelo caminho. A jornada é uma viagem de dois amigos, Miles (Paul Giamatti) e Jack (Thomas Haden Church), que supostamente se trata de um tour pelo Estado provando bons vinhos e curtindo os últimos dias de solteiro de Jack, já que ele se casará dentro de alguns dias. Miles é um escritor frustrado que dá aulas de literatura em uma escola e tenta publicar um romance. Um homem depressivo que carrega até o momento presente uma culpa pelo fim de seu casamento com a mulher que amava, coisa que aconteceu dois anos antes. Miles portanto precisa superar o fato que seu casamento acabou e se permitir novos relacionamentos. Jack, por outro lado, é um ator, garanhão, extrovertido e agora que vai se casar quer dar a si mesmo uma despedida de solteiro, levando seu melhor amigo Miles junto. Jack então precisa aceitar o fato que sua vida de solteirão pegador acabou e agora ele é um homem de uma mulher só.

O filme se trata de uma comédia, primordialmente, com belas pitadas de seriedade, falando sobre a amizade, o amor e sobre o amadurecimento. A comédia pontua uma construção do roteiro (talvez também no livro que originou a obra) que traz para o filme uma atmosfera de vida real, que possui altos e baixos, risos e lágrimas. Miles e Jack são exatos opostos um do outro, dessa forma um funciona como o grilo falante do outro e para a construção cômica do diálogo eles agem como os clowns da comédia clássica, o palhaço branco e o palhaço vermelho. As duplas de comédia no cinema possuem uma construção simples que se aplica aqui também, onde existe um homem sério (Miles) e um louco (Jack). E a história é levada pelo homem louco, mas no fim ele geralmente é salvo pela sensatez do homem sério. A comédia já começa justamente pelo fato de Miles haver planejado a viagem como uma aventura de provação de bons vinhos, uma viagem relaxante, para ele.

Para Jack, contudo, esse planejamento de Miles é extremamente entediante e ele decide fazer o planejamento dele para a viagem, ou seja, ficar doidão e curtir pra caramba, isso para ele é relaxante diante do que o aguarda no mundo real.

Miles (esq) e Jack (dir) seguem sua jornada de curtição mesmo depois de Jack se ferrar.

Miles (esq) e Jack (dir) seguem sua jornada de curtição mesmo depois de Jack se ferrar.

O tema da amizade então é trabalhado através do relacionamento dos dois, um julga o outro e ambos refletem sobre suas realidades. Ambos precisam amadurecer e aceitar que o momento que eles tanto querem manter faz parte do passado. Miles quer sua ex esposa de volta e Jack quer continuar sua vida fácil de solteirão. Eles então estariam imersos cada qual em seu “mundo especial” onde não existem problemas, ou até existem mas os problemas que existem estão fora do controle deles. Assim eles bebem, assim eles dirigem, assim eles fogem e no meio dessa fuga eles encontram duas mulheres, uma para cada; Miles encontra Maya (Virginia Madsen) e Jack encontra Stephanie (Sandra Oh).

As mulheres surgem com o papel de âncoras, de link para o “mundo real”, para trazer cada um dos personagens para seus problemas, suas urgências, e lidar com elas. Maya possui muitas semelhanças com Miles e gosta dele, Miles no entanto se sente culpado pelo que fez a sua ex esposa Victoria, que pediu o divórcio por ele ter cometido adulterio, e precisa trabalhar isso. Stephanie é uma mulher objetiva, sem cartas na manga, que quer um homem para ser um bom pai para sua filha pequena e Jack finge se prestar a esse papel. Os erros do passado de Miles e o presente sempre errado de Jack vêm à tona ao fim da viagem, quando Miles magoa Maya e quando Jack percebe que perder sua esposa Christine é inaceitável, pois a ama.

O que une todos esses personagens é a paixão pelo vinho que é uma metáfora do amadurecimento, que as pessoas são como o vinho, só melhoram com o tempo e tem um grande potencial. Mesmo assim, igualmente como o vinho, se não “abertos” e “explorados” a tempo, se perdem.

Stephanie, Jack, Miles e Maya se divertem. As duas ainda não sabem que Jack vai se casar no final de semana.

Stephanie, Jack, Miles e Maya se divertem. As duas ainda não sabem que Jack vai se casar no final de semana.

O diretor, Alexander Payne, possui uma força cômica maior na comédia física do que nos diálogos, nos fazendo rir com êxito nos momentos em que vemos as situações em que os personagens se metem. Giamatti e Haden funcionam muito bem em suas expressões faciais, transmitindo com fidelidade a intimidade de amigos de longa data. Eles correm e apanham basicamente, ilustrando bem como o interior deles se traduz em ação.

Ao final da obra, ambos se redimem com atos cômicos que visam um mesmo objetivo: salvar o casamento de Jack. Miles invade uma casa para resgatar a carteira de Jack que contém as alianças de casamento e Jack bate o carro de Miles para criar um álibi para seu nariz quebrado. Fora a comédia física, a comédia da dupla reside em maior parte na hilária negatividade de Miles com a qual todos conseguimos nos identificar. Apesar disso, a força maior de Miles está em outro elemento: na dor, no coração partido, na culpa, na raiva, no medo, na humanidade que o torna um personagem tão atraente. A vida parada no tempo de Miles, congelada na eterna esperança de sua ex esposa voltar para ele, mesmo ela já estando em um novo casamento, possui dois elementos, o livro e o vinho Cheval Blanc de 1961. O livro representa a evolução pessoal de Miles enquanto escritor, enquanto pessoa que percebe a vida e que entende a vida, coisa que ele não é no momento do filme. Ao encontrar Maya e ao dividir o seu livro, a sua ambição com ela, o coloca de volta nos trilhos enquanto alguém que se conecta com outros seres humanos ao invés de se isolar em seu mundo particular.

O Cheval Blanc representa esse sentimento por Victoria, precioso, belo, preservado a qualquer custo, guardado a sete chaves e o simbolismo da cena onde ele abre esse vinho inestimável em uma lanchonete de fast food é o de banalidade. Sentimentos vem e vão, precisam ser aproveitados no momento certo. Isso se reforça também pelo fato que o Cheval Blanc de 1961 é um vinho que se perderia em pouco tempo, ou seja, está na hora de seguir em frente Miles.

Uma das cenas que ilustra a comédia física de Payne. Miles desesperado tentando aliviar a dor de uma notícia repentina a respeito de sua ex esposa.

Uma das cenas que ilustra a comédia física de Payne. Miles desesperado tentando aliviar a dor de uma notícia repentina a respeito de sua ex esposa.

A beleza dessa comédia, das comédias, é essa capacidade de criar essa dança entre o drama das realidades, das necessidades, dilemas, o inevitável, e a graça de como somos todos despreparados e atrapalhados para lidar com tudo isso.

________________

Lucas Simões – 27 anos, formado em Cinema e Mídias pelo IESB, quase formado em engenharia, quase judoca, quase nadador e quase melhor namorado do mundo de várias garotas. Atualmente trabalha com cinema na função de roteirista e script doctor, exercendo ocasionalmente a alcunha de continuísta em curtas-metragem da região. Sua atividade foi de setembro de 2014 a março de 2015.