Mother of George (2013)

por Thiago Campelo

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Dividir e classificar o cinema, assim como em qualquer outra área, é de certa maneira, natural. Entretanto, nessa tentativa de linearização da história cinematográfica, existem ramificações que impossibilitam essa disposição metódica. Dentre os mais variados pontos que permitem esses ramos crescerem, como diferenças estéticas, temática, ideológicas, etc., os processos de produção podem assumir papel de destaque.

É certo que, tratando-se de cinema norte-americano, a questão dos meios de produção se torna um dos temas mais importantes e, em certa medida, é o principal impulsionador de mudanças estéticas. Tratando-se dos indie movies, há quem os veja como um advento da cinematografia dos 80 e 90, uma resposta ao blockbuster, com algumas reaparições em títulos que surgiram nas décadas subsequentes.

Todavia, desde a grande depressão e o advento do som no cinema, surgiram filmes que, em certa medida, fugiam às regras do cinema standard, por mais que, em sua maioria, fossem produzidos pelos grandes estúdios.

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O desgaste da fórmula, 40 anos após o advento do filme B, nos leva ao período da Nova Hollywood. John Cassavetes, que fez parte desse período já produzia desde o final dos anos 50, livre dos estúdios, filmes completamente independentes, assim como Andy Warhol e Robert Altman.

Sendo assim, esse cinema estadunidense de destaque, em grande parte, pode ser tomado como extensão do filme B dos anos 30, reflexo do movimento de contracultura do final dos anos 50 e como desdobramento da Nova Hollywood do final dos anos 60, etc. Ou seja, toda uma tradição de ruptura com paradigmas ideológicos e estruturais disseminados pelos grandes estúdios.

No entanto, por mais que seja tentador reduzir e classificar o filme independente só pela sua liberação da lógica de grande mercado há de se pensar que é também a possibilidade de liberação estética e política para seus realizadores. Geralmente, os indie movies são bem destoantes das grandes produções de estúdio tanto nas temáticas quanto na forma como são abordadas.

vlcsnap-2014-11-02-15h28m08s131Dentro dessa perspectiva, tentando não encaixotar o cinema independente estadunidense é que se assiste hoje, Mother of George (2013), de Andrew Dosunmu, diretor, fotógrafo e produtor nigeriano, também diretor de Restless City (2011), erradicado em Nova York.vlcsnap-2014-11-02-15h27m53s202

Nos créditos iniciais, não aparecem leões, montanhas ou globos. Mother of George, produzido pela Parts &Labor e Loveless é um drama familiar. Após o casamento de Ayodele (Isaach De Bankolé) e Adenike (Danai Gurira), a recém-constituída família nigeriana em Nova York, não consegue dar a luz a uma criança, um filho que terá que se chamar George, extremamente esperada pela matriarca da família, a mãe de Ayodele, Ma Ayo Balogum (Bukky Ajayi). Assim, o filme é construído através da pressão exercida pela tradição sobre uma família inserida em um contexto cultural distinto.

Contrariando o que se pode esperar, na maioria das vezes, de um roteiro regido por essa premissa, o filme não assume um discurso maniqueísta onde o ocidente, resumido à cidade de Nova York, é o inquestionável progresso e a cultura nigeriana, transfigurada na família Balogum, tivesse que se sujeitar aos seus meios. Ayo não segue o estereótipo consolidado pelo cinema de negro bestializado, que simplesmente vê em sua esposa um objeto de exploração e prazer. Adenike também não é a negra extremamente sensualizada sujeita aos mandos e desmandos dos homens em geral. Ambos se amam e sofrem por não serem capazes de gerar um filho.

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Mother of George não se dá, enquanto filme, como mero concessor de espaço para abordar questões de grupos minoritários. Ele ressignifica a construção desse espaço como área de empoderamento de um grupo. Não é questão de sensibilizar-se com um drama cinematográfico adaptável ao universo escolhido, mas fazer ver e ouvir uma pluralidade identitária.

O filme começa com a cena do casamento de Ayo e Nike. É impossível dizer, que se está nos EUA até que Sade Bakare (Yaya DaCosta), amiga de Adenike e dama de seu casamento, nos alerta que ela não é mais de Lagos, e que agora vive no Brooklyn. Sade representa, ao longo da trama, o oposto de Ma Ayo Balogum. Pode ser encarada como a figura de maior integração na lógica da cidade. Desapegada, em certa medida, das tradições de seu país, é unicamente através dela que se vê o cosmopolitismo da cidade. Sade aconselha Adenike a procurar um médico, ou em pensar em adotar uma criança, desvencilhando-se dos laços de sangue tão caros à tradição familiar. Ela também se relaciona amorosamente com Biyi (Anthony Okungbowa), irmão de Ayodele, de maneira casual, por mais que ao longo do filme se construa um drama menor, paralelo ao central, da vergonha de Biyi em assumir o relacionamento.

vlcsnap-2014-11-02-15h26m14s251Por sua vez, Ma Ayo Balogum, matriarca da família, mulher já idosa, é a guardiã das tradições. É ela que exerce pressão sobre Adenike para que lhe dê um filho homem que, ao seu modo de ver, representará a sua continuidade. Por mais que a representação desse recorte seja feita através de uma mulher, o seu processo de identificação é com o universo masculino.

Tanto Adenike quanto Ayodele e Biyi vivem o conflito entre a tradição que se apresenta na figura da mãe/sogra e o cosmopolitismo da amiga/amante. É um atrito trabalhado em bom tom, sem dualizar completamente as partes. Por mais que se perceba melhor a ambiguidade nesses três personagens, tanto Sade quanto Ma também são personagens maleáveis. Sade é exposta ao desprezo da tradição familiar através de Biyi e Ma luta contra a desestruturação da família.

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Ao longo do filme são raros planos abertos com considerável profundidade de campo. Não se vê a cidade de forma alguma e sempre temos Ayo ou Nike, sob um foco oscilante, tomando ao menos metade do quadro. É dessa maneira que Dosunmu constrói primorosamente o que há de mais importante em sua narrativa. As emoções e sentimentos de suas personagens oscilam enquanto caminham ou em tempos mortos. Por mais que a película tenha uma organização aparentemente linear, a densidade do filme se dá enquanto balada, crescendo verticalmente na profundidade de seus personagens diante do drama que lhes perturba.

Por muitas vezes Adenike observa a rua. O quadro mostra somente seus olhos e uma mancha cinza azulada a sua frente. Em contraste, a cor de suas roupas, o concreto e o metal das ruas. A fotografia é primorosa e explora certa sensualidade que não é reflexo da história ou dos corpos dos atores, mas que contrasta as cores fortes e quentes das roupas e dos ambientes internos com uma luz extremamente fria – a exceção da cena inicial, a do casamento – que remete à situação de desespero das personagens.

vlcsnap-2014-11-02-15h32m43s77É também interessante, como são constituídas a paleta de cores em clara referência à cultura Yoruba. Em algumas cenas muito características, as cores não estão lá por pura adequação visual. Talvez por fazer parte da tradição ou por escolha de uma representação de determinados Orixás para cada momento. As cores do casamento, por exemplo, permanecem, em grande parte sobre tons de amarelo e laranja, cores que remetem à figura de Oxum, a jovem mãe, associada à fertilidade.

Enquanto filme independente, por condições mercadológicas ou autorais, a película põe à prova uma série de perfis e representações estereotipadas que tiveram seu auge ainda nos primórdios do cinema e que perduram, às vezes mais diluídas, até hoje. Pr’além de relativizar esse espaço de construção discursiva, o trabalho de Dosunmu é de um apuramento estético e desdobramento referencial considerável. Nas várias camadas em que se pode analisar a obra, não há nada que permaneça solto, sem significar dentro do filme.

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Dessa forma, Mother of George se insere como um dos principais filmes independentes do ano de 2013, recebendo a premiação de melhor fotografia (Bradford Young) e sendo indicado ao prêmio do grande júri do característico festival de Sundance.