Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, “O Capital” (2008)

por Gustavo Fontele Dourado

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Da direita para a esquerda: Marx, Eisenstein e a janela de quem quiser ocupar ou a janela do capital: a janela que ficou ausente diante do encontro de Marx e Eisenstein na mesma casa – o capital não foi ao outro quarto.

Deve haver um capítulo sobre a interpretação materialista da ‘alma‘ “.

(Notas de Eisenstein para um filme de O Capital – 7.IV. [1928], 1h30.)

Colosso do cinema: é monumental enquanto densidade e também como extensão total, fatores que tornam este ensaio cinematográfico um feito único e que remete a outro campo do cinema e sobretudo na filmografia recente da primeira década do século XXI até à nova década dos anos 2010.

Shoah (1985), de Claude Lanzmann; Satántangó (1994), de Béla Tarr e Melancholia (2008), de Lav Diaz são obras que fazem parte do campo de filmes-fortaleza, obras gigantescas que não são gratuitas em terem essa duração enorme de 7 horas, 8 horas, 9 horas… Estes filmes são muito densos e na maioria das vezes é difícil assisti-los sem pausas. Para apreciá-los da maneira tradicional, sem interrupções e dentro de uma sala de cinema, é preciso uma preparação de um ritual distinto para conseguir o feito e para vencer a maratona no papel de cinéfilos e de estudiosos do cinema. A consequência é desvendar outros rituais e receptividades dentro do cinema que vão além da suspensão da realidade e de meramente ir à câmara escura.

“[…] não será Shoah uma espécie de equivalente cinematográfico do superego?

De certo modo, o filme foi feito para não ser visto:

sua duração proibitiva garante que a maioria dos espectadores

(incluindo aqueles que o elogiam) não o viram e nunca o verão na versão integral […]

Além disso, essa duração extraordinária deve ser lida

juntamente com o fato de Shoah apresentar-se explicitamente como o definitivo,

inultrapassado filme sobre o Holocausto.”

(Trecho de Lacrimae Rerum, de ŽIŽEK, Slavoj – 2009, p. 19.)

Ao compararmos a reflexão de Slavoj sobre Shoah com Notícias da Antiguidade Ideológica, a obra de Alexander Kluge é o filme definitivo sobre o marxismo e seus conjuntos culturais, um “artistisches ganzes” (conjunto artístico) de toda uma “poesia marxista”. Para Kluge, Marx era um poeta e até faz uma pergunta para um de seus entrevistados se não é uma ofensa ao pensador chamá-lo de praticante da poesia.

Estes filmes imensos são obras inultrapassáveis, são conquistadoras apaixonantes de temas – pois para receber estas obras definitivas sobre um assunto é preciso ter curiosidade, espírito de investigação a respeito do tema e de sua densidade. É um cinema de paixão intensa e exaustiva tanto no âmbito de fazê-lo quanto de assisti-lo. Além de que o marxismo, assim como o Holocausto, é fundamental na história da humanidade e não deve ser esquecido – mesmo se considerado antigo ou ultrapassado: Kluge propõe um resgate incansável de passados e suas repercussões no presente. Notícias da Antiguidade Ideológica é um épico atemporal dividido em três partes: I. Marx e Eisenstein na mesma casa, II. Todas as coisas são pessoas enfeitiçadas e III. Paradoxos da sociedade de troca.

Alexander Kluge, o diretor do filme, é um interlocutor e participante deste gigante que faz jus ao enorme livro de Marx, O Capital (1867), e à genialidade do cineasta soviético Serguei Eisenstein. O filósofo (Marx) e o cineasta (Eisenstein) são figuras históricas epicêntricas, marcos do pensamento nas suas áreas e que vão afora delas de maneira substancial: eles repercutem para a cultura enquanto fronteiras globais e para as aspirações estéticas e teóricas. Marx é o tipo de humano que com suas ideias ambiciosas e internacionais influenciaram toda uma comunidade intelectual com camadas múltiplas ao longo do século XIX, XX e XXI. Eisenstein já é o grande esteta de uma arte recente (o cinema) e que tentou fazer uma síntese dentro do mundo em ebulição do século XX: adaptar O Capital para o cinema com a estrutura do romance mais emblemático da nossa época: Ulisses (1922), de James Joyce.

“A decisão está tomada: vamos filmar O CAPITAL,

segundo o roteiro de K. Marx – é a saída formal possível. […].

(Notas de Eisenstein para um filme de O Capital – 12. X. [1927]).

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Matéria de jornal sobre a obra de Alexander Kluge. Fonte: Nota de Tapa. Seção: cultura.

Notícias da Antiguidade Ideológica é a jornada densa em forma de ensaios de uma coletânea de pontos de vista, de pensadores, de representações e de diálogos sobre uma odisseia da humanidade. Tudo nas visões e nas palavras da cultura marxista e de escolas que se apropriaram de muitas ideias com infinitas adaptações, contestações e criação até ao infinito da cultura marxista. Eisenstein faria no cinema o que Joyce fez na literatura, O Capital era a Odisseia para o cineasta e seu objetivo seria mostrar a história filosófica de Marx em apenas um dia. O dinheiro, ou as mercadorias, era(m) o(s) personagem(s) principal(is) do roteiro/vontade de Eisenstein em adaptar uma das grandes históricas panorâmicas da humanidade. Ele adaptaria apenas uma, pois não existe somente uma história gigantesca da humanidade e sim múltiplas. Um indivíduo ao se ocupar de apenas um panorama monstruoso da história humana já é o motivo para se dedicar uma vida. O dinheiro era o Leopold Bloom (personagem principal do livro de James Joyce, Ulisses) de Eisenstein, o dinheiro era a sua zona de subjetividade e o seu personagem.

O cineasta soviético não conseguiu fazer o feito ambicioso e a história colocou seu projeto inacabado em uma coleção de obras impossíveis de realização. Projetos de adaptação cinematográfica que pretendem ficar à altura da qualidade de suas obras originais ou de projetos grandiosos demais e que implodem sobre si mesmos. Exemplos são Em Busca do Tempo Perdido (1913), de Marcel Proust – a maior frustração de Luchino Visconti em não conseguir adaptá-lo para o cinema ou o obsessivo projeto épico de Stanley Kubrick que não foi adiante – Napoleão.

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Uma edição alemã de “O Capital”, de Karl Marx. Frontispício da edição. Um dos livros considerados como impossíveis de adaptar para o cinema.

Kluge monta seu documentário sobre Marx, Eisenstein e a infinidade da cultura de esquerda política como uma antologia, como capítulos filosóficos de um tratado. Ele lembra muito Conversações (2013), de Gilles Deleuze, uma miscelânea de conteúdos com certos temas relevantes que encaminham as discussões, que relacionam diferentes áreas do conhecimento e que busca desenterrar pontos de vista originais. Deleuze associa cineastas do cinema da Nouvelle Vague com matemáticos da modernidade e busca argumentar semelhanças de na construção do espaço e tempo entre eles. Já Kluge relaciona Luigi Nono com os conceitos de proletariado e com o auxílio de um especialista nas obras de Nono, compositor revolucionário que faz parte da escola de Darmstadt – onde são encontradas cabeças ilustres da música contemporânea como Xenakis, Messiaen, Stockhausen, Cage e Boulez.

Ao longo do filme há também citações à Brecht, Godard, Adorno, Benjamim e Schroeter como alguns dos exemplos na construção dos pensamentos, das artes e das ideologias ligadas aos conceitos de Marx ou que lembram bastante as ideias do grande pensador.

É impossível não relacionar o filme de Kluge como um universo de referências que são muito densas e suas conexões ao longo filme não são tradicionais e isto torna muito difícil a tarefa de assistir o filme de uma vez e sem interrupções. É recomendado que seu conjunto total seja apreciado como uma antologia artística em que várias artes se encontram e com um olhar curioso perceber o emaranhado complexo deste encontro. E assim, voltar-se outras vezes a esse “artistisches ganzes” ou lidar o filme como se fosse o Capital, destrinchá-lo como um estudioso aficionado de ciências sociais: ler algumas páginas densas em horas para realmente aprender e construir seus próprios conceitos com uma boa base nos clássicos.

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Pôster do filme em alemão.

Um dos desdobramentos disso no teatro é o de Werner Schroeter, por exemplo, que faz uma apresentação teatral estilizada dos marinheiros do Encouraçado Potemkin (1925), de Serguei Eisenstein e do acontecimento de 1905: a revolta marítima dos marinheiros russos por condições mais justas de trabalho. Faz-se ligações, hiperlinks de diversos acontecimentos dos últimos 200 anos para mostrar a universalidade dessa “antiguidade ideológica” que ainda conduz muitas dimensões intelectuais e simbólicas da sociedade contemporânea. O filme é como uma grande série de noticiários vindos de um canal de TV do planeta Marx e do planeta Eisenstein e o idioma que os conecta é O Capital, um construto literário/científico amplo. O que implica numa montagem multimidiática, de colagens, de comentários e de associações sem clichês.

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Um exemplo de hiperlink ou conexão: Ovídio seria a quarta figura essencial do marxismo e que foi esquecida e o que torna a base marxista como sem braço, algo deficiente. A trindade clássica seria Marx, Engels e Lênin. Ovídio seria a poesia da esquerda.

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Os irmãos Marx, muito semelhantes segundo Kluge. O filme usa muito o recurso do vídeo e da colagem.

Talvez este filme seja a versão de Kluge para a adaptação do Capital na sua forma original, um livro e também na sua estrutura fora de seu formato tradicional: um exolivro (o livro expandido na sociedade com suas implicações culturais). O sociólogo Oskar Negt apresenta algo que qualifica o ato fílmico de Kluge: o de resgatar o velho e não apenas fazer incansavelmente algo que seja totalmente novo – como um produto original que se propõe a salvar tudo e que despreze o que já temos e fizemos como soluções absolutamente falhas diante do novo. É possível fazer muito no mundo com o que já temos e possivelmente uma das características práticas do “novo” e do “inovador” seja o de reconstruir resultados que remodelem os pontos de vista ou de usar, de uma maneira diferente, o que já foi pensado por milhares de anos. Algumas vezes apresentar um produto totalmente novo não irá solucionar tudo.

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O filme mostra muitos atores/atrizes interpretando trechos, lendo passagens. Nesta imagem um ator faz o papel de Karl Marx e nos revela como seria a voz de Marx: estridente e aguda. O mesmo ator interpretou também um proletariado alemão da atualidade e um apresentador musical no filme.

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O último personagem que se apresenta no filme, o mesmo ator que interpreta Marx na voz estridente. O microfone está sempre presente nas entrevistas: mais visível ou menos.

Outra característica marcante do filme é o uso de cartelas que apresentam pela diagramação e pelas cores as ideias que são apresentadas pela frase ou por palavras, Notícias da Antiguidade Ideológica pega essa característica do cinema mudo – as das cartelas – e as põem de um jeito calmo, sem pressas e numa enorme quantidade dentro de um filme de muitas palavras. A leitura no filme é calma, todavia ao ouvirmos os entrevistados – o ritmo se acelera no áudio. As imagens do filme são lentas, já o ouvido é fugaz e veloz.

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Exemplo de cartela no filme, em alemão e com legenda em inglês. Lê-se “perfura a superfície do oceano” e com representação visual do oceano e da superfície: do que está oculto. Para a edição traduzida para o português todas as cartelas foram preservadas em sua arte original. A edição para o português é a única no mundo com tradução oficial na íntegra.

As cartelas são os silêncios para se pensar em tudo antes de ouvirmos os capítulos desta antologia poderosa que antes de qualquer coisa é um documentário sobre a curiosidade humana. É um filme sobre a busca por temas e por suas conexões para encontrar um mapa político, um mapa ideológico, um mapa simbólico com debates detalhados como: Marx era praticamente um londrino? A força da esquerda apropriada pela direita com diálogos do Saber Relâmpago de Karl Korsch. A filosofia da história de Peter Sloterdijk e suas visões sobre o filme hipotético de Eisenstein, visões da mercadoria, a importância do pensamento mágico na relação das coisas com os seres humanos… O curta de Tom Tykwer – O Homem na Coisa que mostra a diferença entre o inalcançável (o céu) e a história das coisas humanas abaixo do firmamento livre de mercadorias.

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Trecho do filme “O Homem na Coisa”, de Tom Tykwer. A legenda é um exemplo das explicações detalhadas em formato técnico e histórico de um objeto da cultura humana em um momento do filme. Analisar as mercadorias para Marx é redescobrir os atos históricos.

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O filósofo Peter Sloterdijk, presente na segunda parte do filme.

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O sociólogo Oskar Negt aparece rapidamente na segunda parte do filme e está muito presente na terceira parte.

Este texto deve ser expandido eventualmente, uma crítica que se alimenta com as revisões deste filme e das próprias conexões que se faz nas infinitas referências que Kluge busca. Na primeira parte do filme: Kluge está presente, mas nota-se mais a sua voz. Na segunda parte, Kluge é notado em algumas vezes perto dos teóricos dentro do filme e na terceira parte, o cineasta se mostra muito mais, ele está sem máscaras: a voz de Kluge e o seu rosto se juntam na derradeira parte da obra. Conhecemos melhor o cineasta que é erudito e que se mostra um pesquisador voraz principalmente no diálogo presente na entrevista com o jovem escritor alemão que faz conexões desde a física quântica até o conceito de “valor de uso” e de “valor de troca” no pensamento econômico de Marx.

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O cineasta: Alexander Kluge.

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Jean-Luc Godard, mestre que é influência central para Alexander Kluge – um aprendiz que se tornou maestro do cinema de vanguarda ao lado de Godard. O mestres dialogam no material especial do filme: “Amor-cego” e entre suas obras nos anos 80, 90 e 2000. Kluge e Godard são da mesma geração, o último é 2 anos mais velho que Kluge.

Um filme sobre o impossível dentro de uma possibilidade instigante: O Capital em cinema, adaptado de uma maneira pouco usual e incomum sem assumir que é uma adaptação. É pensamento livre em formato audiovisual.

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A grande cabeça de Marx em Chemnitz.

Referências:

DELEUZE, Gilles. 2013. Conversações. São Paulo: Editora 34.

EISENSTEIN, Seguei. 1927 e 1928. Notas de Eisenstein para um filme de O Capital. Retirado do DVD do filme Notícias da Antiguidade Ideológica – Marx, Eisenstein, “O Capital”. Versátil.

MARX, Karl. 1983. O Capital. São Paulo: Abril Cultural.

ŽIŽEK, Slavoj. 2009. Lacrimae Rerum. São Paulo: Boitempo Editorial.