O bebê de Rosemary (1968)

por Não são as imagens

O ano de exibição é 1968 e o ano no qual se passa a história é 1965, um ano extremamente simbólico para os Estados Unidos da América. O ano do assassinato de Malcom X, do início da guerra do Vietnam, do início das imigrações de cubanos para os Estados Unidos e a continuação da corrida espacial e da guerra fría. Um ano que sem dúvidas motivou o questionamento “será esse o fim dos tempos”?

 

O prédio do novo apartamento do casal Rosemary e Guy.

O prédio do novo apartamento do casal Rosemary e Guy.

 

Um horror, da guerra, dos conflitos, das incertezas, tomou de conta do país e isso se refletiu – dentre outras coisas – em obras de arte como esse filme. O título do filme e o seu significado certamente trazem uma leitura da época em relação ao futuro da humanidade. Os anos 60 foram os anos onde surgiram os primeiros filmes relevantes do gênero de terror, sendo um grande exemplo deles ‘A noite dos mortos vivos” de George Romero (1968), que infelizmente não será tratado nesse texto.

Rosemary, desconfiada de seu ginecologista, liga para outro para marcar um horário.

Rosemary, desconfiada de seu ginecologista, liga para outro para marcar um horário.

 

O gênero terror surgido aí agrega muitos elementos sentidos na época turbulenta dos anos sessenta, como incerteza, paranóia, desesperança, medo, violência e impotência. Os planos que imperam são varios. Planos em close-up e planos detalhe que buscam criar imersão no mundo do personagem e refletir o horror em suas expressões faciais e imersão crescente dentro de seu medo interior. Planos onde se enquadra em um canto uma janela, porta ou orificio que fica oposto ao olhar do personagem para manter o sentido de alerta e incerteza sempre presentes. O som nessa época era muito mais presente e enfático, sincronizado à imagen potencializando a experiência do filme, ao contrário dos filmes de terror de hoje, silenciosos, escravos do jumpscare. Não é uma característica de todos os filmes atuais terem muito uso do jumpscare e alguns possuem uma boa trilha sonora que ajuda a ambientar o filme, porém de modo geral atualmente os filmes que se dizem de terror tendem a exagerar no recurso do jumpscare.

Spoiler alert!! Um fato extremamente curioso nesse filme (e bem realista considerando a situação) foi o fato de o gancho da narrativa desde o título e o elemento mais forte da mesma, o bebê, o filho de Rosemary, nunca de fato aparecer. Ele não aparece, na opinião deste crítico, pelo fato de a descrição do bebê demoníaco ser muito complicada para ser criada artificilamente, num boneco, e geraria uma fúria em massa se fosse aplicada a um bebê de verdade. A solução para o filme, acredita-se, e que é simplesmente genial, é não mostrar o bebê e deixar todo o horror de sua aparência resumido na horripilante reação de sua mãe ao vê-lo pela primeira vez.

A reação de Rosemary ao ver seu filho pela primeira vez.

A reação de Rosemary ao ver seu filho pela primeira vez.

 

O filme brinca com o elemento do oculto, o universo das bruxas, que aquí nesse filme são retratados como pessoas coloridas, joviais, brincalhonas, alegres, simpáticas. Essa roupagem vem para trazer a frente o elemento mais marcante das bruxas que seria a libertinagem, a eterna celebração, a falta de seriedade, a falta de preocupação com o pecado. A partir daí o filme apresenta diversos elementos que imergem o espectador na paranóia de Rosemary diante de seus tão estranhamente solícitos, simpáticos e enxeridos vizinhos. Um instinto de mãe, talvez, mas que mesmo assim é puxado dentro na rede de sedução dos bruxos. Com a ajuda de um grande mentor, Hutch, amigo pessoal de Rosemary, ela consegue desvendar a verdade, mesmo sem efeito já que até seu marido está contra ela.

Rosemary, depois de ser drogada, deitada em uma cama em um "sonho".

Rosemary, depois de ser drogada, deitada em uma cama em um “sonho”.

 

O filme, baseado em um romance de Ira Levin o qual passou longe das mãos deste crítico, compõe uma leva de filmes que lançaram o gênero de terror que existe hoje. Há quem prefira os filmes de antiguamente e há quem prefira os filmes de hoje. A certeza é que a essência do gênero nunca se perdeu e até hoje leva pessoas para as telonas.

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Lucas Simões – 27 anos, formado em Cinema e Mídias pelo IESB, quase formado em engenharia, quase judoca, quase nadador e quase melhor namorado do mundo de várias garotas. Atualmente trabalha com cinema na função de roteirista e script doctor, exercendo ocasionalmente a alcunha de continuísta em curtas-metragem da região. Sua atividade foi de setembro de 2014 a março de 2015.