Jamaica Inn (1939)

por Daniel Lukan

Em 1939, um ano antes de iniciar sua carreira de sucesso em Hollywood, Hitchcock se despediu do cinema inglês com Jamaica Inn. O filme é uma adaptação do romance de mesmo nome, de Daphne du Maurier, e é o primeiro dos três filmes que o diretor realizou a partir de obras da escritora (os outros são os consagrados: Rebecca e The Birds). Estrelado e produzido por Charles Laughton, Jamaica Inn é considerado um dos maiores fracassos da filmografia do diretor.

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Jamaica Inn é uma estalagem perto de um porto de um pequeno vilarejo inglês, sede de um grupo de ladrões liderado por Joss (Leslie Banks), que se aproveita das condições climáticas e geográficas adversas do local para naufragar, ao desligar o farol, as embarcações que ali passam, de modo que possa facilmente saqueá-las. A história se desenrola quando Mary (Maureen O’Hara) sobrinha da mulher de Joss, Patience (Marie Ney), chega para morar com os tios e impede que um dos ladrões Traherne (que na verdade é um oficial da justiça infiltrado) seja morto por seus companheiros.

Há uma pequena minoria, que analisando o filme com um olhar mais piedoso, não o consideram um absoluto desastre técnico e narrativo. Talvez isso aconteça em respeito a figura de Hitchcock e seus sucessivos clássicos Rear Window, Psycho, Vertigo, etc; contudo, dizer que ‘se fosse creditado a qualquer outro diretor de menor expressão e que não tivesse clássicos em sua filmografia, Jamaica Inn seria um filme razoável’ é no mínimo um resguardo desmoderado da imagem de Hitchcock. Portanto, não tomemos essa pequena análise por esse viés. Que graça haveria em tecer uma crítica com olhos piedosos? E, principalmente, por se tratar de Hitchcock, devemos olhá-lo sobre os altos padrões que ele mesmo estabeleceu.

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Desse modo, qual é o principal problema de Jamaica Inn? O próprio Hitchcock viria dizer em entrevista ao cineasta francês François Truffaut, “[…]era absurdo fazer esse filme com Charles Laughton no papel de juiz.”. Afinal, seguindo fielmente a história do romance, o juiz de paz (que está por trás de toda a gangue de piratas), Sir Humphrey Pengallan (Laughton), deveria aparecer somente no final da história. Como produtor e estrela do filme como intérprete do juiz de paz, Laughton fez com que o ainda promissor Hitchcock adaptasse o roteiro de forma que o filme desse mais destaque ao seu personagem. Assim, vemos a destruição do enredo.

Destruição causada pela vaidade de Charles Laughton. Descobrir o juiz de paz como mandante de todas as atrocidades cometidas em Jamaica Inn seria a grande surpresa do filme. E, claro, apenas essa surpresa não seria suficiente para transformar esse desastre hitchcockiano em uma obra de arte. Mas, o destaque dado ao personagem, que não possui nenhuma construção narrativa, tira o espaço que seria utilizado na construção das outras personagens, de forma que o filme vira um grande amontoado de personagens inconsistentes e apáticos. Deixando que o grande protagonista e vilão passe seja Jamaica Inn; o único ‘personagem’ que é, de forma não intencional, bem construído e caracterizado pelo mistério e terror que o cercam. Entretanto, isoladamente, Jamaica Inn não é um personagem interessante. Aliás, Jamaica Inn nem é um personagem, de fato.

Jamaica Inn

Vemos constantemente tentativas de grandes reviravoltas no roteiro; em um curto espaço de tempo um vilão virar herói e em seguida um herói virar vilão. Nesses momentos há um leve crescimento da tensão narrativa nas tentativas de alguns personagens em esconder das outras a verdadeira identidade desse vilão. Características dos filmes do grande mestre do suspense. Porém, muitas dessas reviravoltas são desnecessárias nesse enredo. Seria extremamente importante a identificação de Traherne como oficial de justiça e que levaria a uma pista para a revelação do principal mistério da história: o juiz corrupto. Contudo, o juiz corrupto é rapidamente identificado e esconder essa identidade passa a ser uma das principais tramas, o que é totalmente absurdo uma vez que o vilão assume um protagonismo que não lhe cabe na história.

A partir de então, no clímax da história, vemos em evidência toda inconsistência dos personagens. Ninguém consegue em seus atos justificar o que dissera, ou dar continuidade ao que fizera cinco minutos antes. Mary, que quer ver o fim de Jamaica Inn e ver sua tia livre do marido, vai à estalagem informar sobre a verdadeira identidade de Traherne. Patience, cegamente fiel e obediente ao seu marido, liberta Traherne para que ele possa buscar força policial e assim impedir o naufrágio do próximo navio. Ou seja, a consistência dos personagens é perdida. O espaço que deveria ser dedicado a eles foi dedicado ao juiz de paz que deveria aparecer somente no fim da história.

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No aspecto estritamente técnico, o filme não apresenta grandes falhas. Talvez a fotografia, que não é das mais belas, mas provavelmente por condições técnicas limitadas e não por um mau gosto por parte dos realizadores; entretanto, nada que seja prejudicial ao filme (narrativamente ele já é autossuficiente em prejuízos). Não é ruim, mas, com certeza, nada que mereça um elogio.

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Jamaica Inn é, definitivamente, um Hitchcock menor. Um filme aquém do que o diretor vinha produzindo e, principalmente, aquém do que produziria. Um dos filmes no qual não vemos as famosas aparições do diretor (cameo). Um filme no qual também não vemos a presença de sua genialidade.

Talvez, ao não aparecer no filme, o diretor quisesse nos dizer que Jamaica Inn é um Hitchcock que não vale a pena ser visto.