Alô, alô, carnaval (1936)

por Thiago Campelo

alo alo carnaval

Nos primeiros anos da década de 30, o cinema sonoro já era uma realidade e a Cinédia investe nos filmes de temática carnavalesca e nas comédias leves também musicais. É o período conhecido com a “era de ouro do rádio” e não por acaso a junção da música popular brasileira com a imagem de seus interpretes produziu resultados consideráveis nas salas de cinema.

Tão aguda foi a combinação desses dois meios – e aqui o cinema tomou emprestada a força já consolidada do rádio – que a possibilidade de materializar na película as vozes nacionais, movimentou uma legião de fãs para as salas de cinema. O fato é que além do empréstimo das estrelas do rádio, o cinema se utilizou da publicidade do meio.

No Brasil, o rádio já servia para o propósito de governo de união nacional, da criação de uma identidade comum que perpassasse todas as regiões do país. O cinema falado, apesar das limitações de exibição nos lugares mais afastados, representou uma nova frente, para a potencialização dessa construção identitária ao mesmo tempo em que servia como um novo filão pelo qual a economia do país poderia se desenvolver internamente. Seguindo afirmação de Benjamin, levando em consideração o casual período político do país – a Era Vargas – o cinema “falado estimulou interesses nacionais”.

vlcsnap-2014-12-01-12h10m40s55

“Alô, alô, carnaval” (1936), de Adhemar Gonzaga, é um exemplar desse período do cinema que ficou conhecido com “ciclo musical carnavalesco” – esse é o único filme nacional restante onde aparece a Carmen Miranda – que durou cerca de uma década, tendo repercussão posterior nos filmes da Atlândida.

“Alô, alô, carnaval” é uma desculpa para piadas prontas – algumas realmente boas – que tentam encadear a encenação de números do teatro de revista com as estrelas do rádio, como Carmen Miranda, Aurora Miranda, Mário Reis e as Irmãs Pagãs, catando majoritariamente sambas e marchinhas. De maneira mais simplória não poderia ser feito um dos filmes desse período que priorizava o baixo custo e os altos lucros.

O filme tem como protagonistas uma dupla de trambiqueiros interpretados por Barbosa Júnior e Pinto Filho que, buscando por um investidor, tentam montar um grupo teatral chamado “Revista Banana da Terra”. A partir daí, uma série de números musicais é apresentado sequencialmente.

a14g3d

Os créditos iniciais sobem seguidos por uma cartela que diz “porque não fazer retornar também o filme carnavalesco que maior êxito obteve entre nós, reunindo um elenco que hoje seria impossível de se contratar em virtude das condições econômicas diferentes?”. Assim, o próprio filme anuncia o único motivo pelo qual foi feito: o êxito financeiro.

O filme anuncia que os filmes estrangeiros antigos fizeram sucesso e assim, “Alô, Alô, Carnaval”, imitando uma fórmula, fará sucesso também. Os filmes estrangeiros, aqui, são os filmes hollywoodianos. Na tentativa de iniciar uma indústria do cinema, o modelo sempre foi o estrangeiro, já que o mercado nacional era dominado pela distribuição de filmes estadunidenses.

Pelo nome da revista – Banana da Terra –, que pressupõe um grupo cheio de “girls” e “boys” – fazendo notar a pronuncia da dupla – de alta qualidade e até uma cantora lírica que se tornariam a maior revista nacional, permeado de várias piadas a partir do nome em relação ao nascimento falho do projeto, já é possível notar certo preconceito com o que é produto nacional. O empresário procurado pela dupla tem problemas com o grupo que ele tenta importar da França e só por isso, contrata a “banana”, alvo de suas piadas e completa descrença.

vlcsnap-2014-12-01-12h18m16s36

Os dois trambiqueiros vencem os obstáculos da fraca trama somente pela aplicação de pequenos golpes, cometendo delitos e contando com o improviso e a sorte. Ao se travestirem de empreendedores do ramo do entretenimento é preciso que falem francês e, sobretudo o inglês, mesmo que só algumas poucas palavras. Ao que se vê, dentro do contexto de construção de identidade nacional, de expansão de valores comuns, em “Alô, alô, Carnaval”, os “heróis” são postos, como dois golpistas arriscando tudo para crescer na vida.

Ao longo das apresentações, está a figura da vedete, dos cenários exóticos e da relativa sensualidade de Carmen Miranda.

carmen2624

Naquele período, o Decreto n° 20. 240 obrigava a exibição de filmes nacionais e, como se passava por um governo de caráter fascista, nada mais útil do que utilizar dessa obrigatoriedade para insuflar questões nacionalistas na população.

No entanto, como o cinema brasileiro, em praticamente todo século XX foi dominado pelo cinema norte-americano e, ainda hoje é, aconteceu também que a própria estrutura das narrativas e seus conteúdos vinham a exaltar o modo de se fazer cinema estadunidense. Os perfis que se tinham do Brasil eram os mesmos reproduzidos pela cinematografia estrangeira. Uma espécie de apropriação do discurso alheio como meio de definição de si.

vlcsnap-2014-12-01-12h18m16s36

É importante destacar que “Alô, alô, Carnaval” não é uma obra a ser rechaçada. Seu valor histórico é inigualável e seu força enquanto divertimento é inquestionável. A beleza de Carmen e Aurora, a voz de Mário Reis, são pontos fortíssimos e concedem ao filme um caráter de atração imbatível até hoje. A dupla de protagonistas é hilária e a sequência de canções presente no imaginário nacional também é relevante para a constituição do filme.

Em todo caso, é preciso dar a mão à palmatória no que diz respeito ao tema da autorrepresentação e da narrativa. O filme de Adhemar Gonzaga não é nada mais do que um aglomerado fraco e cheio de buracos de estereótipos favoráveis ao olhar estrangeiro.