Interestelar (2014)

por Gustavo Fontele Dourado

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Um planeta perto de um buraco negro.

Cooper é um ser humano, um terráqueo, um fazendeiro, um agricultor, ex-piloto espacial e um pai que vê seu planeta em transformação: a fauna já não é mais a mesma, os alimentos estão escassos e o futuro denuncia o fim da humanidade. A Terra não quer mais humanos e faz um processo cataclísmico de expulsá-los do ciclo da vida. O responsável por isso não é o planeta, mas o humano. “[…] o sentimento de absurdo por uma civilização autodestruída por coisa nenhuma; e o conhecimento de que poderíamos ter evitado isso mas não o fizemos.” (SAGAN, 2009, p. 418.)

Mas, ainda há esperança. Em um mundo que não é muito distante do nosso, talvez a segunda metade do século XXI – a profissão mais em alta são agricultores para que a humanidade ainda tenha alimentos – somente o cultivo de milho ainda resiste. Porém, a geração que vai ver o alimento acabar serão os primeiros a morrerem de sufoco – tempestades fatais para a respiração das pessoas pioram a cada ano.

Matthew McConaughey, o ator que interpreta o protagonista Cooper, passa muita força e liderança para seus atores coadjuvantes e senso de aventura e emoção para seu personagem. Interestelar lida com uma questão muito séria e que não é tão relevada na prática ainda: a possível extinção da humanidade e suas estatísticas mais assombrosas que as de guerras. Já temos os dados das guerras, eles foram colhidos, mas talvez não os compreendemos totalmente para raciocinar sobre a nossa autodestruição, sobre nossa possibilidade de extinção (RICHARDSON, 1960). Há muitos alertas sobre o clima – 2014 foi o ano mais quente da história registrada – há conjecturas sobre o domínio da inteligência artificial sobre os seres orgânicos e a carência de alimentos para todos, sobretudo da água.

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Cooper e Murphy, sua filha.

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Plantação destruída.

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Acúmulo de poeira da tempestade cíclica.

O único caminho para conseguir a sobrevivência é abandonar a Terra, mas por enquanto nem todos podem ir. Cooper encontra a Nasa e é chamado para pilotar uma das naves com uma equipe rumo a um buraco de minhoca que surgiu perto de Saturno. E assim, ir em direção a outra galáxia e conferir possíveis três planetas para abrigar novamente a humanidade. Enquanto Cooper e sua tripulação vai rumo ao desconhecido, cientistas da Nasa tentam descobrir a solução de uma equação que junta a relatividade geral de Albert Einstein com a mecânica quântica para que a população saia da Terra por meio de uma gigantesca nave após resolver o problema da gravidade nesta equação.

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Jessica Chastain como Murphy adulta (Filha de Cooper). Atrás o quadro de equações do problema da gravidade.

Nolan traz para Interestelar o que há de mais misterioso e fantástico na física contemporânea junto ao auxílio de uma das maiores especialidades em gravidade no mundo, o físico Kip Thorne. O diretor de O Cavaleiro das Trevas (2008), preocupa-se em ter uma pesquisa muito aprofundada para dimensionar seu roteiro e seu trabalho como diretor. O resultado são espaços que nunca foram abordados dessa forma no cinema como o interior de um buraco negro com uma rica liberdade poética e o perigo da humanidade com tanta verossimilhança e emoção. Há muitas hipóteses na física, proto ciências, imaginações que podem levar a ficção-científica a outros campos de fantasia. Há também referência aos seus mestres como a dos acordes do compositor Hans Zimmer homenageando a música Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss – tema chave de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick.

The Dark Knight Rises

O diretor Christopher Nolan com a câmera Imax MSM 9802. O filme foi filmado em lentes Hasselblad e Mamiya. E também filmado com câmera Panavision Panaflex Millennium XL2 com kit de lentes Panavision C-, D-, E-Series and Ultra Speed Golden Lenses também foram usadas.

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O físico Kip Thorne ao lado da atriz Jessica Chastain.

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A parceria Nolan e Thorne.

O roteiro só peca em um sentido: muitos dos problemas universais são abordados apenas de uma perspectiva norte-americana. Se os problemas são globais, talvez seria interessante mostrar outras regiões do planeta e como os dilemas são enfrentados, nem que seja rapidamente. Porém, isto é suavizado com o início da viagem espacial no filme. Nolan opta em focar nos conflitos familiares de Cooper e o mistério de um “fantasma” – tal foco emociona do início ao fim e há a sensação de que há realmente uma grande distância entre Cooper e Murphy (homenagem à Lei de Murphy), o espaço é realmente imenso e ameaçador. Somos astronautas do cinema e não é preciso de visão 3D e outros elementos simplórios. Nolan usou pouco o chroma key em relação ao elenco e ele com sua equipe realmente construiu certos cenários como as da cabine da nave e a busca por locações exóticas ao redor do mundo.

Outra curiosidade é a do filme, por um de seus personagens, questionar a ida do homem à lua e sua capacidade tecnológica, algo que é pouco questionado nos filmes de ficção-científica e ainda mais nos norte-americanos. E ainda foi complementado que a falsidade mediática da ida à lua foi feita para por em falência a indústria espacial soviética na época. Cooper rebate o argumento com o sentido de acreditar nas habilidades do ser humano em ir ao desconhecido e que há possibilidade tecnológica para que novos estudos sejam feitos – Cooper quis que seu filho fosse à faculdade estudar ciências, mas a demanda por alimentação prevaleceu e seu filho se tornou um fazendeiro.

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Cooper e Murphy.

Nolan não esbanja de exageros na computação gráfica em cenas de ação, a perspectiva do momento é a dos personagens e a de planos fechados na nave. Os vídeos transmitidos da Terra para a nave são de baixa qualidade e remetem a aspectos caseiros e nos aproximam da saudade de Cooper por um passado que ele não viveu e quis acompanhar em um dos momentos mais emocionantes do filme. Cooper perdeu seu passado e ganhou um imenso futuro devido à dilatação temporal causada pelo buraco negro. Outro ponto muito interessante é que mesmo filmado em Imax (negativo 70mm – horizontal), o filme usa da montagem documental logo em seu início com pessoas relatando seus depoimentos sobre os problemas na Terra, do clima, dos alimentos e da estupidez. Entramos na imersão desse mundo pelas pessoas, depois vemos as catástrofes. A questão não é salvar o mundo, mas sim perpetuar as pessoas na vida, continuar o viver.

O maior obstáculo da humanidade, ao lado do desconhecido, é ela mesma e isto fica claro na briga entre os filhos de Cooper e a conquista de território em outro planeta desencadeada pelo Dr. Mann sobre tripulação de Cooper. No final, Interestelar defende que a única possibilidade de sobrevivência é a aproximação, mesmo à anos-luz de distância e que só o “cérebro científico” não trará um futuro duradouro. É preciso resolver os próprios problemas para conseguir a emancipação estelar, o futuro como outros seres, alcançar as outras dimensões e manter nossos os vínculos.

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Tripulação: Cooper, Brand – interpretada por Anne Hathaway – e Romilly – interpretado por David Gyasi.

O filme tem o estilo de Nolan: ficções cerebrais, montagens ousadas como os cortes paralelos entre o espaço sideral e um ambiente familiar, reviravoltas e diálogos sérios. Tais características estão presentes desde o seu primeiro longa-metragem: Following (1998). É uma ficção-científica que se propõe séria, que quer discutir o que provavelmente será o ato mais importante do século: a adaptação dos problemas do ser humano no planeta. O filme é otimista e não mostra que seremos mais uma espécie mencionada nos painéis do museu da extinção. Sem dúvida um dos melhores trabalhos do diretor e um dos melhores filmes do ano. A sequência final da obra é o marco mais único deste filme.

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Logo do filme.

Cooper precisa amadurecer mais rápido do que imagina, é preciso viver muitos anos em apenas um. Sua filha, Murphy, carrega o fado pesado de gerações e também precisa fazer o impossível dentro de seu planeta. O encontro de impossíveis possibilita a sobrevivência, a escuridão é aprendida e o re-encontro de pai e filha acontece. A humanidade sobreviveu dentro dos dois e as gerações vão ouvir falar de um berço que se tornou um fantasma, a Terra e depois encontrar outro mundo e outra existência.

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

(THOMAS, Dylan. Do not go gentle into that good night – poema recitado no filme Interestelar. In Country Sleep and other poems – 1952.)

Referências:

RICHARDSON, Lewis F. 1960. The Statistics of Deadly Quarrels. Pittsburgh: Boxwood Press.

SAGAN, Carl. 2009. Cosmos. Lisboa: Gradiva.

THOMAS, Dylan. 1952. Do not go gentle into that good night. In Country Sleep and other poems.