“O ditador” (2012) vs “O grande ditador” (1940)

por Não são as imagens

Este paralelo se destina a traçar as várias similaridades que existem entre o clássico de Charlie Chaplin e o filme recente de Sacha Baron Cohen, que querendo ou não tocam em temas similares por comédias diferentes. A loucura da guerra, do medo, da propaganda, do terrorismo, dos ditadores e ditaduras; tudo isso nos assombra e nos assombrará enquanto puder. O fato de esse tipo de discussão ser ainda imemorial, ainda datável e ainda necessária é curioso, mesmo preocupante.

A guerra tratada pela comédia é mais agradável pois sua reflexão é menos obrigatória, portanto suas mensagens costumam ser mais incisivas, ou mais idealistas. Contrariamente, as guerras em dramas criam uma rede de desesperança e pessimismo muito forte e causam uma reflexão generalizada. O tempo e a sociedade porém moldam como a comédia é criada e qual seu alvo, coisa que através desse paralelo ficará bem clara. Através de um mesmo tema e de um mesmo gênero, duas épocas e duas mentes traçaram leituras um tanto quanto diferenciadas de uma mesma intenção: a de fazer rir.

Os dois filmes basicamente se focam em uma mesma construção inicial, trabalhar o título, ou seja, apresentar para o público quem são os personagens principais. Quem é o ditador e quem é o “sósia”, já que ambos trabalham em cima do “mito”, por assim dizer, do ‘príncipe e o mendigo’. Existe o ditador e existe o ‘homem do povo’ e ambos são idênticos, já sugerindo ao expectador a inevitável troca de identidades em algum ponto da narrativa. As diferenças começam aí, já que Chaplin cria dois homens cultos, um ditador culto porém cego por um ideal errôneo e um barbeiro judeu dotado de grande humanidade e esperança. Cohen, por outro lado, cria dois absolutos boçais, um ditador absolutamente intolerante, racista, machista, desrespeitoso e psicopata. O tal psicopata tem por sósia uma pedra ambulante, um homem do campo que cuida de cabras e só, mal consegue se locomover.

 

Uma ótima cena onde um pudim possui uma moeda e a pessoa que achar a moeda dentro do pudim terá que se sacrificar pela democracia, porém o que ninguém é que todos os pudins possuem moedas.

Uma ótima cena onde um pudim possui uma moeda e a pessoa que achar a moeda dentro do pudim terá que se sacrificar pela democracia, porém o que ninguém é que todos os pudins possuem moedas.

Clara diferença de épocas, mas a construção de Chaplin é melhor pois deixa no ar que o conhecimento pode ser bom ou ruim, depende de como se interpreta ou como se usa. A comédia de Chaplin como um todo busca sempre reforçar mensagens positivas a respeito de tudo, enquanto a comédia de Cohen é meramente gráfica e absurda, ela apenas pede que você ria, pronto.

O segundo ponto é o interesse amoroso representado por uma mulher forte, batalhadora, rompedora de esteriótipos que busca para si um homem equiparável. A “evolução” da comédia está na opinião deste crítico no fato que no clássico de Chaplin a heroína Hannah se apaixona pelo barbeiro judeu, já no filme de Cohen a heroína Zoey se apaixona pelo ditador.

 

A melhor cena do filme, aqui o ditador em uma dança delicadamente bem elaborada traduz seu sentimento de euforia diante da idéia de ser ditador do mundo.

A melhor cena do filme, aqui o ditador em uma dança delicadamente bem elaborada traduz seu sentimento de euforia diante da idéia de ser ditador do mundo.

Ambos os filmes mantém uma idéia maniqueísta, ou seja, não existe transformação de personagem, talvez porque a transformação de personagem seja uma transformação do público. Talvez por se tratar de um tema real e urgente como a guerra, como conflitos reais, talvez exista essa rigidez de evolução interna por se propor uma evolução para o público. É o tipo de coisa que os dramas fazem, porém os dramas engrossam e perdem, muito!, a ternura. O interesse amoroso funciona dentro do discurso final, motivando o mesmo, sendo parte da força das palavras que ambos os personagens proferem.

Os discursos são um espetáculo à parte. O discurso de Cohen é absolutamente incrível, digno de um diálogo de Tarantino, ácido como uma tirada dos Beatles, extremamente inteligente e bem escrito. O discurso do ditador de Cohen já vale o filme inteiro. O discurso de Chaplin é emotivo e dedicado, porém idealista demais para um mundo imerso no mais profundo pessimismo. Os discursos são fidedignos já que o personagem de Cohen escolhe falar de ditadura e o barbeiro de Chaplin (que lembra muito Sweeney Todd, diga-se de passagem) escolhe falar de democracia.

Aqui o supremo líder dá o tiro inicial nas olimpíadas em que compete e atira em qualquer corredor que ousar correr mais rápido que ele.

Aqui o supremo líder dá o tiro inicial nas olimpíadas em que compete e atira em qualquer corredor que ousar correr mais rápido que ele.

Cohen faz uma inteligentíssima leitura de o que constitui uma ditadura citando números atuais dos EUA e dizendo que se eles tivessem aqueles números e estivessem naquelas situações, em que de fato estavam, seriam uma ditadura. Ou seja, seu discurso sugere que ditaduras não acabam, apenas se abrandam. Chaplin busca apenas motivar a população já que o filme se passa ainda na época da guerra, trazer esperança de volta aos homens depois de fazer graça de seu ditador e lhe dar um fim apropriado. O filme de Chaplin acaba em um lugar melhor do que o lugar inicial, o filme de Cohen fecha o loop voltando para o mesmo lugar onde começou. É melhor um otimismo de luta constante e mudança constante ou um otimismo de constante adaptação a um pessimismo constante? Fica a critério do espectador.

A comédia de Chaplin é uma comédia lúdica, simples, delicada, infantil, inspiradora, cativante. Focada nas clássicas pantominas dos filmes mudos e nos números de dança dos vaudevilles. É uma comédia que faz graça sem ofender, sem atacar nenhuma classe ou pessoa, absolutamente universal. Existe apesar disso uma fala que se pode considerar machista, proferida pela personagem Hannah, que ela profere diante dos policiais ao ter seu direito de ir e vir questionado. Ela diz “quem dera eu fosse um homem”, dentro da construção da época que mulheres não podem contra um homem por ele ser, dentro do entendimento da época, superior fisicamente. Já no filme de Cohen não existe a menor necessidade de tentar justificar o machismo que permeia a obra, já que o próprio é intencional. Cohen traz uma comédia absurda que funciona por não ser apelativa como nos seus filmes “Borat” e “Bruno”, indo além disso e se tornando uma comédia que se mantém fiél ao seu tema.

Aqui o supremo líder, o ditador Aladeen, tira uma foto de recordação com Megan Fox, sua amiga com benefícios.

Aqui o supremo líder, o ditador Aladeen, tira uma foto de recordação com Megan Fox, sua amiga com benefícios.

A qualidade da comédia de Cohen melhora aqui justamente por ele não simplesmente inserir quaisquer baboseiras na câmera apenas para arrancar risadas. O roteiro se constrói ao redor do personagem do ditador e sua jornada pessoal para evoluir de certa forma mas não necessariamente mudar, sendo talvez essa a sua mensagem para nós, que as coisas melhoram mas dificilmente mudam.

Duas comédias maravilhosas que se parecem, se somam e se consolidam muito bem enquanto comédias, cada uma em sua época.

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Lucas Simões – 27 anos, formado em Cinema e Mídias pelo IESB, quase formado em engenharia, quase judoca, quase nadador e quase melhor namorado do mundo de várias garotas. Atualmente trabalha com cinema na função de roteirista e script doctor, exercendo ocasionalmente a alcunha de continuísta em curtas-metragem da região. Sua atividade foi de setembro de 2014 a março de 2015.