Curta Brasília – Post #3: Crítica “Cloro (2014)”

por Gustavo Fontele Dourado

No programa 6 da mostra competitiva, os personagens do curta – Cloro (2014) – formam arranjos dramáticos com a presença de seus corpos em um ambiente de calmaria e de sonhos estáveis: uma piscina cheia de cloro em uma casa solitária. Este aparecimento persistente – a presença dos corpos – ou são ameaças eminentes de vários tipos ou a tranquilidade monótona que proporciona felicidade à família de Clara. Com o choque destas presenças, seus sentimentos surgem para a câmera e o sonho se torna um pesadelo na piscina cheia de sol ou imersa de escuridão.

Clara faz sua atividade habitual: bronzear-se à beira da piscina. Percebe-se um efeito de iluminação no lado direito da figura – provavelmente para indicar um mundo perfeito, um mundo muito vendável. Uma casa que se parece com um hotel.

Clara está no meio da adolescência, inicialmente ela só enxerga o sol forte, boas relações na família e o seu vício pela piscina. Clara comemora seu aniversário na piscina, passa seu cotidiano lá e deseja fazer sexo no mesmo local. Seus desejos contínuos são um perigo para a tranquilidade de sua mãe: não se pode ter cloro demais nos olhos e sobretudo mostrar presença de seu corpo em relação aos empregados da casa. Clara não pode mostrar muito de seu corpo e isso a priva do cloro e de seu sol – sua mãe não quer colocar sua filha em risco, não quer ver o perigo acontecer.

Após essa privação, a crise familiar se fortalece. Clara percebe os problemas de trabalho do pai e a fragilidade da relação da família, principalmente a do casal. Ela consegue enxergar melhor as coisas e brinca com a preocupação da mãe com a presença de seu corpo e chega até simular uma morte por afogamento na noite como uma forma de protesto.

Clara em um banho de sol, o empregado a observa.  Percebe-se  balões no fundo da imagem, foram do seu aniversário que ocorreu no dia anterior.

O cuidado técnico do curta é impecável, destaca-se os suaves e lentos movimentos de travelling e os enquadramentos que valorizam este erotismo de corpos sempre em ameaça de violência entre eles. A montagem se adéqua a estas imagens necessárias e os objetos de cena tem pouco espaço, eles são apenas sugestivos diante da presença dos personagens que mantêm uma presença considerável, mesmo os mais distantes, como os empregados da casa. A caracterização da casa, que parece um hotel de luxo, evoca um momento da sua família para esquecer de seus problemas como uma viagem curta para relaxar. O mundo perfeito é uma transição e os problemas veem à tona.

Cada um quer manter seu desejo e isso provoca um pesadelo leve após imagens que ressaltam um sonho contemporâneo, tudo muito belo demais, para a mudança numa noite azulada com a explosão do conflito. Um bom curta, o melhor ponto está na atuação principal de Ana Vitória Bastos e talvez o pior momento esteja na ausência no roteiro em não estabelecer o vício pulsante de Clara com os fatos escondidos dentro de sua família e para o que está fora da piscina – mas há muitas sugestões interessantes. O que ela problematizaria após essas descobertas? Poderia desenvolver um pouco mais sua revolta da cena noturna com suas reações anteriores – sem tornar explicativo necessariamente. Um instante de inocência perdido.

Clara, interpretada por Ana Vitória Bastos, em crise de abstinência do cloro e do sol.

Nota: o filme foi exibido no Cine Brasília no programa 6 da mostra competitiva das 21 horas no sábado, dia 20 de dezembro. Cloro fez parte do 3º Curta Brasília (2014).