A Entrevista (2014)

por Daniel Lukan

The Interview

“It’s OK if you don’t watch The Interview on Christmas, or ever – In defense of our rights as Americans to ignore a dumb movie” esse é o título da crítica de Emily Yoshida ao filme A Entrevista, publicada no site The Verge. Apesar de parecer que o tom adotado em relação ao filme seja exagerado, torna-se totalmente conveniente expressar tal opinião, principalmente, a partir do momento em que o lançamento ou o não-lançamento de um filme – assim como o conteúdo do mesmo – tornaram-se o centro do atrito diplomático que envolve os chefes de Estado de EUA, Rússia, China e Coréia do Norte; e muito além disso, com o lançamento confirmado, para os americanos, assistir ao filme protagonizado por Seth Rogen e James Franco, tornou-se um ato patriótico de defesa dos seus direitos. Um conflito, que pode causar consequências bélicas, gerado pelas ameaças do ditador com ego ferido e pela inflamação do estúpido orgulho patriótico americano ameaçado. A repercussão e a dimensão que todo esse embate tomou até o dia 23 desse mês de dezembro (quando a Sony resolveu oficializar o lançamento do filme para o natal) criaram uma grande expectativa que o filme em si (excluída toda a polêmica) não chega nem de perto a cumprir.

A entrevista é uma comédia da mais pura tradição da escola de besteiróis hollywoodianos, com direito a várias piadas racistas, xenófobas, misóginas e o pior de tudo: sem graça alguma. Na história do filme, Dave Skylark (James Franco), apresentador de um programa de entrevistas de conteúdo superficial sobre celebridades (Skylark Tonight), e seu amigo e produtor Aaron Rapoport (Seth Rogen) marcam uma entrevista com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, após descobrirem que o mesmo é um grande fã do programa. Essa entrevista seria uma oportunidade de provarem que seriam capazes de produzir conteúdo jornalístico sério. Quando os dois se preparam para viajar para Pyongyang, eles são recrutados pela CIA para a missão de assassinar o ditador.

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O enredo em si, extremamente simples, não deveria ser um problema. Muito pelo contrário, deveria abrir espaço para cenas cômicas particularmente muito mais elaboradas. Contudo, seu desenvolvimento é absurdamente pobre e medíocre. As críticas e a sátira ao ditador norte-coreano não são, ao todo, eficazes. Não há dúvidas de que a imagem do ditador é ridicularizada, mas o é da pior maneira possível. A figura de Kim Jong-un é apenas tomada como alvo de piadas e chacotas que, em geral, poderiam ser aplicadas nos mais diversos contextos. O humor não é muito bem pensado e elaborado com base na figura de Kim Jong-um e no contexto histórico e social da Coréia do Norte; a sátira é baseada em estereótipos e clichês que poderiam ser aplicados a quaisquer ditadores e seus respectivos países sem exigir grandes adaptações. As piadas são vulgares, o humor é baixo e grotesco. Mas não é grotesco de uma forma positiva. É tão grotesco quanto um adolescente praticando bullying de cunho sexista e lascivo.

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Em termos gerais, o filme com uma premissa extremamente corajosa adota como alvo de assassinato da CIA um ditador, ainda vivo, que está em evidência na mídia e, sobretudo, o coloca como personagem no filme sem usar quaisquer tipos de artifícios para mascarar sua identidade. Ele não utiliza subterfúgios como: Hynkel, ditador da Tomânia (The Great Dictator, 1940); ou o guerrilheiro Fielding Mellish da República de San Marcos (Bananas, 1971); ou o General-Almirante Shabazz Aladeen ditador de Wadhiya (The Dictator, 2012). Em A Entrevista, Kim Jong-un é o ditador da Coréia do Norte como de fato é. Talvez se tivesse adotado o procedimento dos outros filmes vários problemas diplomáticos seriam evitados. Porém, o que vale ressaltar desse ataque direto é que todo o descaramento que envolve a ficção sobre o assassinato de Kim Jong-un torna-se quase nulo perante a referência dos filmes semelhantes mencionados; no filme de Chaplin, por exemplo, qualquer um consegue associar Hynkel à imagem de Hitler e o contexto em que se desenvolve a história ao da Alemanha nazista.

Tomando como exemplo outro filme de atitude parecida (apesar de não mais se tratar de uma comédia), Bastardos Inglórios também utiliza abertamente a figura histórica de um ditador em um contexto de ficção. Entretanto, no filme de Tarantino a realidade fictícia é munida com fatos, acontecimentos e detalhes que situam a narrativa no cenário da Alemanha nazista e da França que sofre da ocupação do exército de Hitler.

Ao contrário do filme de Seth Rogen e Evan Goldberg, a verossimilhança histórica e social de todas essas sátiras mencionadas não se perde em meio ao seu contexto satírico-fictício.

Esse é o principal problema de A Entrevista: ao seu roteiro possivelmente faltou pesquisa ou, ao menos, habilidade para aplicação cômica e humorística da mesma. O filme não possui a profundidade crítica que uma comédia deveria ter. Em raros momentos a ditadura de King Jong-un sofre críticas realmente válidas, talvez a mais interessante (quiçá a única) seja na sequência final, em que se desenrola a entrevista (que dá o título ao filme), na qual nos é mostrada uma sala de mídia onde há um botão com a função de tirar toda a programação do ar – para abortar entrevista caso alguma coisa saísse do planejado. Em um conflito entre o produtor americano e o norte-coreano responsável por apertar o botão de emergência, o segundo tem três dos seus dedos arrancados. Um dos poucos momentos inteligentes de condenação aos atos de controle de mídia.

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Ademais, King Jong-un não é criticado. O filme pouco nos faz pensar sobre o comportamento ditatorial, sobre seu governo e sobre o próprio regime adotado na Coréia do Norte. O ditador é apenas ridicularizado de forma ofensiva. O discurso crítico em relação a uma ditadura comunista que poderia ser diversamente abordada e ridicularizada em um filme cômico torna-se um argumento ad hominem. Chega a ser absurda a repercussão dada ao filme, uma vez que ele é inócuo.

Em um dos filmes mais falados da segunda metade de 2014, Seth Rogen e James Franco não fazem nada muito além do que Marcius Melhem e Leandro Hassum – como: Os Caras de Pau – conseguiriam fazer com um pouco mais de efeitos especiais, dinheiro e repercussão midiática. James Franco, por sinal, em um péssimo arremedo de uma atuação de Jim Carrey como Ace Ventura ou Máscara, de tão forçado parece nos alertar sobre o fato de estar tentando ser engraçado.

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The Interview já causou vários danos à Sony Pictures e desestabilizou uma relação política e diplomática que já não era muito boa. E só por isso será lembrado. O que torna seu custo exorbitantemente alto, uma vez que seu valor cinematográfico é nulo.