Hoop dreams/Basquete blues (1994)

por Thiago Campelo

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Após sete anos de filmagens que tiveram início em 1987, em outubro de 1994, a Kartemquin Films lança Hoop dreams ou Basquete blues, filme do documentarista estadunidense Steve James. Naquele ano o filme recebeu o prêmio do público do festival de Sundance e em 1995 foi indicado ao Oscar de melhor edição, entregue a Forrest Gump.

Hoop dreams trata da trajetória de dois jovens negros norte-americanos – William Gates e Arthur Agee – da periferia da cidade de Chicago rumo ao sonho que possuem em comum: vencer na vida através do basquetebol. Uma jornada exaustivamente abordada pelo filme ficcional hollywoodiano, especialmente as narrativas esportivas, onde, por suas próprias forças, as personagens vencem todas as dificuldades, numa típica história de superação. No entanto, o que temos é a representação crua de dois adolescentes cheios de dilemas, insegurança, problemas familiares e o caminhar pelo processo do sonho americano.

vlcsnap-2015-01-05-02h01m43s210Naquele período a NBA vivia um de seus momentos mais significativos de apelo midiático. Na transição entre as décadas de 80 e 90, vivia-se o embate entre “super-heróis” e super equipes do esporte e isso vendia como água. O que começou com Larry Bird e Magic Johnson – que jogavam, respectivamente, nos rivalíssimos Boston Celtics e Los Angeles Lakers –, foi ampliado para outros times que encontraram seus franchise player e criaram suas rivalidades: Michael Jordan no Chicago Bulls, Patrick Ewing no New York Knicks, Isaiah Thomas no Detroit Pistons e alguns mais.

Não só o basquetebol, mas os esportes em geral, são vistos como tábuas de salvação para camadas específicas da sociedade e a produção de ídolos é fundamental para a manutenção dessa visão e para o consumo dos esportes enquanto entretenimento.

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É na figura de Isaiah Thomas, armador dos Pistons entre 1981 e 1994, bicampeão da NBA em 1989 e 1990, e líder da geração conhecida como os Bad boys de Detroit, que o filme desenha uma estruturação. Thomas nasceu, assim como Gates e Agee, na periferia de Chicago e passou pelo mesmo percurso que os dois jovens estão prestes a passar. Thomas é uma aposta que deu certo em meio a inúmeras que sucumbiram, como é o caso do irmão de William, Curtis Gates. Ele é a representação do sonho americano, a materialização da esperança de milhões de jovens negros e o alvo em que os dois protagonistas miram.

Dessa forma, Hoop dreams usa como pano de fundo o basquetebol e um ídolo do esporte para traçar uma história muito próxima à nossa, fazendo a óbvia troca de modalidade esportiva.

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Por volta de uma hora e meia de filme estamos em Princeton para o Nike All-American Camp, uma espécie de peneira para os atletas do ensino médio ingressarem nas equipes universitárias estadunidenses. Nesse momento, diante de uma plateia majoritariamente negra, ouvimos Dick Vitale, famoso comentarista do basquetebol universitário, discursar veementemente levando as cores da bandeira norte-americana junto ao corpo: “enquanto vocês estão sentados aqui hoje, vocês devem se sentir como um milhão de dólares. Vocês devem se sentir muito especiais. Vocês são um dos cem melhores atletas dos Estados Unidos. Minha mãe, que hoje está no céu, sempre me dizia: ‘isso é América. Você pode fazer alguma coisa da sua vida’”. Através da voz de Dick V, ecoa a de Truslow Adams e a ideia do sonho que Steve James reconstrói enquanto pesadelo.

vlcsnap-2015-01-05-02h08m50s114Ainda nos primeiros anos retratados pelo documentário, tanto Agee quanto Gates e suas famílias falam de seus sonhos, da perspectiva de um futuro melhor para todos e da certeza de que os conquistarão. Entretanto, o filme se desenrola bem diferente do que é mostrado. Agee e Gates vão treinar com o mesmo técnico que descobriu Isaiah Thomas, numa escola privada da cidade. Gates segue na equipe, mas sofre emocionalmente com a pressão do irmão e do técnico Gene Pingatore ao mesmo tempo em que sofre com lesões nos joelhos. Agee é cortado da equipe por Pingatore, transferido para uma escola pública, seu pai passa a vender drogas e a mãe perde o emprego. Ainda assim, ambos estão vivendo seus sonhos e tendo suas respectivas chances, como é dito, de uma forma ou de outra, pelo próprio técnico Pingatore, por Dick V, por Earl Smith, olheiro, e Michael O’Brien, diretor financeiro da escola. Há aqui, através da inteligente montagem de James, a exposição do que há de mais contraditório na sociedade norte-americana: a exclamada possibilidade de ascensão pelo seu próprio esforço em uma sociedade não tão propensa a mobilidade social quanto é pregado.

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Com 250 horas de material bruto para ser editado, Steve James, William Haugse e Frederick Marx constroem, em 170 minutos, um drama da vida real. Hoop Dreams é a realidade sob o olhar da ficção. Misturando entrevistas e cenas do cotidiano de cada pessoa presente na vida dos dois adolescentes, o filme parte de um momento de entusiasmo absoluto, da declaração dos sonhos e das certezas de um futuro, para um abismo de angustia e ansiedade que vai se tornando cada vez mais profundo e, por mais que algumas vitórias aconteçam, não há redenção para ninguém.

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O peso do método narrativo ficcional sobre o corte de James é um dos pontos altos do filme. A cisão que ainda hoje é tratada de maneira categórica por algumas pessoas – por mais que a tendência seja cada vez mais contrária – entre o documentário e o filme ficcional é bem mais diluída. O que interessa é o que é intrínseco aos dois domínios que cada vez se aproximam mais: a noção de verdade que orienta tanto a ficção quanto o documental. Nesse caso, a vida de William Gates e Arthur Agee é completamente tangível e verificável para além do filme e aí uma característica que torna Hoop dreams um documentário, bem como as entrevistas. De qualquer forma, o filme por si só é uma mistura entre objetividade e clareza daquilo que a câmera captura e subjetividade e opacidade do olhar de quem filma e de quem é filmado.

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A revista britânica Sight and Sound, famosa por atualizar a cada década a lista dos melhores filmes da história de acordo com a crítica, colocou, recentemente, Basquete blues na posição de número 17 na lista dos 50 melhores documentários, a frente de documentários históricos como Moi, um Noir (1959), de Jean Rouch e À propos de Nice (1930), de Jean Vigo.