A Traição (1966)

por Gustavo Fontele Dourado

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Logotipo de  A Traição (1966).

O Japão tem provavelmente o melhor cinema do mundo ao lado de gigantes como Polônia, Itália, Rússia… o vigor de suas realizações é muito prolixo e fundou estilos que se perpetuaram. Algo que decerto é surpreendente.

Tokuzo Tanaka, o diretor de A Traição (1966), morreu em 2007 e contribuiu com muitos filmes que se destacam dentro de um gênero fortíssimo e conhecido no mundo todo, um dos marcos fundamentais do cinema japonês: os filmes de samurai. Ele dirigiu alguns dentre os 27 filmes da série clássica do Zatoichi (vários anos) e a obra The Chinese Jade (1963).

A Traição (1966) conta a história do samurai Takuma preso ao seu destino – o de assumir um assassinato que não cometeu e que abalou os vínculos de dois clãs de samurais, o Minazuki e o Iwashiro. Takuma pega a responsabilidade por pedido do mestre do clã Minazuki e também o pai de Namie, a noiva de Takuma. Este ato foi usado para a proteção do clã e como uma troca palpável após a morte absurda de Denshichiro Kashiyama, um samurai fanfarrão filho do chefe do clã Iwashiro, que desafiou samurais do clã Minazuki para conhecer novos estilos de combate. Takuma se torna o principal suspeito e assim ele se afasta de sua cidade, mas o samurai é traído pela própria pessoa que implorou por ajuda e é denunciado realmente como o samurai que atacou Denshichiro pelas costas. Esta traição começa um ciclo de traições que Takuma sofre em sua jornada por motivos como dinheiro e honra.

Quadro 8

Takuma, interpretado por Raizô Ichikawa que morreu aos 38 anos de câncer e foi aclamado em vida como um grande ator.

Quadro 9

Namie, vivenciada por Shiho Fujimura.

O personagem principal é um dos mais poderosos que já se viu. Por isso que foi confiado a ele assumir algo que não cometeu e por ele ter a habilidade de sobreviver até o último minuto para defender sua inocência ou não ser facilmente derrotado em um combate. Sua técnica é inabalável, mas seu espírito é fortemente atingido depois de uma série de traições e por carregar um fardo que o faz matar cada vez mais. Tudo para que não morra como um assassino que não é. Já é tarde demais: ele matou muitos samurais para se defender e não pode deixar de ser um samurai enquanto outros samurais existirem.

Quadro 7

Takuma no início do filme.

Quadro 6

Takuma transformado e na batalha final.

O diretor mostra que o assassino é a guerra entre clãs e o caos provocado por acontecimentos mais estúpidos como a morte fatídica de Denshichiro. O filme faz uma crítica à capacidade de julgamento cega e vendada por uma honra coletiva e individual: a honra dos clãs e a honra de se acreditar no que se quer ver e não no que algo realmente é. Os clãs se envolveram em uma crise catapultada por comportamentos individuais estúpidos e que não podem ser justificados, o clã Minazuki pretente capturar ou matar Takuma que carrega a culpa pelos dois clãs até que eles deixem de existir.

Depois de uma longa jornada em fuga dos samurais que o abordaram em busca de justiça e de desapego às lembranças distantes e próximas: como o do pente de Namie e a da mulher que salvou Takuma na estrada e foi morta por estupradores, Takuma enfrenta os dois clãs na batalha emblemática de 15 minutos. Nesse combate ele consegue derrotar todos os seus adversários e não morre como um assassino que não era, mas vive como um assassino recém-nascido que matou os dois clãs para que ele continuasse no mundo.

Quadro 5

A batalha final.

Percebe-se que as batalhas assumem o estilo de um círculo ou semi-círculo que cerca um ponto central no quadro (samurais adversários que circunscrevem Takuma em combate). O que traz uma dinâmica de composição de pontos que se mexem no enquadramento. Adversários morrem pela movimentação da espada de Takuma e aos poucos o plano fica com outra composição e diversas linhas de encenação. Destaca-se a cena na perseguição na cidade, os adversários cercam o samurai e depois há a descarga de golpes sobre ele e com os contra-ataques mortais que dão vitória à Takuma. Tal estilização não é pouca e torna a cena final como memorável e sufocante para o espectador devido à sua longa duração sem ficar entediante, pela estilização de golpes (todos praticamente morrem com apenas uma espadada e não há nitidez de ferimentos e sangue, apenas movimentos de espadas que parecem que retiram a alma de quem as risca) e o suspense muito eficaz se o personagem principal irá sobreviver ou não.

Quadro 1

Exemplo do ponto central (Takuma sentado) e um círculo ao redor – adversários na última batalha.

Quadro 3

Composição de batalha. Takuma de costas, olhando para seu adversário principal de braços abertos. Os dois estão dentro de um semicírculo de outros samurais que olham para eles. O filme foi filmado na janela 2.35:1, o que permitiu o trabalho muito aprimorado da visão periférica no quadro amplo pelas laterais.

Quadro 4

Outra composição de batalha.

A cena final talvez ofusca alguns belos momentos memoráveis com as reações das personagens olhando uma para o outra sem diálogos. O diretor soube usar muito bem a potência dos semblantes e emoções de seu elenco para encaminhar a montagem e também para passar as transformações do enredo, é um dos filmes que se usa de forma mais apurada o chamado “plano de reação”. Como a expressão já denuncia, um plano usado para o elenco reagir a certas informações, ações e sentimentos. Tokuzo Tanaka conseguiu: nos apegamos a todas as personagens do lado de Takuma e queremos que ele sobreviva, mesmo que seja a tragédia do sobrevivido.

Quadro 2

É muito difícil largar uma espada, extensão do braço de um samurai. Takuma retira seus dedos com dificuldade do punhal após o rompimento de sua lâmina golpeada, o que deixou sua mão firme e apegada. Por ser a extensão do braço, parece que os golpes são uma cenografia de braços que discretos, que passam pelo corpo e quando há o choque de lâminas – as espadas ficam mais evidentes. Para os olhos atuais algumas batalhas do filme podem parecer lentas, mas o diretor não apela para o recurso de cortes frenéticos que afastariam possivelmente o suspense final da sobrevivência da Takuma.

O que Takuma é no final do filme? Em um paralelo com A Espada da Maldição (1966), onde o personagem principal é condenado a matar eternamente e precisa lidar sem pensamento em como vai assassinar o próximo sem a garantia que estará vivo, Takuma tem que lidar com o que é e como vai viver após tanta matança. Sua tragédia é a do pesar da vida e não a do confinamento eterno em que não há possibilidade de saída na Espada da Maldição (1966), as mortes são eternas. Takuma finalmente pode casar com Namie, todavia como uma pessoa diferente, ele estará pronto para manter uma vida com ela e esquecer o seu novo eu?

Quadro 3

Em matéria de encenação, a cena mais elegante: um único plano parado e fixo que aponta para um corredor durante uma perseguição.

Quadro 4

Takuma corre para a esquerda no fundo do corredor, nota-se os seus adversários correndo para a esquerda ao fundo atrás dele.

Quadro 6

Takuma se esconde em algum ponto do quadro no fundo, seus adversários não o acham. Eles atravessam o corredor e se aproximam da câmera e viram à direita.

Quadro 5

Após a saída de seus adversários pela direita da câmera, Takuma sai do fundo do corredor, corre e vira à esquerda. Sequência digna de estudo de uso da mise-en-scène, os personagens ocupam várias camadas do enquadramento e também camadas de fora do quadro em diferentes gradações: tudo em um único plano e sem passagens de foco discrepantes.

O outro recurso usado para estilizar a composição é, nas mesmas batalhas, o enquadramento fechar no ponto central (Takuma) e os pontos periféricos (os adversários) irem e deixarem o quadro pelos golpes do espadachim principal: os adversários não podem assumir o centro do enquadramento e cada movimento é calculado como um jogo de tabuleiro de “go” (como se fosse um xadrez oriental com mais peças e casas). Esse recurso de enquadramento é encontrado em outros filmes de ação como Operação Dragão (1973).

Fora das batalhas há disposições da câmera e da cenografia que revelam um mundo de quadrados contíguos a outros quadrados e as personagens ocupam parte destas formas. É possível ter profundidade de campo mesmo em planos aparentemente chapados – a densidade deles está contida de forma lateral e não em disposições diagonais como se é concebida na maioria das vezes a profundidade de campo – com a influência europeia da renascença e da cultura greco-romana.

Quadro 1

O pai de Namie pensa bastante no que fazer para salvar o clã Minazuki. Exemplo da composição de quadro ao lado de quadro, formas em linha horizontal.

Quadro 2

Namie e seu pai após a partida de Takuma e o cotidiano se transformando devido à sua ausência. Outro exemplo de linha lateral de formas, enquadramento ao lado de enquadramento.

Takuma é o herói escravizado pelos problemas dos clãs que o diretor quer mostrar para criticar alguns comportamentos e a história da sociedade japonesa, o personagem principal é um catalisador e assim vivenciamos a ambiguidade das suas facetas depois de seu sacrifício.

O filme com certeza é uma obra-prima e se arrisca na liberdade poética da luta final para elevar a criação cinematográfica a outro patamar, senão a cena cairia em um realismo maçante ou na normalidade autoritária. Não é um filme habitual para se entrar nas listas de 250 melhores filmes segundo os críticos, mas que merece esse reconhecimento. Até entre as obras-primas há muito o que ser redescoberto e lembrado para além do hype da crítica e da historicidade cinematográfica.

Quadro 10

Uma das cenas mais belas e ambíguas da história do cinema. O plano aberto contribuiu para a ambivalência dos sentimentos das duas personagens no fim: Takuma e Namie – o que importa são eles e não os clãs. Eles prevalecem ao meio de corpos mortos que mal vemos.