Whiplash (2014)

por Daniel Lukan

Whiplash

Aniversariante da última segunda-feira, dia 19 de janeiro, o diretor e roteirista americano, Damien Chazelle, de apenas 30 anos, lançou Whiplash no início do ano passado, como curta, no Festival Sundance de Cinema. Sendo lançado comercialmente como longa-metragem no final do ano passado, Whiplash é concorrente de várias categorias na cerimônia do Oscar desse ano. Pela segunda vez, Chazelle traz o jazz como um dos pontos principais de sua narrativa. Entretanto, ao contrário do musical Guy and Madeline on a Park Bench, de 2009, em Whiplash o drama é focado no baterista Andrew Neiman, estudante de música da Shaffer Conservatory of Music in New York City (a melhor escola de música dos Estados Unidos, talvez do mundo).

Não se trata de mais uma narrativa de superação apresentando vários percalços, dificuldades e humilhações enfrentados por um protagonista talentoso rumo ao sucesso (seja um artista, esportista, etc.). Chazelle não utiliza da carga dramática de uma história como, por exemplo, a de Maggie Fitzgerald em Million Dollar Baby (2004). Andrew (Miles Teller) é um estudante de música, apaixonado por jazz e que tem como objetivo – e não apenas como um sonho – tornar-se um dos maiores músicos de todos os tempos (como é o baterista Buddy Rich, seu ídolo).

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O filme é muito mais sobre a dedicação quase insana em busca da perfeição do que sobre superação. Já no início do filme nos é apresentado Andrew se preparando pra tocar bateria solitariamente em uma sala da escola de música. A câmera está distante e não se vê mais ninguém no corredor que está mal iluminado, o eco dos sons produzidos por Andrew também ajuda a mostrar que o ambiente está vazio e, provavelmente, ele é o único ali.  Obviamente, deduz-se que ele está praticando em horário extra. Em um belíssimo travelling, que atravessa o corredor até a sala onde Andrew está tocando bateria, somos conduzidos à proximidade e intimidade com a qual acompanharemos a trajetória perfeccionista do jovem baterista. Ainda nessa cena inicial, ao final desse travelling, nos é apresentado o mais célebre instrutor da Shaffer Conservatory, Terence Fletcher, que chega até a sala e interrompe Andrew. Essa primeira cena é fundamental para estabelecer como acontecerão os futuros conflitos e o andamento do filme como um todo. A partir desse momento, fica definido o caráter solitário e perfeccionista de Andrew, além de sua excessiva dedicação à música e a submissão e o respeito pela imagem de Fletcher; também são definidas as características tão semelhantes em Fletcher (solidão, perfeccionismo e dedicação à música), contudo, mais notável ainda é seu autoritarismo e sua personalidade forte.

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Se há muito pouco em relação ao uso de artifícios que pudessem provar a resiliência do protagonista, em contrapartida, a busca da excelência e o amor à arte de forma exagerada, beirando a loucura, nos traz em mente outro filme que concorreu ao Oscar recentemente: Black Swan (2010). Por mais que tematicamente sejam semelhantes, os filmes se diferenciam no desenvolvimento de seus enredos, Nina, personagem interpretada por Natalie Portman, protagoniza o drama-psicológico no qual evidentemente caminha para a loucura total; ao passo que Andrew está inserido muito mais em uma espécie de thriller, que também possui um desenvolvimento psicológico bastante elevado, no qual o embate de decisões e ambições entre um possível gênio e o seu ‘tutor’ extremamente exigente e autoritário acaba por gerar uma conflituosa relação de pai e filho.

Assim como Aronofsky, Chazelle usa close-ups e planos detalhes que colocam os pormenores mais desagradáveis das cenas em evidência. Ou seja, em Black Swan vemos, por exemplo, a unha quebrada de Nina após a repetição incessante de um movimento; em Whiplash detalhes que pegam a mão de Andrew formando bolhas e até sangrando enquanto ele toca, ou trompetistas liberando o líquido acumulado nas válvulas de saliva do instrumento. São apenas exemplos chocantes de como ambos os filmes trabalham uma série de artifícios visuais para nos aproximar ao máximo de seus protagonistas. Muito mais que para apenas admirarmos uma bailarina ou um baterista se apresentando. Na sequência final em que Andrew está tocando Caravan, além de observarmos a canção que é tocada perfeitamente, a cena gera uma aflição maior do que em qualquer outro momento do filme, pois, não é apenas pela exigência imposta por Fletcher que sabemos o quão complicada a música é, já havíamos visto como ela era difícil fisicamente de ser executada com perfeição. Através da perspectiva visual adotada, Whiplash quase que nos coloca na pele de Andrew.

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Tal como Black Swan não é um filme sobre balé, mas sobre uma bailarina; Whiplash também não se trata de um filme sobre o jazz. No segundo, o esforço pela perfeição e o domínio artístico traz à tona outra questão, ausente no primeiro: o poder. Enclausurado no autoritarismo de Fletcher, esse é um elemento que, aguçado pela brilhante atuação de J.K. Simmons (fortíssimo candidato ao prêmio de ator coadjuvante), permeia e serve como impulsão do aperfeiçoamento artístico de Andrew. Nesse ponto, as técnicas particulares, enérgicas e hostis que o personagem de Simmons usa para acertar o tempo e a afinação de sua banda nos remete ao Sgt. Hartman de Full Metal Jacket (1987). Por mais que em um primeiro momento a intolerância e a dureza de Fletcher pareçam um pouco exageradas para um simples professor de música, com o desenrolar do filme, a expressividade desse personagem se torna importante não apenas para o desenvolvimento de Andrew como protagonista, mas é contundente e se justifica por si mesma: ele não é um simples professor, ele não quer apenas ensinar as pessoas a tocarem seus instrumentos. Do mesmo modo como o Sgt. Hartman deseja treinar perfeitas máquinas de guerra, Fletcher quer descobrir e preparar o novo Charlie Parker.

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Com poucos e ótimos personagens principais e uma grande atuação de J.K. Simmons, Whiplash apresenta um enredo extremamente simples. O filme começa e termina com Andrew Neiman tocando bateria. Há, nesse meio tempo, os acontecimentos que distinguem o Andrew que começa tocando sozinho numa sala e o que termina se apresentando a uma plateia. Em termos narrativos é como se a história de Andrew fosse um despretensioso conto. Não há um grande aprofundamento na história. Pouco importa se Andrew reatou ou não seu romance com Nicole, se ele se tornou um dos maiores músicos de todos os tempos, ou se a banda venceu o JVC Festival Concert. Assim como também não há um grande desenvolvimento heroico ou trágico no seu protagonista. O que de forma alguma evidencia defeitos no seu roteiro, muito pelo contrário, cria o espaço para destaque dos temas trabalhados na história e que justifica a nomeação em uma das categorias de roteiro. Entretanto, a sobriedade que marca a execução dessa história dificultou a aparição de Whiplash entre os “inventivos” indicados a melhor direção, o que possivelmente impossibilitará sua escolha como melhor filme.

Whiplash concorre às seguintes categorias no Oscar 2015: Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Edição; Melhor Mixagem de Som.