The Grand Budapest Hotel (2014)

por Thiago Campelo

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Em março de 2014, J.R. Jones, crítico de cinema do semanal Chicago Reader, resumiu bem o desconforto comum a muita gente no que toca a obra de Wes Anderson, sobretudo em seus últimos filmes: “Anderson’s movies can be wonderfully funny and fun to look at, but they often give me the feeling that I’m watching a grown man play with dolls”. De fato os filmes dele são muito bem trabalhados, de charme inigualável e relativamente dotados de um valor cômico perspicaz que arranca alguns sorrisos. Os filmes de Anderson são lindos e em alguns momentos são divertidos, mas os pontos positivos acabam aí.

O hype ao redor da carreira de Anderson, que ganhou mais corpo com a indicação de Moonrise Kingdom para melhor roteiro original no Oscar de 2013, toma agora, com The Grand Budapest Hotel – filme que recebeu nove indicações, incluindo a categoria de melhor filme e melhor direção, na premiação de 2015 – proporções absurdas. É bem provável que a capacidade de processamento dos códigos culturais contemporâneos do diretor seja maior do que as suas habilidades enquanto realizador cinematográfico e isso se reflete na legião crescente de fãs do Texano, apesar da superficialidade dos seus filmes.

The Grand Budapest Hotel gira em torno de M. Gustave (Ralph Fiennes, de The Reader e Skyfall) um concierge extremamente caricato, mas que não chega nem perto do tosco – o que é bom. Responsável pelo hotel que dá título ao filme, ele cuida tanto da parte administrativa, quanto do bem estar de seus hóspedes – sobretudo das senhoras ricas. A partir da morte de uma de suas hóspedes, madame D. ( Tilda Swinton, de Only lovers left alive), também sua amante, Gustave e Zero (o estreante Tony Revolori), seu mais novo ajudante e mensageiro, tornam-se cumplices do roubo de um quadro de valor inestimável – que era herança deixada para Gustave – e suspeitos do assassinato da senhora. Em contraponto, são caçados pela polícia, chefiada por Henckels (Edward Norton, de Fight club) e pelo filho nazi, Dimitri (Adrien Brody, de The pianist) e seu “cão de guarda”, Jopling (Willem Dafoe, de Antichrist).

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O filme que é baseado na obra do austríaco Stefan Zweig, começa no tempo atual, em uma espécie de homenagem ao falecido autor do livro, Junger Schriftsteller, que narra a história do Grande Hotel. Um flashback dentro de um flashback dentro de mais um flashback e enfim chegamos ao período entre guerras, onde encontramos os principais personagens. A referência feita à Zweig que se suicidou no Brasil em 1942 por não suportar a autodestruição de sua pátria espiritual, a Europa, a figura da jovem leitora junto ao memorial de Junger dentro do “antigo cemitério de Lutz”, o pronunciamento dele que introduz toda a história; enfim, o retorno ao retorno do retorno cria camadas menos epiteliais de possíveis leituras do filme enquanto uma abordagem da Europa ao longo do século XX, o peso do nazismo e as ruinas encantadoras que resistem até hoje. Aí, o único ponto forte do filme – e talvez o melhor plano, enquanto um menino atira em Junger com uma luger de brinquedo –, que se perde e que talvez nem seja perceptível à primeira vista. Para além da trama de aventura e ação, a tentativa de abordar o declínio cultural europeu após a II Grande Guerra através da degenerada visão estética que o nazismo trouxe e que volta e meia acena de longe em alguns bolsões de nosso tempo, é um ponto realmente interessante e que é digno de novos olhares pelo cinema.

No entanto, Anderson fica pelo caminho ao tentar abordar um tema sério com a sua leveza caracteristicamente pueril. É desconcertante, em certa medida, a força exercida sobre a proposta do filme para que fosse possível o encaixe no molde do realizador. A medida que se vê a história de Gustave, Zero, Dimitri e os outros personagens de elenco estelar tão artificializado por Wes Anderson, o filme se perde num mar de fofurinha cor-de-rosa, azul celeste e vermelho berrante.

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Tudo explode na tela; seja pelas cores, pelos movimentos irritantes e meramente objetivos, pelo enquadramento de rigor paradoxalmente militar, pelo ritmo frenético das falas – principalmente nas cenas de Gustave, ou seja, o filme quase todo – que fazem lembrar as antigas e boas screwballs comedys e pelo ritmo da narrativa que não dá respiro a ninguém. The Grand Budapest Hotel é um vaudeville que pode muito bem ser apreciado (ou não) de forma picotada. Maravilhosa fotografia, direção de arte impecável, ótimo elenco, trilha sonora de qualidade, decupagem rigorosa. No entanto, esses segmentos não dialogam entre si e com isso colocam o principal objeto em terceiro ou quarto plano.

O contraponto que é feito entre as duas forças presentes no filme: Gustave, Zero e sua namorada e Dimitri, Jopling e todos os nazistas que usam “ZZ” nos colarinhos e em suas bandeiras, não vai além do arquétipo básico de bem e mal, apesar de Gustave e Zero serem dois trambiqueiros de classe que de alguma forma se preocupam com um quadro que só é importante pelo seu valor monetário. Se de alguma forma, houve a preocupação de ridicularizar o nazismos colocando todos com “ZZ” em suas roupas, não passou de releitura de Chaplin, em The great dictator de 1940 e no mais, um potente indutor de sono bem sugestivo.

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O que poderia dar mais profundidade ao filme e instaurar uma possível ligação com os cinco primeiros minutos seria a atuação dos principais personagens que se resume em diálogos espertos, tiradas legais e expressões blasés – talvez com Zero, na fuga da prisão, uma possível centelha dessa “humanidade”. Nada é dito ou mostrado, além da pompa do hotel e dos personagens. De fato, é como se o elenco estivesse sob a regência de alguém que brinca com bonecas.

Se Zubrowka é uma metáfora para toda a Europa e Gustave uma metáfora para o que era a cultura do continente, a ruína, de acordo com Wes Anderson, chegou antes dos nazistas.

Mesmo assim, o filme é lindo. A história que se destaca é de fácil digestão; Gustave, enquanto personagem, e a atuação de Ralph Fiennes realmente arrancam alguns sorrisos e o filme é cheio de pequenas pistas e curiosidades e garante cem minutos de estímulos visuais.

The Grand Budapest Hotel - 64th Berlin Film Festival

O personagem interpretado por Fiennes assume um bom paralelo entre o que ele representa e o próprio espectador. Gustave, assim como suas amantes, é inseguro, vaidoso, superficial, carente, porém charmoso e extremamente perfumado. Talvez, aderir ao coro de quem clama por uma estatueta de melhor filme para The Grand Budapest Hotel seja lá algo como fazer parte de uma sociedade muito especial cujos pré-requisitos sejam ter as mesmas características do concierge e suas amantes.

The Grand Budapest Hotel concorre às seguintes categorias no Oscar 2015: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Roteiro Original; Melhor Figurino; Melhor Maquiagem e Penteado; Melhor Fotografia; Melhor Edição; Melhor Trilha Sonora; Melhor Design de Produção.