Tangerines (2013)

por Gustavo Fontele Dourado

Ivo é um cultivador de tangerinas no interior de uma região imersa em guerra por conquista de território entre georgianos e estonianos. Após uma adversidade provocada pelo conflito, o idoso solitário hospeda Ahmed (um estoniano) e Niko (um georgiano) dentro da mesma casa para cuidar da saúde de ambos e em seguida do ódio mútuo.

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Ivo, cujo passado conhecemos somente na sequência final do filme. Suas perdas já foram muitas aparentemente e o que mais importa para ele é a vida humana e a relação com a casa.

Humanismo e simplicidade. Sentimentos que não se tornaram apenas palavras na condução do diretor Zaza Urushadze. Um georgiano que expõe e nos conta com maturidade uma narrativa simples e anti-armamentista sobre a guerra presente em uma região muito tênue em tensões e em ações coléricas devido às diferenças dos mais diversos tipos e sobretudo em não aceitá-las, o que gera uma má convivência.

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Ahmed, o estoniano. Os inimigos comem na mesma mesa.

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Niko, o georgiano, conversa com Ahmed.

Tangerines nos mostra que os estonianos e os georgianos podem ser mais próximos do que eles pensam ser. E o grande encanto do filme é a guerra amenizada dentro de uma casa, Ahmed e Niko só não se destroem por causa de Ivo que transmite sabedoria, respeito, gratidão e o controle sob os dois em seu espaço. Ivo não é a figura idosa que todos pensam que um velho é ou como alguém ficará quando entrar nos seus anos derradeiros: ele é sobretudo corajoso, saudável e não se torna novamente uma criança no mau sentido da palavra.

Fora da casa de Ivo, já temos mais experiência como espectadores sobre as guerras nas florestas, nos descampados, nas planícies em vários outros filmes… Já dentro dela, testemunhamos um ódio em trégua – uma destruição suave com palavras e com posições contrárias. Ahmed diz quase sempre o contrário de Niko, os georgianos e os estonianos acreditam que são inimigos fundamentais. Tangerines, Mandaariinid no original, serve de belo exemplo para as teorias das relações internacionais como as da vertente realista (exemplos: Waltz e Herz) – o medo gera controle e as relações internacionais são difíceis devido à natureza humana.

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Ivo media a eminência de uma possível briga entre Ahmed e Niko em sua casa. Percebe-se a luz pálida da região isolada.

Ivo ao lado de seu vizinho e também cultivador de tangerinas, Margus, impedem a manifestação do ódio em brutalidade e Ahmed e Niko se tornam amigos. O filme nos ensina que assim como sua narrativa é econômica, simples e sua técnica não se propõe a se destacar pela complexidade de movimentos cheios de ornamentações, a resposta para a paz é óbvia e ao mesmo tempo ela é difícil de absorção pela humanidade. Tangerines se destaca pela elegância do trabalho com poucos elementos, com alguns personagens e com momentos de uma luta muito particular e de difícil retrato para quem se propõe a executar a história.

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Margus, o outro cultivador de tangerinas.

O filme foi feliz e teve o mérito de ser econômico sem se deparar com a miséria de que a câmera está lá para contar uma mera historinha, sua linguagem é muito bem delineada e alcança um nível elevado de profundidade sem transparecer que queria ser uma obra-prima.

Ivo e Margus não podem aproveitar uma melhoria das vendas de suas tangerinas durante esse período de guerra, mas conseguem formar uma amizade em uma zona que é como um limiar. É ela que serve como refúgio por ser isolada e desconhecida como a tranquilidade, mas não é imune das vontades estúpidas da humanidade e pode ser destruída em momentos quaisquer.

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As tangerinas ficam em segundo plano na obra, mas simbolizam o que georgianos e estonianos mais precisam: a satisfação com seu próprio lugar e com a convivência. Com a comida podemos criar relações de paz.

O Oscar se encantou com a potência universal que o filme tem e com a humanidade e carisma de suas personagens, um filme que comove sem cair no sentimentalismo barato e no modismo de algo exageradamente minimalista – mas ofuscado pelos seus concorrentes mais célebres como Leviatã, Ida e Relatos Selvagens. E junto com Timbuktu do diretor com uma carreira sólida para os padrões africanos: Abderrahmane Sissako, a categoria de filme estrangeiro tem fortes nomes e foi um ano com uma excelente seleção.

Dificilmente ganhará a estatueta nesta lista, mas que não tira o brilho da obra e que merece ser assistido junto com o restante da curta filmografia de seu diretor. O cinema mundial abre riquezas de visões e as regiões periféricas têm muito a dizer e fazem uma bela arte de grande relevância.

Tangerines concorre à categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar 2015.