Dois dias, uma noite (2014)

por Não são as imagens

A depressão vem se tornado muito frequente e ainda considerada um problema a ser evitado ao invés de resolvido de maneira conjunta. No mundo capitalista tal condição é vista como fraqueza de caráter, “frescura”, quando na verdade se trata de uma doença muito séria. Esse é o tema chave do longa-metragem “Dois dias, uma noite”, dos diretores Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. O filme conta a história de Sandra, uma mulher simples que trabalhava em uma fábrica e que precisou se afastar por estar em depressão e isso afetar diretamente o seu trabalho. Depois de algum tempo afastada (não fica claro quanto tempo) ela recebe a notícia que seus colegas de trabalho votaram em despejá-la pois tiveram que escolher entre mantê-la ou receber um bônus de gratificação de mil euros.

 

Sandra (Cotillard) consolada por seu marido Manu (Rongione) enquanto tenta se segurar em pé diante da sua complicada situação.

Sandra (Cotillard) consolada por seu marido Manu (Rongione) enquanto tenta se segurar em pé diante da sua complicada situação.

Aqui uma coisa que não é dita em momento algum mas que na opinião deste crítico fica bem clara é o preconceito com a condição psicológica de Sandra, pois essa bonificação surge apenas como um pretexto para não ficar na cara que na verdade apenas querem se livrar dela. O filme se torna bem trágico nesse sentido, pois as pessoas que votaram a favor de despejar Sandra agem como animais diante da possibilidade de perder o bônus monetário. Em alguns aspectos o filme até acaba se tornando trágico demais, muito desesperançoso, quase um filme sobre “first world problems” já que perder um emprego não é realmente a pior coisa do mundo, talvez o seja aqui pois se trata de uma pessoa com depressão. O flime também perde um pouco do caráter trágico pelo fato de haverem muitos aliados pelo caminho de Sandra, que tornam sua jornada de reparação menos árdua.

Sandra, em desespero poético, deseja ser o pássaro que canta próximo dela. Um pássaro sem nenhuma preocupação mundana.

Sandra, em desespero poético, deseja ser o pássaro que canta próximo dela. Um pássaro sem nenhuma preocupação mundana.

O roteiro é bastante bonito enquanto retrata a jornada de Sandra em busca da redenção dos colegas, buscando obter votos em seu favor para que fique, já que quatorze votaram para que ela fosse demitida e todos recebessem a bonificação de mil euros e dois, para que ela ficasse. Dentro dessa jornada curta e quase em tempo real Sandra reencontra alguma força dentro de si para lutar e correr atrás de manter seu emprego. Não há porém transformação alguma já que se trata de um drama bastante trágico, mesmo assim é um drama identificável e humano ficando assim distante dos excessos que um mau drama costuma ter. Erros, contudo, surgem em alguns pontos do filme. O primeiro é esse péssimo McGuffin (“McGuffin” é um termo do cinema que faz alusão a um recurso que entra na narrativa pra justificar de maneira porca alguma motivação do filme) dos mil euros, já que sem isso a história não acontece por retirar a motivação de todos os personagens que votam contra ela. Não que esse tipo de situação não ocorra na vida real, a questão é que esse tipo de situação dificilmente dá um filme porque não é um problema realmente complicado. Assim, coloca-se o McGuffin na narrativa e partimos para justificar todo o resto ao redor do mesmo. Todos os personagens que trabalham na fábrica possuem um meio de vida difícil, e não existe um contexto que justifique isso, eles apenas precisam do dinheiro. Ponto. Poderíamos facilmente alterar o roteiro para a história de uma menina que iria viajar pra Disney com os pais e descobre que não passou em matemática, e assim terá que ficar as férias de verão estudando para fazer a prova de recuperação. Mas as passagens já estão pagas! Já está tudo certo! A menina então vai de professor em professor para tentar convencê-los a fazer a prova depois que voltar de viagem. Aí, mesma história, mesminha.

Sandra confronta seus colegas de trabalho no dia de votação para saber se ela ficará com eles ou se será demitida.

Sandra confronta seus colegas de trabalho no dia de votação para saber se ela ficará com eles ou se será demitida.

A direção de arte faz o seu arroz-feijão ao contrastar o universo lírico de Sandra que é negro e sombrio com o mundo externo que é colorido e alegre. Parabéns direção de arte, vocês não fizeram nada que este crítico já não pensaria em fazer. A fotografia é bem teatral, dentro da idéia, acredita-se, da tragédia grega. O foco é sempre Sandra e não se focam muito outros personagens, quando algum precisa entrar ele entra com Sandra já centralizada no quadro, como um mensageiro, ou um amigo. Os funcionários da fábrica funcionariam como o coro da tragédia grega que tem uma função coletiva e representam a polis, ou cidade-estado, aqui absolutamente significativo já que o coro vota o destino de Sandra. Como se Sandra fosse uma exilada, destituída de cidadania, e precisasse quebrar o coro em partes individuais para que assim consiga dobrar sua vontade. Nesse sentido o roteiro merece crédito ao resgatar uma cultura antiga tão celebrada em outrora mas que hoje em dia caiu em desuso. A trama perde a força enquanto tragédia por acabar sendo forçada demais e se escorar no McGuffin e na depressão.

Sandra buscando seus companheiros para pedir que não a despejem. Solitária, mas forte.

Sandra buscando seus companheiros para pedir que não a despejem. Solitária, mas forte.

O filme é louvável em sua transposição de um formato clássico do teatro grego para as telas porém falha muito no momento de transpor a essência do mesmo. As atuações são reais, emocionantes, a narrativa é bela e envolvente, mas a construção do roteiro é ridícula. As motivações dos personagens e o conflito da protagonista são intragáveis e desagradáveis. O problema de Sandra, apesar de ser um problema real e sério, não é explorado da maneira que potencializa a jornada da personagem nem seus obstáculos. A emoção do filme me vem apenas por conta da excelente química entre seus personagens, ponto onde o mérito do diretor e atores é completo e merecido. Agora a história ficou uma bela porcaria, e digo bela sem qualquer pingo de ironia.

 

Este filme concorre às seguintes categorias no Oscar 2015: Melhor Atriz (Marion Cotillard).

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Lucas Simões – 27 anos, formado em Cinema e Mídias pelo IESB, quase formado em engenharia, quase judoca, quase nadador e quase melhor namorado do mundo de várias garotas. Atualmente trabalha com cinema na função de roteirista e script doctor, exercendo ocasionalmente a alcunha de continuísta em curtas-metragem da região. Sua atividade foi de setembro de 2014 a março de 2015.