The Imitation Game (2014)

por Daniel Lukan

O primeiro filme em língua inglesa do diretor norueguês Morten Tyldum é uma adaptação remota do livro Alan Turing: The Enigma, de Andrew Hodges. Digo ‘remota’ não por comparação entre as histórias contadas no livro e no filme, mas sim pela abordagem. O livro sem dúvidas se trata de uma completa biografia que busca fixar a memória dos feitos de Turing na história da segunda guerra mundial e do desenvolvimento dos estudos matemáticos e tecnológicos. Em contrapartida, o filme foi idealizado a partir de um admirável trabalho de adaptação que resultou em um roteiro que foge, na medida do possível, de uma cinebiografia nos termos mais estritos; The Imitation Game se trata de um ótimo thriller que tem Alan Turing como protagonista e que, consequentemente, narra os principais fatos da vida do mesmo.

The imitation game

A história contada no filme começa a ser narrada pelo próprio Alan Turing (Benedict Cumberbatch) e a partir desse início ela toma três frentes narrativas que se desenvolvem: Alan Turing nos anos 50 que está na sala de uma delegacia local relatando sua história ao detetive Robert Nock; flashbacks dos relatos do próprio (que dominam a maior parte do tempo de filme) e que retomam suas atividades para o serviço de inteligência britânico durante a Segunda Guerra Mundial; e flashbacks dentro dos flashbacks que recuperam fatos da infância de Turing, sobretudo, sua paixão pelo amigo Christopher e sua “descoberta” como homossexual.

Daí destacamos o principal diferencial do filme e de seu roteiro: o drama de uma história real da segunda guerra – o que por si só já poderia ser um grande abordagem cinematográfica, como é o caso de The Pianist, de Roman Polanski, por exemplo – fica em segundo plano. Não que seja negligenciado. Alan Turing enquanto herói de guerra está muito bem representado. No entanto, essa separação em “frentes narrativas” distancia o filme dos gêneros mais óbvios de encaixá-lo (ou seja, biografia e drama de guerra) e o torna, a princípio, em um simples thriller que busca solucionar o caso do assalto à casa de um professor universitário. De forma brilhante, essa investigação vai montando o próprio Alan Turing como personagem, as frentes narrativas que picotam sua vida servem como peças de um puzzle que aos poucos vão se encaixando e revelando sua  relevância histórica. Além disso, e tão importante quanto, a medida que se constrói Turing enquanto gênio e herói, estabelece-se em seguida a hipocrisia e a ingratidão que foi o esquecimento de sua obra e sucesso, principalmente, como reação as suas condutas “criminosas”: a homossexualidade. Desse modo, sem adotar uma postura completamente biográfica, The Imitation Game nos conta a vida Alan Turing.

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Ao lado dessa interessante montagem narrativa vislumbrada em seu roteiro, Benedict Cumberbatch destaca-se no papel do matemático inglês, transparecendo em sua atuação – sobretudo nas cenas mais dramáticas – todo seu envolvimento com o personagem, além de uma segurança adquirida no recente sucesso com personagem Sherlock na série de mesmo nome (valendo também suscitar uma de suas primeiras atuações em filmes, no papel de outro gênio da ciência, Hawking (2004), de Philip Martin).

Apesar da intepretação de Cumberbatch e a montagem narrativa darem bastante valor ao filme (justificando várias das nomeações nas principais premiações do início de 2015, dentre elas o Oscar, principalmente em categorias que premiam roteiro, ator e melhor filme) é possível notar certas atitudes bastante cautelosas na concepção do filme que, se por um lado aumentam sua recepção perante o prêmio da academia, por outro lado, diminui em certa medida o impacto de seu notável trabalho de composição narrativa e até mesmo a boa atuação de seu ator principal. Um dos grandes pontos de The Imitation Game é, com certeza, o fato de abordar um caso de heroísmo de guerra no qual a força bruta é completamente inoportuna. No entanto, a direção de Morten Tyldum e a atuação de Cumberbatch por vezes acabam apelando a representações tão previsíveis, e até mesmo clichés, de personalidades geniais… maneirismos, caracterização um tanto enigmática, manias e tiques.

The Imitation Game

Da mesma forma, o filme se direciona a um apelo um tanto exagerado à incompreensão e aceitação da homossexualidade de Turing. Ao longo de grande parte da história principal do filme – portanto, durante o trabalho de Alan Turing na segunda guerra – o tema já fica exposto nas ambientações da época, assim como é colocado de forma muito inteligente na fala do protagonista com o detetive. Ou seja, mesmo em seguida, fica evidente como o preconceito e as rigorosas leis contra a homossexualidade destruíram toda a imagem de Alan Turing, especialmente por dar fim a sua carreira acadêmica; entretanto, se observamos melhor como o filme chega a esse final, a destruição dos feitos e do projeto desenvolvido durante a guerra trata-se, a princípio, de uma questão de segurança. Todos os arquivos e dados relacionados ao projeto e às pessoas que dele participaram são queimados, por eles próprios.

Além disso, ainda que homossexual, é possível notar no protagonista certa ingenuidade em temos de sexualidade, como se todas as opiniões fossem absurdas pelo simples fato de existirem. Enfim, em relação a isso, a abordagem do tema do preconceito no filme – o que acontece principalmente no final – torna-se o foco de um drama muito maior do que o próprio Turing dava ao mesmo, o personagem está envolto em dramas pessoais e psicológicos que se sobressaem a não aceitação de sua sexualidade. O questionamento sobre a incompreensão existe no discurso de Turing. Contudo, de forma muito mais racional do que a apresentada no próprio filme. E, por isso, parece que a importância dramática que tal questão toma no último ato parece mais com soluções milimetricamente pensadas para o filme causar boa impressão.

THE IMITATION GAME

Por fim, The Imitation Game apresenta uma excelente proposta narrativa e conta com uma boa atuação de seu protagonista, nos demais pontos cometes deslizes não muito graves, seja por precaução do ainda estreante diretor que optou por adotar algumas soluções dramáticas mais cautelosas e conservadoras, o que, apesar de não chegar a ser ruim, diminui a potencialidade da história. O filme apresenta um ótimo personagem e o constrói de forma inteligentíssima. Não se prendendo ao lugar comum das cinebiografias, o filme apresenta formas diferentes de nos aludir e apresenta fatos sobre a vida de Turing que estão além da história contada. Uma bem perspicaz como, por exemplo, a morte, e possível suicídio que pode ter sido causada por envenenamento de cianureto que o mesmo colocou em uma maçã, remetida primeiramente na cena em que ele tenta se aproximar dos colegas de trabalhado oferecendo maçãs a eles e quando os detetives chegam a sua casa e ele está limpando cianureto derrubado no chão. Outra solução já nem tanto interessante, o fato de Alan Turing ter sido um maratonista de classe mundial é apresentado aleatoriamente sem qualquer propósito em cenas em que ele aparece correndo sem mais explicações.

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De modo geral, é sem dúvidas um filme bastante agradável de se ver. Com qualidades convincentes, porém, com defeitos bobos. Um personagem forte e, sobretudo, real que, como sempre, acaba agradando a premiação do Oscar e justifica a numerosa quantidade de nomeações. Todavia, não chega ser superior ao tão similar A Beatutiful Mind, de Ron Howard, grande vencedor do Oscar de 2002 e, portanto, não deve chegar ser um dos principais nomes entre os vencedores desse ano.

The Imitation Game concorre às seguintes categorias no Oscar 2015: Melhor Filme; Melhor Diretor; Melhor Ator; Melhor Atriz Coadjuvante; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Edição; Melhor Design de Produção; Melhor Trilha Sonora.