A Teoria de Tudo (2014)

por Gustavo Fontele Dourado

O cientista mais célebre de nossa época, Stephen Hawking, é um ícone por suas ideias e também por sua imagem física – seu corpo sofre de uma doença degenerativa (motor neuron desease), da qual encontra-se um tipo em que sua fisionomia se localiza: a esclerose lateral amiotrófica ou ELA. Segundo o médico que lhe fez o diagnóstico, Hawking, no início dos seus 20 anos, tinha apenas mais 2 anos de vida e sua vida restante se direcionava para a ausência de comunicação. Stephen perdeu quase todos os movimentos do corpo e a sua voz, porém o seu cérebro ficou intacto e nos comunicou, com o suporte de um computador falante preso a uma cadeira, cativantes ideias sobre o universo e o espaço-tempo. Mas, o elemento principal da sobrevida de Stephen foi sua esposa Jane Wilde que é a outra figura principal do filme.

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À esquerda os originais Stephen Hawking e Jane Wilde. À direita Eddie Redmayne interpreta Hawking e Felicity Jones como Jane Wilde. Ela fez PhD na área de artes com especialização em literatura hispânica e francesa medieval.

Acompanhamos a trajetória do cientista e de sua esposa desde a juventude, a partir de 1963, até meados dos anos 1990 de forma cronológica com eventos famosos e marcantes. Entre eles a resolução de 9 entre 10 questões desafiadoras sobre cosmologia em seu PhD na Universidade de Cambridge, o lançamento de sua obra mais famosa com o objetivo de popularização da ciência – Uma Breve História do Tempo (1988), o caso amoroso de Jane Wilde com Jonathan Jones, um músico de igreja. No meio disso tudo, o que ganha maior destaque é a transformação de Stephen com o apoio e amor de Jane, a separação de ambos e a perpetuação de sua amizade. Um mérito do filme é não ser apenas uma cinebiografia de Stephen, ele é também sobre Jane e faz isso bem.

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Hawking trabalhando com as equações da teoria da relatividade geral, de Albert Einstein na Universidade de Cambridge.

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Felicity Jones, como Jane Wilde, ajuda Stephen a se comunicar antes de conseguir o computador falante. A dificuldade crescente de comunicação causou a derrocada de seu casamento.

James Marsh, diretor de um excelente documentário sobre Philippe Petit, uma das obras-primas da década passada – O Equilibrista (2008) – constrói a narrativa sem desprezar Jane Wilde, apesar da grande estrutura biográfica do filme ser a de Stephen e com mais menção dos trechos de sua vida do que a de Jane, da qual Hawking lhe deve praticamente a vida. A mulher não é apenas uma personagem coadjuvante à sombra de um gênio e ela transmite vigor para esta cinebiografia que seguiu muitas fórmulas comuns de outras obras dentro deste gênero, mas que ganha exatamente distinção pela sensibilidade de seu elenco e reconstituição de eventos que intensificam o drama e que não torna a descrição histórica como anêmica e impessoal.

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James Marsh dirige Eddie Redmayne e Felicity Jones.

Todos os elementos técnicos cumprem muito bem o seu papel sem correr muitos riscos. Talvez a maior notoriedade dentre os aspectos técnicos seja o figurino muito bem trabalhado e que ainda sim manteve uma simplicidade e as das belas locações que já estavam na vida de Stephen e de Jane. E, claro, os enquadramentos escolhidos por James Marsh para aumentar o impacto do seu elenco incrível de calorosa receptividade para os espectadores e a química entre seus personagens. Destaca-se entre os coadjuvantes David Thewlis como o professor Sciama, a breve aparição especial de Emily Watson como a mãe de Jane e os engraçadíssimos momentos com Maxine Peake como Elaine Mason, a segunda esposa de Stephen e que depois se divorciaram.

A direção foi muito feliz com seu elenco e na direção dos atores, todavia ela fica confortável no uso de seus outros elementos que são bem usados sem trazer uma inventividade maior que não necessariamente é obrigatória para se ter uma obra de mestre. Mas, o filme tem cenas a serem destacadas por saírem da zona confortável como a de Stephen na ópera, ele nos hospitais, em algumas cenas na universidade, a de Stephen subindo as escadas e momentos de Jane e de Stephen na intimidade da casa. 

Como pontos negativos há em passagens na segunda metade do filme um potencial para explorar a relação de Stephen com o cosmos que nem os momentos da primeira metade do filme, exemplo é o seu PhD na Universidade de Cambridge. O que é focado na segunda metade é a adaptação de uma pessoa à sua deficiência e às suas adversidades derivadas. Pelo menos não caiu no lugar comum de só mais um filme de superação da deficiência, há outros arcos dramáticos interessantes como os da traição, relacionamentos, envelhecimento, descobertas e religiosidade.

Em partes muito importantes como a separação de Stephen e de Jane, a tensão fica superficial e até infantil – mesmo que o momento seja comovente graças ao elenco. Faltou um pouco mais de coragem para abordar o lado sombrio de Hawking e Jane, especialmente dela. Foram ressaltadas muitas qualidades boas do relacionamento que é em sua grande parte desafiador e de coragem admirável, já a degradação com o passar dos anos poderia ser melhor problematizada do que apenas um mero afastamento de Jane ou uma condescendência de Stephen para que ela viva com quem queira. Depois de tudo, eles ainda continuam grandes amigos e nessa última parte teve uma boa descrição. Se fosse colocado as coisas citadas acima, a história de amor não seria corroída e não seria diminuída. Certamente traria mais complexidade ao relacionamento de ambos.

O filme ainda assim é sensível e delicado e tem sua força sem ter uma subjetividade mais arrojada como em O Escafandro e a Borboleta (2007) quando retrata um deficiente. Os sentimentos do filme são poderosos, mesmo que em raras situações do roteiro como a já citada separação do casal não esteja à altura da emoção que o filme consegue transmitir muito bem.

O roteiro poderia ter explorado mais elementos do grande personagem com a cosmologia e sua tentativa em encontrar uma teoria de tudo, a grande teoria unificada das 4 grandes forças fundamentais (gravitacional, nuclear forte, nuclear fraca e eletromagnética) ou a síntese de todo o espaço-tempo em uma única equação. Se fosse colocada algumas doses disso na montagem do filme com o grande todo de uma das melhores histórias de amor do cinema contemporâneo, a história ganharia um pouco mais em profundidade. Entretanto, como o que já é descrito é comovente e verdadeiro, a obra já alcança o status de boa – mas Stephen não é apenas a história da superação da deficiência e de ter esperança, é certamente uma narrativa sobre a batalha da curiosidade humana.

Para os fãs de astronomia e cosmologia, o filme deixa a desejar com certas ideias de Stephen. Já o primoroso documentário Uma Breve História do Tempo (1991), de Errol Morris consegue transmitir melhor as ideias de Stephen e certas passagens de sua vida que não são mencionadas na Teoria de Tudo (2014).

James Marsh não quis passar mais informações sobre a cosmologia, pois poderia cair no didatismo chato ou na obscuridade mal resolvida. Há sempre o destaque a respeito do buraco negro e do início do universo, mas certas coisas só são mencionadas levemente ou diluídas como a unificação da teoria da relatividade geral com a mecânica quântica. Talvez um pouco mais de ousadia enriqueceria essa leve carência de trechos da segunda metade do filme com as aspirações da personagem principal. Optou-se pela acessibilidade das informações e pela preservação da montagem eficaz e dinâmica que foi alcançada.

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Stephen em um momento de perdição no início da doença, Jane tenta ajudá-lo a aproveitar a vida e a ter coragem com um jogo na universidade.

Já em uma das cenas na segunda metade demonstra essa ideia de Stephen com o cosmos, quando ele se imagina livre da doença para pegar uma caneta que caiu da mesa de uma moça no meio da palestra, o tempo para e se dilata – uma das melhores cenas do filme. Logo sem seguida, a resposta de Stephen para uma pergunta sobre um de seus ouvintes na palestra sobre ter uma filosofia de vida, enquanto ateu, não cai em um lugar comum, maçante e moralista.

A trilha sonora que é uma das melhores do ano, também poderia ter sido melhor aproveitada em alguns momentos em sua mixagem e na edição musical – ao escutar a trilha sem o filme, encontramos muitos timbres e melodias ricas que evocam a fragilidade da vida e um sentimento de fantasia, o que justifica um favoritismo ao lado de O Grande Hotel Budapeste (2014) para levar a estatueta de melhor trilha sonora original.

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Momento de férias em família. Era muito difícil para Jane cuidar da família praticamente sozinha e ela recorreu à ajuda de Jonathan e acabaram se apaixonando.

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Algumas cenas foram gravadas em super 16mm para dar um aspecto de passado e de lúdico, grandes momentos de alegria.

Já a maquiagem usada nos demais personagens está muito bem executada, talvez com uma discrepância em Felicity Jones em que não vemos tantos sinais de envelhecimento em seu rosto nos minutos mais avançados do filme, certamente percebemos a transformação em seus penteados e figurinos. O rosto de Felicity é jovial e o uso da maquiagem um pouco mais variado indicaria mais sinais de envelhecimento, pois ele fica muito sutil na obra. Mesmo que a ideia é que ela não é uma pessoa que envelhece tanto e sempre se mantém com a fisionomia jovem, a sua personagem, Jane, poderia ter a fisionomia um pouco mais velha em sua idade no final dos 40 sem empregar o exagero.

Como o grande ponto positivo, Felicity Jones e Eddie Redmayne são o grande trunfo de A Teoria de Tudo (2014), Felicity conseguiu uma interpretação muito carismática e madura para sua idade, 31 anos, sua presença não deixa nada a desejar ao lado do que é o filme em seu melhor: o trabalho de Eddie Redmayne nos traz um ator com completo domínio de sua técnica e que venceu o desafio de fazer um papel que pode ser ou excepcionalmente ruim como se fosse uma mera imitação da pessoa original ou algo surpreendentemente verídico e único. Eddie é praticamente o próprio Stephen em seu bom humor, em sua sobriedade e no seu jeito excêntrico sem excessos como os da atuação exagerada de Jesse Eisenberg na Rede Social (2010), apesar da boa interpretação dele no filme de Fincher. A tarefa não foi fácil para Eddie e certamente traz um toque especial a esta cinebiografia e talvez seja o papel de sua vida tal qual o de Jamie Foxx em Ray (2004), cinebiografia sobre Ray Charles. Eddie está no mesmo nível de Emannuelle Riva em Amour (2012) por conseguir uma atuação cheia de expressividade com um corpo deficiente.

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Eddie Redmayne à esquerda com o original Stephen Hawking atualmente. Ambos em set de filmagem.

Eddie nos mostra um gênio até descompromissado e distraído, ele trabalha em um ritmo bem pontual na sua tese e parece que não precisa se esforçar tanto para trabalhar com cosmologia que nem os seus colegas de curso. A outra genialidade de Stephen é vencer uma doença e lutar contra o tempo para fazer o que quer. Em pouco tempo é reconhecido mundialmente e vive até hoje. E nenhuma das suas facetas de genialidade deixam a desejar em relação às suas outras muitas qualidades.

O gênio não é sobre-humano no filme e sim muito frágil e é como alguém que consegue se adaptar muito bem ao tempo do corpo e ao tempo da mente. E o filme não faz tanta questão de dizer: “ah, ele é o gênio!”, mas ele é alguém que conseguiu fazer suas atividades que desejava até certo ponto diante da ameaça de morte constante, o que é de se destacar. O filme tem muitos momentos de alívio cômico que combinam totalmente com o jeito humorístico de Hawking como o da leitura de uma Penthouse, o de Stephen nos braços de uma estátua e a da receptividade do sotaque americano entre sua família britânica.

Mesmo com o distanciamento gradual de Jane do cotidiano de Stephen, o filme continua a destacar a história entre os dois. A grande história de amor foi a de Jane e a de Stephen (e não a de Elaine e Stephen ou a de Jane e Jonathan) e no prólogo ocorre a defesa de que se deve valorizar o passado e o que foi construído de bom. O filme é o universo em expansão e que também teve um início e terá de ter um fim, voltamos no tempo como um big crunch (grande colapso) e o filme (universo) volta à sua origem onde tudo estava concentrado: Jane e Stephen, a singularidade da qual tudo teve origem e onde tudo acaba.

A história de ambos certamente é a maior característica de genialidade, Jane fez um gênio sobreviver com amor e isso foi um grande desafio. Ela enxergou um amor em Stephen, enquanto muitos só viam um problema ou o reduziam ao estereótipo desnecessariamente. Mesmo com a omissão de detalhes importantes do relacionamento, essa história de amor tem os seus méritos e é admirável apesar de um pouco romantizada mais do que já é dentro da segunda metade do filme, mas o filme não entra no terreno exagerado do amor idealizado.

História semelhante aconteceu com um dos grandes matemáticos do século XX, Kurt Gödel. Uma mulher o reconfortou com o desejo de viver, pois Gödel com seu teorema da incompletude o fazia enxergar cada vez mais um mundo perturbador e de incerteza, nem tudo poderia ser completado na matemática que é a ciência da razão por natureza – e o mundo ficou menos determinista e mais caótico com a interpretação do teorema. Um relacionamento o ajudou a sobreviver e a evitar o suicídio.

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Jane e Stephen unidos pelas leis da física e por seu sentimento.

Na premiação do Oscar 2015, o filme compete com grandes chances pelo prêmio de melhor ator ao lado de Michael Keaton em Birdman (2014) e também pode levar também o de melhor trilha sonora, entretanto a inventividade de Alexandre Desplat pode se sobrevaler em Grande Hotel Budapeste (2014). E na categoria de melhor roteiro adaptado tem alguma chance, mas terá que surpreender e vencer outros candidatos fortes como Whiplash (2014).

Melhor que a cinebiografia que venceu o Oscar 2011, o Discurso do Rei (2010), A Teoria de Tudo (2014) é um filme que comove e sensibiliza, não é um filme perfeito, mas que se pode apaixonar por ele. E se essa conquista não acontecer, a qualidade mais do que decente da obra e a história fascinante de Hawking e Jane proporciona uma apreciação entre boa e muito boa por sua sensibilidade, pela competência técnica, excelente elenco e uma boa síntese entre uma história de amor e estrutura biográfica.

Merece o seu reconhecimento e a indicação para o Oscar de melhor filme. Recomendado.

A Teoria de Tudo (2014) concorre às seguintes categorias no Oscar 2015: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora Original.

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