Leviathan (2014)

por Thiago Campelo

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Em maio de 2014, o diretor e ator russo Andrey Zvyagintsev lançou no festival de Cannes seu quarto longa-metragem que teve considerável repercussão e atiçou críticos que chegaram a considerá-lo forte candidato à Palma de Ouro. Na ocasião, ganhou Winter Sleep (2014), do diretor turco Nuri Bilge Ceylan e Zvyaginstsev – juntamente com Oleg Negin – recebeu o prêmio de argumento por Leviathan. Agora, já em 2015, o filme gera a mesma expectativa de maio passado, na contenda pela estatueta do Oscar numa das categorias mais disputadas: Melhor Filme Estrangeiro.

Em uma pequena cidade à beira do mar no norte da Rússia, Kolya (Alexeï Serebriakov), com a ajuda de seu amigo e advogado de Moscou, Dmitry (Vladimir Vdovichenkov), sustenta um embate contra o prefeito Vadim (Roman Madyanov) que insiste na desapropriação de sua acanhada propriedade.

“Esperar vencê-lo é ilusão; apenas vê-lo já é assustador” (Jó 41:9). Esse capítulo do livro de Jó nos dá uma completa descrição do monstro que rege os oceanos e as profundezas, que domina a todos e jamais pode ser controlado. A semelhança entre Kolya e Jó não é gratuita, assim como a criatura que o domina é a mesma de Hobbes. Da mesma forma que o personagem bíblico, o de Zvyaginstsev, não tem trégua em seu sofrimento. Padece nas mãos do prefeito, da justiça, do amigo e da esposa, tendo com único respiro a garrafa de vodka e o maço de cigarros. Nessa versão contemporânea da história bíblica, no que tangencia a vida do protagonista, o opressor não é mais o diabo; é o Leviatã de Hobbes, numa mistura com o a própria religião, que sufoca a vida de Kolya. Assim como o monstro criado por deus, o Estado e a religião não podem ser vencidos.

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Leviathan é uma grande alegoria sobre o peso e o poder de duas das maiores instituições sociais sobre o homem comum. Há quem ressalte a crítica específica ao Estado russo e a herança da União Soviética como ponto mais importante da película. Porém, o que mais tem força é o recorte minucioso do drama de Kolya, sua esposa Lilya (Elena Lyadova) e seu filho adolescente Roman (Serguey Pokhodaev) frente a essa força. É bem verdade que a figura de Putin – bem como a dos presidentes anteriores, menos a do líder ébrio e dançante, Yeltsin – assume quase uma aura de onipresença e artificialidade que a personificação estatal através da fotografia pendurada na parede dos órgãos públicos transparece, mas isso se dá em qualquer país e desde muito tempo.

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No entanto, a história que, em primeiro momento, apresenta ares de grandiosidade e megalomania – mais pelas referências paralelas do que pelo seu eixo narrativo – se dá na minucia do núcleo familiar e das relações interpessoais. Kolya sofre em duas esferas que se tocam com pontual frequência. Sofre por obvia pressão do Estado e da Igreja Ortodoxa, bem como sofre com o confronto direto com o prefeito da cidade e também por causa da esposa e do advogado… Não há salvação para ninguém. Leviathan é o retrato da decadência da humanidade e da sociedade.

O filme estabelece a construção de seu panorama sobre as imagens de ruinas de antigos barcos, navios, igrejas e esqueletos de baleias. São símbolos claros que denotam a noção de decadência e memória que perpassa toda a narrativa.

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Essa relação fica ainda mais evidente na interação dos personagens com esses espaços e na escolha dos enquadramentos. São nos planos abertos, que apequenam a figura humana, nas locações externas, que se observa a força das instituições sobre o homem e nos ambientes internos e enquadramentos mais fechados, os dramas mais pessoais.

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Leviathan é, sem dúvidas, um fortíssimo candidato ao prêmio de melhor filme estrangeiro do Oscar 2015. Não só pela surpresa que causou no último dia do festival de Cannes ou pela vitória conquistada no Globo de Ouro sobre Ida, do polonês Pawel Pawlikowski, mas sim pela mão de Zvyagintsev em conduzir sobriamente uma narrativa simbólica sobre a derrocada da humanidade.