Relatos Selvagens (2014)

por Não são as imagens

Como num livro de contos onde narrativas curtas com pequenos twists de inversões completas na direção dos personagens, Relatos Selvagens nos traz histórias tragicômicas não-relacionadas cheias de personagens peculiares. O gênero é tragicomédia, que é uma comédia que nos faz rir pela hipérbole negativa, ou seja, nos apresenta personagens que pecam pelo excesso de ingenuidade, cretinice, fanatismo político, pena, loucura e assim por diante. Por ter basicamente uma estrutura de conto as histórias se iniciam muito próximas do clímax, no clímax ou pós-clímax e assim se mantém uma tensão constante pelo filme inteiro.

Erica Rivas como a noiva insana da crônica "Hasta que la muerte nos separe".

Erica Rivas como a noiva insana da crônica “Hasta que la muerte nos separe”.

As situações por mais violentas e tristes que poderiam ser estão desvinculadas do mundo real pela constante presença da sátira nos diálogos, cenas e atuações. O riso sempre é fácil e mais ainda porque o filme consegue se manter imprevisível, outras vezes nos guiando para prever o que vai acontecer, nos premiando e rimos, ou nos engana, e rimos. A estrutura lembra bastante “Amores Brutos” (2000) e “Babel” (2006) porém existe a diferença que os personagens não estão conectados em nenhum aspecto. A construção de Relatos, ao contrário das outras duas, é mais leve de absorver justamente por se tratar de uma comédia, enquanto Amores Brutos e Babel são pesadíssimos, o filme sangra e morre na sua frente. Relatos sangra mas é uma ferida superficial, e no fim a pessoa morre para a supresa e riso de todos.

Crônica "La propuesta".

Crônica “La propuesta”.

Os roteiros seguem uma linha simples e objetiva, personagens caricatos encontram outros personagens caricatos cuja característica tem algo de oposto aos primeiros personagens. Um desses personagens tem o trunfo da morte, pode matar, causar dano, e as situações leva todos ao limite. Surge em todas as histórias um conselheiro, um personagem racional, provavelmente dentro da construção dos clowns, palhaço branco e palhaço vermelho, ou palhaço augusto. Um personagem assume o arquétipo do palhaço branco, a pessoa séria, medida, bem comportada e o segundo assume o arquétipo do palhaço vermelho, o louco, bagunçeiro, brincalhão, ingênuo e que só se mete em confusão. A clássica escadinha da comédia. A tragicomédia se estrutura no momento em que a situação onde esses arquétipos se inserem é uma situação trágica, relacionada à morte, violência, coisas negativas e estas ganham uma nova cor dentro dessa construção.

Crônica "El más fuerte".

Crônica “El más fuerte”.

O que faz tudo ser tão natural é o fato que tudo que leva os personagens para considerar a violência ou a morte são motivações plausíveis, coisas terríveis, traumáticas, reais de fato, mas que não tem uma gota de nada disso no contexto do filme. Ainda bem. Os diálogos são um show à parte, uma perfeição de boa comédia. Deveria ter Oscar de Melhor Diálogo, sinceramente. A fotografia e direção de arte já seguem o caminho do realismo e de enfocar a questão trágica, mas sempre é desconstruída pela banalidade e enfatização do ridículo dos diálogos. Por mais séria que seja a imagem, a composição, a decupagem que nos traz de informação em informação e nos faz concluir que a morte é inevitável, tudo cai quando os diálogos e atuações jogam piche e depois penas de galinha em cima de tudo.

Ricardo Darín é Simon "Bombita" na crônica "Bombita".

Ricardo Darín é Simon “Bombita” na crônica “Bombita”.

A morte, a desilusão amorosa, a desilusão com a sociedade, a contemplação do suicídio, tudo é distanciado de seu significado real pelos próprios personagens que não levam nada daquilo a sério quando aumentam alguma outra característica mais alto que todas as coisas negativas. O tal do “rir pra não chorar”. O filme traz um grande elenco, entre muitos o grande Ricardo Darín, e uma reflexão positiva a respeito de como o pior dia das nossas vidas pode, dependendo do ponto de vista, não ser tão ruim assim.

Crônica "Las ratas".

Crônica “Las ratas”.

O filme foi indicado para as seguintes categorias no Oscar 2015: Melhor Filme Estrangeiro.

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Lucas Simões – 27 anos, formado em Cinema e Mídias pelo IESB, quase formado em engenharia, quase judoca, quase nadador e quase melhor namorado do mundo de várias garotas. Atualmente trabalha com cinema na função de roteirista e script doctor, exercendo ocasionalmente a alcunha de continuísta em curtas-metragem da região. Sua atividade foi de setembro de 2014 a março de 2015.