Ida (2013)

por Daniel Lukan

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O representante polonês ao Oscar de Filme Estrangeiro, um dos filmes mais cotados na categoria (junto com Leviatã, 2013), Ida, traz a tona a Polônia dos anos 60; entre as cicatrizes e as sequelas da ocupação nazista (1939 – 1945) e marcas do comunismo instaurado em 1947 e decadente a partir de 1956, a narrativa se desenvolve sem se ater de modo exagerado a essas aberturas histórico-políticas, que, por sinal, são muito bem trabalhadas, de forma contextual, como pano de fundo. O filme não estabelece um discurso escancarado ou explicativo sobre esses temas tão mordazes à sociedade polonesa, entretanto, coloca pontualmente os resultados de sua disseminação e como se fez melancólica e difícil sua superação.

Anna é uma órfã criada por freiras. A madre superiora revela a existência de uma familiar viva e a obriga a conhecê-la antes que ela (Anna) faça a celebração de seus votos e se torne freira. Ao conhecer sua tia Wanda Gruz (interpretada por Agata Kulesza), Anna descobre que seu verdadeiro nome é Ida Lebenstein e que ela é, na verdade, de origem judia. A partir desse princípio, Wanda Gruz acompanha Ida numa viagem para buscar informações sobre seus pais. É interessante como uma simples procura por informações, que começa com a visita à antiga casa da família Lebenstein, vai se desdobrando em curiosidades e busca por informações e detalhes cada vez mais profundos. Para Ida se trata de uma jornada de autoconhecimento, para Wanda quase que uma espécie de exorcismo.

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Fora a tragédia familiar que afeta particularmente as duas personagens principais; a medida que mais fatos são revelados, o terror que assombrou a sociedade polonesa também surge em cena, como pano de fundo. Os detalhes sobre ‘massacre’ que matou os pais de Ida e o filho de Wanda são, de fato, extremamente íntimos e pessoais para pensarmos no filme em relação à amplitude que a segunda guerra teve na Polônia; mas é justamente a intimidade construída que torna mais humano, real e pesado o fato de um quinto da população polonesa ter sido morta durante a ocupação (sendo 3 milhões de judeus). Não se trata mais de estatísticas de mortes, mas de um exorbitante número de tragédias.

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Ida, enquanto Anna, vivia em paz dentro do convento. No entanto, a pacata vida como noviça era tudo que ela conhecia. Anna é um personagem em paz, pois, está vazia de vida e de existência. Ao descobrir-se como Ida, ela ganha uma vida. A ela pertence um passado desconhecido (e trágico) e um presente ao qual foi privada. Wanda, que representa, em todos os sentidos, o oposto da pureza que Ida transparece, faz o auxílio nessa busca pelo passado desconhecido e, ao mesmo tempo, apresenta todas as “tentações” que figurariam no presente.

Nessa jornada de autoconhecimento, depois de reconstruir seu passado, Ida começa a cevar seu presente. Nesse aspecto, enquanto alguns tendem a ver a decisão pelo retardamento de seus votos e a abertura que Ida faz aos pecados mundanos e carnais como um questionamento (ou uma dúvida) sobre suas convicções religiosas; parece-me muito mais natural observar o quão decidida Ida está nesse momento do filme. Não há receios. Não há culpa. Em uma parte da viagem, Wanda pergunta se Ida possui pensamentos pecaminosos e desejos carnais, ao ouvir “não” como resposta ela questiona sarcasticamente “Se é assim, que droga de votos são esses que vocês fazem?”. Ou seja, se Ida não possui desejos sexuais, de que vale ela jurar castidade? Ela não estaria renunciando a coisa alguma. A madre superiora reforça que Anna precisa conhecer seu passado antes de fazer seus votos; ao conhecer seu passado, Ida percebe que os votos de pobreza, castidade e obediência só possuem validade uma vez que se tratem de sacrifícios. O juramento que ela faria como Anna, um ser vazio e sem vida, não teria poder algum, ela não estaria renunciando a nada; daí parte seu impulso por embriagar-se, fumar, sair à noite usando “roupas vulgares” e até mesmo perder sua virgindade. Ela renuncia sua identidade como Anna e recupera sua vida como Ida, antes de decidir que está preparada para jurar seus votos.

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É interessante observar a atriz Agata Trzebuchowska como Ida Lebenstein, sua acanhada (e limitada) interpretação, de quem atua pela primeira vez em um filme e de quem sequer planejava ser atriz até então, ao invés de transparecer como uma deficiência – em meio a todo perfeccionismo técnico do filme e a excelente atuação de Agata Kulesza, com mais de 20 anos carreira –, muito contrariamente, sobressai-se como uma belíssima atuação que esculpe de forma extremamente competente a opacidade, inexpressividade e falta de vida da personagem Ida. Além disso, possui os traços da singular beleza eslava, os cabelos ruivos e a expressão de inocência, timidez e jovialidade que transparecem uma combinação de forte ingenuidade e leve sensualidade; atributos que mostram como sua vida como santa não são capazes de anular sua humanidade e consequente imperfeição.

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Se narrativamente o filme constrói ótimos personagens e sistematicamente desenvolve uma abordagem histórico-política, é notável perceber como isso se revela visualmente no filme. O trabalho de fotografia apresenta a nitidez e a brancura de algumas pinturas holandesas, a composição em preto e branco que além desse realce fotograficamente belo das paisagens do território polonês alia-se ao já ultrapassado uso do formato de tela (4:3) para expor uma Polônia parada no tempo. Desse modo, a contextualização histórica, o P&B, formato de tela e a câmera estática junta a um trabalho mínimo de edição são capazes de nos fazer esquecer a atualidade e o quão recente o filme é. Como se de fato, não só a história se passasse em 1962, mas que o filme não tivesse sido feito em um tempo tão distante dali.

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Ida é um filme que é grande em sua simplicidade. Seja na construção de seus personagens, em suas histórias, na postura tomada e nos discursos abordados. Assim como em sua composição visual que, sem maiores presunções, consegue ser perfeita (com o perdão do exagero) e bastante eficiente. O diretor Paweł Pawlikowski (que assina o roteiro junto a Rebecca Lenkiewicz) consegue equilibrar o filme em todos seus aspectos, o filme aborda vários temas e fatos que poderiam ser tratados de forma incômoda e polêmica, mas, ao contrário disso, o filme do diretor polonês exprime uma serenidade que trás de volta vários aspectos do cinema artístico europeu (que já está há algum tempo afetado pelos ambições comerciais) e dentre vários nomes que poderiam ser lembrados, a beleza de Ida sem dúvidas traz à cabeça diversos particularidades de diretores como Tarkovsky, Antonioni e Truffaut.

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O filme concorre na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2015.