Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância) (2014)

por Thiago Campelo

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Um homem atormentado por seu passado enfrenta, no seu presente, uma crise existencial e moral, lutando, a sua maneira, contra as cargas interna e externas que constituem a sua angustia. Alejandro Gonzáles Iñárritu, desde seu primeiro longa-metragem, sempre se movimentou no espaço onde os dramas ganham corpo. Birdman (2014), apesar de sua capacidade de provocar o riso, assim como Biutiful (2010) e também como Amores brutos (2000) – sobretudo no segmento de El Chivo, interpretado por Emilio Echevarría – apresentam o mesmo ponto gravitacional: a busca pela redenção de seus personagens.

Em Birdman, o drama ornamentado enquanto comédia é de Riggan Thomson (Michael Keaton), astro de Hollywood que conquistou fama após interpretar o super-herói que dá título ao filme de Iñárritu. Décadas depois do abandono da franquia do “homem-pássaro” e de amargar o estereótipo de ator de um único projeto (de qualidade duvidosa, segundo Iñárritu), Riggan se vê na busca pelo reconhecimento profissional, investindo todo o possível na atuação e direção de uma adaptação feita por ele mesmo para o teatro do livro de contos de Raymond Carver What we talk about when we talk about love, de 1981. No entanto, são inúmeros os obstáculos que se elevam contra Riggan, como a entrada do problemático Mike Shiner (Edward Norton) na peça, sua filha, Sam (Emma Stone), recém-saída de uma clínica de recuperação de dependentes químicos, a crítica de teatro mais importante de Nova York, Thabita (Lindsay Duncan), que ameaça por fim à sua empreitada de reconquista do prestígio e o seu próprio ego, manifestado na voz do Birdman que povoa sua mente.

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Há de se notar que tanto Michael Keaton, quanto Edward Norton e mesmo Emma Stone, já estiveram em produções de Hollywood sobre super-heróis (Batman, Hulk e Homem-Aranha, respectivamente). É mais do que óbvio que não foi atoa a escolha desse elenco – sobretudo o ator principal – e, por mais que as semelhanças entre a história de Riggan e Keaton possam criar uma espécie de simples reprodução da vida do ator, Birdman traz à superfície a crítica sobre o que pode ser considerado um grande problema de Hollywood atualmente, a exploração incessante das histórias de super-heróis e a repercussão delas na vida profissional e sentimental das pessoas que estão inseridas na indústria cinematográfica estadunidense. Ainda de acordo com o que define, até agora, a carreira de Iñárritu – a visão que ele possui sobre o mundo enquanto local de quase exclusiva opressão sobre os indivíduos, e não necessariamente por forças inexplicáveis – é que Riggan trava sua batalha individual em busca da aceitação da crítica, da retomada de seu local de conforto, do afago constante ao seu próprio ego.

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Birdman, no entanto, e para satisfação de todos, não trata seus personagens de forma maniqueísta. Apesar de uma parte considerável do filme se ater à relação difícil entre Riggan Thomson e Mike Shiner, ambos apresentam suas cargas positivas e negativas bem balanceadas. Tanto Riggan quanto Mike possuem suas facetas de sensibilidade e fragilidade e também suas doses de egoísmo e arrogância – um pouco mais carregado no personagem interpretado por Norton.

Dentro dessa perspectiva é que se observa a atuação de todo elenco sob um controle e constância invejável. Keaton, Norton, Stone e Naomi Watts conseguem manter a vigor nos momentos de atuação mais empolgantes e também a sutileza nas partes de maior vulnerabilidade de seus personagens. É preciso destacar que o filme inteiro é composto por longos planos-sequência, o que exige uma constância e concentração absurda dos atores e atrizes à medida que cada tomada é feita.

Desde seu último filme, Biutiful, que Iñárritu, ao romper a parceria de roteiros com Guillermo Arriaga, abandonou a narrativa multiplot e se debruçou linearmente sobre um único protagonista. Aqui, em Birdman, Iñárritu e Emmanuel Lubezki (vencedor do Oscar 2014 de Melhor Fotografia por Gravidade) tratam de se aprofundar na história de Thomson, num filme que emula a própria dinâmica das apresentações teatrais, visto que se dá num aparente único plano-sequência.

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É bem evidente, nas discussões das personagens, uma série de críticas feitas ao cinema tendo como ponto de vista a posição do teatro. O que é mostrado, no que tangencia os diálogos, como comentários negativos sobre o fato de Riggan não ser considerado um ator, mas sim uma celebridade construída pela indústria cinematográfica é também evidente na adoção do plano-sequência. Uma resposta de Iñárritu ao que seus personagens dizem. Se a montagem característica e os efeitos especiais do cinema destroem a verdadeira arte da atuação e são responsáveis pela construção de sentido e profundidade dos filmes e o teatro é o domínio dos verdadeiros artistas, a direção do mexicano coloca a arte cinematográfica em pé de igualdade com o teatro.

Para além disso, o filme mostra, de maneira singular, uma ruptura com a linearidade que a seria o mais característico de um filme todo feito de modo que pareça um único plano-sequência. Riggan, surtando, enquanto ouve o personagem que interpretou no passado e, enquanto vemos o super-herói que o perturba, voa pela cidade de Nova York. São momentos como esse que nos dá espaço para elipses que tornam a narrativa do filme mais profunda.

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Outro ponto de destaque é a ambiguidade adotada na abordagem sobre a importância da crítica. Através de Thomson e Shiner surge a importância de agradar Thabita, a crítica de teatro do NY Times, capaz de afundar de vez a carreira de Riggan. No entanto, é através de Sam e na sequencia em que Keaton fica preso do lado de fora do teatro, que se mostra a oposição ao ponto de vista dos dois atores de What we talk about when we talk about love. A aceitação e o prestígio procurado à exaustão por Riggan são dados pelo público, apesar de só a crítica ser o suficiente para que a condição de artista seja alcançada.

Apesar de Amores Brutos ainda ser a grande obra de Alejandro Gonzáles Iñárritu, Birdman é, tecnicamente e narrativamente um filme de grande qualidade, sem deixar de mencionar todo o talento do elenco. Iñárritu não se aventura em outros mares, mas navega por ele de maneira diferente de todas as outras vezes e com maestria.