Boyhood (2014)

por Gustavo Fontele Dourado

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As oito fases de Mason (Ellar) no filme.

Mason (Ellar Coltrane), personagem e ator, vivem dos 5 aos 18 anos neste épico sobre o cotidiano contemporâneo dos anos 2000 aos 2010. Tudo dentro do universo de uma família de classe média do Texas. Apesar da grande simplicidade de sua história e da obra, mundos podem ser identificados e mostrados de acordo com as pessoas que ficam e passam na vida de Mason – o que não é pouca coisa.

Boyhood serve como um filme-espelho tanto das gerações dos anos 90 e 2000, quanto da crítica cinematográfica na forma como os filmes são pensados e recebidos. Produzi-lo em 12 anos atraiu bastante atenção ao redor do mundo como um dispositivo mágico, como uma cápsula do tempo que acompanhou o mundo tal como ele é dentro do recorte do filme.

Mesmo que tenha esse dispositivo único e bastante interessante, o filme por si só tem características que não são pobres e que trazem elementos particulares a ele. Sem essa atração dos 12 anos de produção, a obra seria igualmente lembrada por sua delicadeza e olhar singelo sobre a infância, envelhecimento e cotidiano familiar (um exemplo é a cena tocante em que Mason recebe presentes de aniversário de sua família e a despedida da casa de sua mãe quando mais velho). No meio destes exemplos, certamente o mais impactante é perceber a transformação de Mason ao longo do tempo e a de Ellar como ator.

Já o filme com a grande atração, o seu dispositivo encantador de 12 anos, traz sua qualidade de edição desafiadora (reunir um pouco mais de uma década em um filme de quase 3 horas sem perder o ritmo) e o modo preciso e, ainda subjetivo, de como Richard Linklater apresenta uma geração que está presa às escolhas que ainda precisam ser tomadas sobre o mundo e com as outras pessoas. O que iremos fazer? Somos especiais?

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Mason com um gameboy color.

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Mason usa um Mac antigo.

As últimas duas gerações, a partir dos anos 1990, têm muita coisa ao seu alcance: uma enciclopédia sem limites aparentes (internet), comunicação quase instantânea ao redor do mundo e cada vez mais registros para olhar para o passado. Este filme representa uma posição privilegiada para estas gerações: é possível olhar para o nosso passado recente enquanto ainda somos jovens e refletir sobre nossa infância e juventude numa compilação de quase 10 partes mescladas pela montagem (as fases de Mason ano a ano) sem ter divisórias mecânicas. Esta reflexão não se restringe apenas à geração mais recente – pais e mães ou pessoas mais velhas podem também vivenciar uma volta no tempo de forma encantadora. O envelhecimento e a transformação está em todos. Um instrumento de reflexão muito poderoso e ainda com um mérito maior – sem intelectualizar tudo. Quase não há anacronismos e uma visão já induzida sobre o passado. Talvez seja melhor refletir sobre nossa a infância e a juventude sem tornar tudo em um grande mapa intelectual com conceitos bem argumentados.

Já no campo da crítica cinematográfica, Boyhood é uma zona tentadora para que sejam criados mais e mais conceitos sobre a obra e para elevar a avaliação do filme apenas por ser filmado em 12 anos. O drama do filme em si pode ser obscurecido pela preguiça da crítica em classificar o filme sobretudo pelo conceito e pelo dispositivo e não como ele se apresenta para além disso. Boyhood não pode ser separado da sua condição de produção e dos seus elementos materiais como os da família que o elenco compôs e situações divertidas que podem parecer maçantes para quem não embarcou no filme.

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Ethan Hawke, ao centro, vive o pai e brinca com seu filho e filha.

E, justamente através da recepção dos espectadores se pode considerar o filme de Linklater de três maneiras. Ou você embarca no filme e pode achá-lo sensacional ou uma grande chatice. E a outra opção não é embarcar no filme e em sua personagem e considerar o filme sem temperos apropriados nos ingredientes e avaliá-lo como morno – um filme normal. Boyhood sofre uma ambivalência de recepções, uma condição sempre dúbia em relação àquilo que os espectadores desejam ver e àquilo que eles não querem experimentar nos filmes ou nas histórias.

Exemplos são: para o tipo de espectador que prefere narrativas com reviravoltas, com personagens épicos e distantes de sua realidade comum – o filme será desprezado. Nosso cotidiano atual ou a geração mais recente seria muito chata e a identificação com nós mesmos dentro do filme passaria por dificuldades, já que somos pessoas maçantes e sem graça. Há também os que se apaixonam pelo filme justamente por se verem em Boyhood, por ter uma vida mais ou menos parecida com a de Mason, os objetos que ele teve, os tipos de amores, de anseios e a sua bagagem cultural. Em relação a essa última característica, foi o grande mérito da direção de arte da obra que soube colocar muito bem a seleção de cada ano em que filmaram para que a identificação futura pelos espectadores fosse possível e ainda sim não deixar tudo de forma homogênea: cada pessoa que assistir Boyhood vai perceber mais certos objetos do que outros, pois fizeram mais parte da vida de cada um em particular.

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Patricia Arquette vive a mãe de Mason.

Claramente não há tanta distância temporal e fica mais fácil adivinhar as principais tendências. Linklater optou mais pela cultura mainstream do que pelos elementos mais underground – o que traria mais opções de identificação. Mas, as referências culturais mais conhecidas trouxeram mais segurança àquilo que ainda seria lembrado em 2014 e de que o filme ainda teria a identificação ampla em sua progressão de objetos e de temas ao longo da narrativa.

A maioria das sequências são acompanhadas por diálogos e não há momentos parados ou monótonos. É perigoso falar que o filme não é contemplativo, pois sua apreciação se encontra principalmente em contemplar o crescimento de Mason e a modificação das referências culturais no mundo quase sempre em situações de diálogos e com um ritmo de velocidade moderado.

Boyhood é um ápice dos filmes sobre o conceito de cotidiano, que é um dos temas mais abordados no cinema e na arte – o dia a dia das pessoas e a banalidade de seu tempo. Porém, muitas pessoas possam ter esperado uma obra com linguagem mais exótica e experimental que nem o documentário Rua de Mão Dupla (2004), de Cao Guimarães ou uma abordagem intelectualizada como Detetive (1985), de Jean-Luc Godard. Criou-se um lugar-comum de que o cotidiano deve ser lidado de maneira vanguardista ou totalmente lenta de acordo com escolas artísticas que já o descreveram. Todavia Boyhood faz isso de uma maneira clássica e ao mesmo tempo inovadora para o cinema norte-americano e sem precisar fazer um documentário que também seria um lugar seguro.

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Ellar Coltrane e a filha de Linklater, como a irmã de Mason, Lorelei Linklater. Acompanhamos o crescimento dela também ao longo do filme.

O banal de Linklater tem ritmo bem conduzido sem fazer mais do mesmo: um filme sobre o cotidiano lento e parado. Boyhood nos ensina que há infinitos cotidianos pela transformação de Mason ao longo do filme, mesmo que ele não vá para além disso e se concentre no mundinho daquela família ou no contexto de sua comunidade na maior parte da obra. Mason quer sair de seu mundo, ele questiona o seu momento e só não sabe ainda onde encontrar o que quer. O filme soube acertar nisso, pois é impossível retratar em uma única prática artística todo o cotidiano do mundo e todos os tipos de famílias – aí sim o filme ficaria tendencioso e arrogante. Linklater optou pelo moderado em uma compilação muito bem escolhida com um belo uso da continuidade nos diferentes níveis e não deixando o filme plano. Os filmes sobre os cotidianos atuais podem ser repensados depois de Boyhood e novos caminhos podem ser descobertos.

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Richard Linklater e Ellar Coltrane próximo aos fins das filmagens de Boyhood. Local da última cena.

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Mason e sua futura namorada no fim do filme.

A grande questão é que esta geração quer ter sua voz, seu momento crucial na história. Nós nos consideramos especiais e queremos fazer algo para o mundo ou simplesmente nos resignar nas nossas vidas individuais. Ou mostrar que nossa geração tem seus valores positivos e que não somos apenas pessoas passando em uma decadência cultural, quando comparam nossa geração com as dos anos 20 e 60 do século XX, por exemplo, períodos bastante romantizados no presente. Vemos no filme o retrato de uma geração que é superior e muito mais profundo que o de Frances Ha (2012), somos pessoas que ainda não abandonaram a infância ou a adolescência. Muitas vezes somos chamados de crianças-adultos ou de crianças apegadas. Juntar a infância ou a maturidade talvez seja a reposta para que encontremos com mais facilidade o que queremos. Mesmo que essas questões sejam provocadas, Linklater não toma aparentemente uma posição tão clara. Algo que pode ser certamente tido como evidente é que nossa geração pode ser muito parecida com as várias outras que já andaram sobre a Terra e várias coisas se repetem, cada geração de certa forma começa de um zero.

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Mason recebe um presente de seu avô. A infância de Mason é a fase que mais nos identificamos universalmente, depois na adolescência a sua história tem algumas pitadas de características de famílias dos EUA. Uma arma como presente.

Linklater teve o final que queria, a vida como um grande ciclo. Porém, com tudo o que ele construiu, o final poderia ser mais instigante e desafiador. A narrativa nos 10 minutos finais já apresenta alguns desgastes de ritmo sem que a comprometa. Contudo, o ponto positivo de seu desfecho é a conexão com seus outros filmes e que mostra completo domínio de seu estilo e de suas características como diretor. Linklater não é um grande gênio, mas é um grande diretor que sabe muito bem aproveitar o momento ou citando Ellar: “ou é o momento que aproveita você?”, é claro que Linklater sabe o que quer e sabe planejar muito bem. O ponto mais inovador de Boyhood com o resto de sua filmografia são os primeiros anos de Mason, os mais graciosos de Boyhood e os mais bem interpretados por Ellar Coltrane. Destaca-se a interpretação de Patricia Arquette como a mãe, a de Ethan Hawke como o pai, a de Marco Perella como o professor Bill Welbrock e a textura de imagem do filme que foi filmado com Panavision e Moviecam Compact que nos traz uma nostalgia da imagem do passado em um mundo cada vez mais dominado por Arri e sua hegemonia nos filmes do oscar nos últimos anos.

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A família.

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Ellar Coltrane e Richard Linklater no presente. De certa forma, Boyhood é também uma história da progressão da masculinidade na infância, na adolescência e na juventude. Ao vermos a obra notamos que um dia já fomos ridículos e fizemos muitas besteiras (encaro isso com bom-humor).

Como síntese do que mais importa na obra, é a família que tem a maior importância, vemos que no início do filme há muita coisa perceptível sobre os objetos do mundo, as referências culturais e os símbolos mais destacados no passado remoto do filme (a infância) e à medida que o filme decorre notamos menos os objetos. Provavelmente por que cada vez que nos aproximamos do presente, menos notamos os símbolos como algo que está distante e não temos tanto estranhamento como a da cena em que Ellar se forma com seu amigo no ensino médio e vai para casa comemorar por volta de 2013 ou 2014. Se a obra só focasse na história dos objetos provavelmente poderia cair com facilidade no superficial, aí sim teria se tornado um filme maçante.

Talvez o maior lado sombrio da obra é justamente a aposta maior de Linklater, a identificação dos espectadores nas personagens. Devido à maneira do desenvolvimento da narrativa se aproximar mais de uma apresentação do que um desafio dramático, mesmo que haja muitas coisas acontecendo e a mudança de Mason ao longo do tempo, o filme de certa forma se acomoda aos poucos dentro de seu próprio conceito e dispositivo. Com um espaçamento de 12 anos, Linklater poderia ter pego uns 3 anos, não necessariamente consecutivos, para se desafiar novamente e construir talvez algumas possibilidades mais instigantes para a personagem.

Dentro de sua proposta de apresentar uma vida normal de uma pessoa que tem o potencial para ser diferente funciona, mas será que é apenas isso? Talvez em alguns momentos do filme mais sequências como as do padastro bêbado problemático, o distanciamento do pai e o conflito com a mãe ao sair de casa e os conflitos amorosos poderiam ser usadas. Aí o apelo à empatia pelo drama do filme teria um alcance maior para além da identificação pela nostalgia e pelas situações muito parecidas com as nossas – ainda sim seria um filme bonito e singelo. Porém ele não precisaria ser melancólico e cair no clichê de que filme sério ou uma obra elevada sobre infância tem que ser um drama triste. Por causa destes fatores, Boyhood depende bastante da identificação pessoal para considerá-lo uma obra-prima enquanto filme e como conceito podem dizer à vontade que é uma belíssima obra de arte se quiserem esquecer a obra em si e por o conceito como o mais importante. Há muitas pessoas que não precisam de mais acontecimentos surpreendentes para se identificar, a chave para a obra é se atrelar pessoalmente a Ellar e à sua família de alguma forma e entender que são vidas normais sem artifícios como os de alguns filmes biográficos no mau sentido. Ou que a obra vá discutir uma questão como racismo ou xenofobia.

Boyhood divide opiniões entre seus espectadores e é muito bem recebido pela crítica e já tem seus fãs apaixonados. Pode ser arriscado para os críticos dizer que já é uma obra-prima. Daqui 30 ou 40 anos quando as gerações de hoje e a do futuro já tiverem bastante distanciamento entre elas o filme pode não ser tão aclamado e perder um pouco da sua força ou ficar ainda mais poderoso como obra de arte. De acordo com um dos periódicos sobre cinema mais antigos e ainda em atividade no mundo, a Sight and Sound, Boyhood é o melhor filme de 2014 e logo em seguida vem Adeus à Linguagem (2014), de Jean-Luc Godard. Boyhood se tornará um filme obrigatório para os cinéfilos, goste dele ou não, mas na opinião deste crítico: é um grande e belíssimo filme sem dúvidas pelas suas possibilidades de empatia e nostalgia para os que são atingidos.

Qual longa-metragem vai ficar mais marcado na memória das futuras gerações? Entretanto, uma coisa é certa: Boyhood ainda vai ser considerado relevante como um trabalho que mostra o poder que os filmes tem em brincar com a magia do tempo.

Nota: Boyhood concorreu às seguintes categorias no Oscar 2015: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original e Melhor Montagem. Ganhou apenas Melhor Atriz Coadjuvante para Patricia Arquette e muitos já consideram um dos filmes mais esnobados na história da premiação. Se ganhasse seria uma grande inovação nas escolhas da academia. Um filme parecido talvez nunca ganhou. A identificação por Birdman prevaleceu e foi escolhido um filme com mais surpresa dramática, simbologias, o universo dos atores e atrizes e a produção de maior porte. A diferença de votos deve ter sido pouca, foi um ótimo ano para o Oscar. Porém, a Academia reforça ainda mais um narcisismo com outro filme sobre a própria indústria, apesar de ser um excelente filme com muita fibra. As duas escolhas eram inusitadas se comparar com os últimos anos da premiação. A melhor disputa desde o Oscar 2008 entre Onde os Fracos Não Tem Vez (2007) e Sangue Negro (2007).

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