O Abutre (2014)

por Daniel Lukan

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Em seu primeiro trabalho como diretor, Dan Gilroy não obteve o mesmo sucesso na premiação do Oscar 2015 que Damien Chazelle acabou obtendo, em situação semelhante, com Whiplash; Nightcrawler acabou recebendo apenas uma indicação na categoria de melhor roteiro original, sem chegar a ser cogitado como favorito dentro da categoria. Sem dúvidas um capricho da academia. Não que O Abutre chegue a ser um filme genial, no entanto; vários outros aspectos poderiam receber nomeações justas como, por exemplo, a atuação de Jake Gyllenhaal que com certeza merecia maior atenção que os papéis interpretados por Bradley Cooper em Sniper Americano ou Steve Carrel em Foxcatcher; além disso, claramente poderia ser um forte candidato – junto com os também esquecidos Interestelar, Gone Girl e, o completamente ignorado, Era uma vez em nova York – às duas vagas não preenchidas na categoria de melhor filme.

Lou Bloom (Jake Gyllenhaal) é a alma do filme. O abutre. O protagonista desse neo-noir incorpora características de famosos sociopatas do cinema (sobretudo, Norman Bates em Psycho, 1960, e Travis Bickle em Taxi Driver, 1976). Aproxima-se de Travis Bickle no comportamento de sua sociopatia e na opacidade do personagem, já em sua fisionomia lembra tanto a insanidade do protagonista do clássico de Hitchcock quanto o aspecto sombrio de Nosferatu (1922), de F.W. Murnau. Lou Bloom desde o princípio do filme apresenta uma forte determinação a chegar onde quer e a ganância de obter recursos para alcançar um sucesso pessoal e financeiro completamente planejado, em relação a isso já tomamos conhecimento da carência moral e ética que envolvem o personagem na busca de seus objetivos.

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O título do filme – O Abutre – pode nos remeter ao filme A Montanha dos Sete Abutres (1951) de Billy Wilder. Uma conexão boa, porém, falha, uma vez que o título original (Ace in the Hole) não tem nenhuma relação com abutres. Entretanto, feita a relação, é interessante notar como ambos os protagonistas, Lou Bloom e Charles Tatum, encarnam uma verdadeira sátira à inescrupulosa atividade do jornalismo sensacionalista. Charles Tatum (interpretado por Kirk Douglas) é um jornalista com ótimo “faro” para notícias e com boas habilidades em sua profissão, contudo, problemas de conduta ocasionam sequentes demissões que o levam até o trabalho mal remunerado num jornal local em Albuquerque, Novo México. A caminho da cobertura de uma corrida de cascavéis, que obviamente seria outro artigo sem interesse, ele fica sabendo a respeito de Leo Minosa um homem que ficou preso no deslizamento de terra de uma caverna. Ali Charles vê uma oportunidade de ouro e tomando conta do processo de resgate de Leo, ele acaba convencendo e enganando, ou até mesmo corrompendo, todos os envolvidos no salvamento, de modo que consegue prolongar o resgate pelo maior tempo possível, podendo, assim, vender com exclusividade por vários dias aquela história que gera uma comoção nacional.

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Em contrapartida, Lou Bloom não é sequer um repórter, vemos do início do filme que se trata de um ladrão, completamente sem moral que, no entanto, está a procura de algum tipo de trabalho que seja capaz de sustentá-lo. Além disso, é possível notar sua disposição a aprender e de ir atrás daquilo que traça como meta. Ao presenciar um acidente de carro e observar um repórter freelancer que faz imagens dos atendimentos às vítimas para poder vender a um jornal televisivo, Lou vê ali a uma chance de iniciar um tipo de trabalho autônomo, com possibilidades de bom rendimento e também uma realização pessoal. Rick Carey (Riz Ahmed), contratado como estagiário, em pouco tempo vira o braço de direito de Bloom em seu trabalho. Rick é o personagem que, apesar de estar inserido diretamente nessa sátira ao jornalismo sensacionalista, serve para evidenciar ainda mais a sociopatia por trás de Lou. Rick aponta e questiona o que é moral, ético e até mesmo legal naquilo que fazem juntos, enquanto que Lou está sempre ultrapassando sem qualquer hesitação esse limites mencionados pelo parceiro. Rick é uma espécie de consciência que inexiste em Lou. Num dos momentos mais marcantes dessa relação entre os dois personagens, Rick acusa o fato de Lou não entender as pessoas e não tratá-las como humanas e Lou responde “What if my problem wasn’t that I don’t understand people but that I don’t like then?”.

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Nightcrawler sem dúvidas apresenta Lou Bloom (como personificação do jornalismo sensacionalista) o grande abutre que fica correndo atrás desses fatos mordazes, cruéis e sanguinolentos sem apresentar traços de empatia e altruísmo. Não como uma metáfora, mas literalmente um abutre correndo atrás de carniça. Em um acidente que chega ao local ainda antes da polícia e dos bombeiros, Lou larga sua câmera a beira da pista e corre em direção a um dos corpos estirados no chão, o que parece ser um sinal de ajuda revela-se na verdade a grande mudança no caráter do protagonista, o repórter que, até então, não demonstrava qualquer sentimento pelas cenas chocantes que filmava, que se destacava por quebrar barreira policial e etc., passa a manipular as cenas. Lou move o corpo estirado até um local onde poderia filmar de um ângulo melhor. Apenas aponta a mudança no caráter que o levará ao ponto de começar a controlar os fatos, ou, melhor dizendo, como os fatos são apresentados e conhecidos… e até mesmo ao ponto de começar a ocasionar os acontecimento.

Visualizando os dois títulos comparados, ambos possuem a capacidade de evidenciar críticas à conduta jornalística, ao sensacionalismo e à manipulação da mídia que vende imagens fortes e apelativas (capazes de prender a atenção qualquer pessoa) a título de informação. Ace in the Hole possui o mérito de apresentar o sensacionalismo como um defeito de praticamente todas esferas, ou seja, os espectadores são tão imorais e inescrupulosos por repercutirem tais fatos quantos os jornalistas que as “produzem”. Em relação a isso vale também ressaltar o nome de uma reedição do título e que permaneceu na tradução que o filme de Wilder recebeu em Portugal: O Grande Carnaval (The Big Carnival); como de fato acontece no filme, um imenso carnaval em torno do sofrimento de Leo Minosa. O Abutre por outro lado apresenta o público de forma mais modesta, ou seja, apenas vemos o número considerável de audiência que sobe e desce de acordo com o “grau” de crueldade da notícia. Nesse ponto, o fato de deixar um pouco de lado o público e focar sua crítica ao sensacionalismo como problema e defeito, em essência, do jornalismo, o filme de Dan Gilroy ganha e perde em comparação ao filme de Billy Wilder.

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O drama noir de Wilder consegue satirizar e ridicularizar a sociedade de forma geral, da imoralidade de quem é capaz de manipular uma tragédia à obscenidade de quem dá audiência e repercussão a um fato, sem dúvidas cruel, mas que não possui relevância e importância para gerar tamanha comoção. A ironia se prende no fato de que um grupo pequeno de profissionais poderia salvar a vida de Leo Minosa sem maiores alardes e em pouco tempo, no entanto, uma multidão de curiosos “preocupados” arrasta o resgate por dias até perderem o motivo de sua preocupação. Já o thriller neo-noir de Dan Gilroy apresenta com soberbo pessimismo os defeitos e a corrupção do jornalismo que mascarado pela honraria da integridade jornalística apresenta de forma visceral notícias inúteis sem possuir a sensibilidade de proteger a dignidade de vítimas de crimes (ou acidentes) cruéis. A ação é muito mais intensa e os personagens muito mais fortes. O pessimismo de Gilroy vai ao ponto de Lou Bloom “entregar” seu parceiro de trabalho, sem relutância, ao final trágico de uma notícia que só impulsionará sua agência ao sucesso. Ao contrário disso, Charles Tatum possui seus objetivos de sucesso pessoal ao armar todo aquele circo em torno do drama de Leo Minosa, contudo, há um resquício de humanidade no protagonista de Wilder que – após a perda do controle da situação que manipulara e a consequente morte de Leo – decide revelar a maior notícia de todas: como havia causado a morte de Leo Minosa.

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Os dois filmes apresentam duas perspectivas sobre o jornalismo sensacionalista, ambas extremamente válidas. Gilroy escreveu um roteiro mais simples, com plot points muito bem estabelecidos, mas intensamente ácido, capaz de gerar um excelente personagem, da dimensão de um Travis Bickle contemporâneo. Apesar de ser seu trabalho como diretor, Dan conseguiu transmitir segurança e equilíbrio que dá uma admirável cadência ao desenvolvimento da história sem precisar ser muito didático. Ainda valendo como comparação o fato de o filme de Billy Wilder também ter sido nomeado apenas ao prêmio de melhor roteiro no Oscar de 1952 (e assim como O Abutre não venceu). Hoje Ace in the Hole é um filme muito mais notável do que vários dos outros filmes que concorreram nas principais categorias daquele ano. O Abutre acaba sendo uma das maiores injustiças dessa edição do Oscar, como já dito, não que fosse muito superior ao ponto de merecer premiações, mas com certeza merecia pelo menos as nomeações de Melhor Filme e Ator, além da única que recebeu como Melhor Roteiro.