Selma (2014)

por Não são as imagens

A nova cinebiografia de Martin Luther King Jr., “Selma” (2014), se passa no Sul dos Estados Unidos no período pós-Kennedy, em 1965, após a promulgação da Lei dos Direitos Civis. Embora a grandiosa Marcha Sobre Washington, liderada por King, já tivesse acontecido, parte população negra norte-americana ainda vivia segregada e sem direito ao voto, esmagada pela supremacia branca e pela pobreza.

Em “Selma” contexto é tudo, e quando começa com King (David Oyelowo) recebendo o Nobel da Paz, ao mesmo tempo em que garotas negras são vítimas de um ataque terrorista dentro de uma igreja, o filme traça seu caminho e parte de sua temática: são tempos de esclarecimento e penumbra; de leis que existem, mas não se cumprem; de um governo que se compromete, mas não o suficiente; e de guerras que não levam a lugar algum.

O roteiro acerta em nos jogar diretamente em meio a esse caos, sem se perder em seu próprio emaranhado histórico. Sabemos quem é Martin Luther King, sabemos que as pessoas negras não conseguem votar no Alabama, e que o mesmo governo que busca dialogar com o movimento negro também espiona seu maior expoente – em letreiros que tornam a contextualização em linguagem: sabemos onde King, seus colegas e família estão porque o F.B.I. também sabe. Somos, como expectadores, cúmplices da espionagem.

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A multidão protesta sob a liderança de King (David Oyelowo) e expõe a brutalidade policial legitimada pelo estado do Alabama.

E somos também cúmplices da névoa de morte que paira sobre os personagens, como diz Coretta Scott King (Carmen Ejogo) em certo momento. A direção de Ava DuVernay acerta em deixar pousar lentamente, durante todo o filme, esta lembrança extra fílmica de que o pastor será assassinado em nome de seus ideais. Cada morte do filme é um prenúncio do futuro do Dr. King, do jovem Jimmie Lee Jackson (Keith Stanfield) ao reverendo James Reeb (Jeremy Strong), passando pela menção à morte de Malcom X (Nigel Thatch).

Esta morte consome o personagem aos poucos e se manifesta em suas dúvidas. David Oyelowo é certeiro em sua atuação, que entrega tanto o King magistral, estrategista e orador, quanto o King confuso, que duvida da validade de seu discurso e de seu planejamento, que envolve provocar o poder público a reagir com violência para escancarar contradições. Acaba assim expondo os próprios conflitos éticos, inclusive no seio familiar. A fotografia do longa-metragem busca evidenciar essas camadas do personagem, colocando o pastor muitas vezes na escuridão quase completa. Na cadeia, King reflete sobre seus atos e, enquanto está perdido na sombra, seu colega de cela tem a luz frágil do exterior sobre o rosto. É lá que King busca a sabedoria que lhe falta.

SELMA

O presidente Lyndon Johnson (Tom Wilkinson) discute com Martin Luther King Jr. (David Oyelowo). Johnson também é um personagem vacilante que transita entre a luz e a sombra.

Essa representação do líder que falha, e nem por isso perde sua nobreza e capacidade de inspirar, é um alívio em meio a cinebiografias que podem facilmente cair no erro de planificar seus personagens, em busca de uma impossível identificação universal – como em “A Teoria de Tudo”, que não sai da zona de conforto e entrega um Stephen Hawking unidimensional, apesar do ótimo desempenho do ator Eddie Redmayne. Evidência de que não basta que ator tenha diante de si uma grande personalidade para reproduzir: roteiro e direção desempenham o importante papel de reinventar a realidade e transmitir não somente fatos, ou fatos amenizados – já bastam os jornais – mas criar significados. Unindo roteiro e direção consistentes e ótimas atuações, “Selma” cumpre bem sua proposta: a luz e a sombra estão presentes no mundo, e a diferença de um grande líder é capacidade de lutar contra isso dentro e fora de si.

Texto escrito por Letícia Bispo, estudante de audiovisual na UnB, aspirante a cineasta e feminista.

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“Selma” foi indicado ao Oscar 2015 na categoria de Melhor Filme, e premiado na categoria de Melhor Canção Original, “Glory”, de Common e John Legend.