Foxcatcher (2014)

por Thiago Campelo

Foxcatcher

Bennet Miller parece, ao longo da última década, acertar milimetricamente a formula para receber indicações ao prêmio mais famoso do cinema. Apesar da pequena lista de longas-metragens, enquanto diretor, a partir do momento em que se envolveu com a ficção, nenhum de seus filmes deixou de ser indicado à pelo menos 4 categorias do Oscar. Depois de Capote (2005), filme que deu a estatueta de melhor ator para Robert Seymour Hoffman, foram duas indicações à melhor direção, além das indicações de roteiro, edição, melhor filme e algumas outras mais. A primeira por Moneyball (2011) e a segunda, já nessa última edição de 2015, por Foxcatcher (2014).

Talvez numa tentativa de propor o mesmo modo de fazer ficção (ou reordenar a realidade) de Truman Capote que iniciou o New Journalism e que ele levou ao cinema, o vínculo de Miller com o real seja cada vez mais notório. Suas três ficções são adaptações de histórias que aconteceram, além de dois documentários: The Cruise (1998) e The Question (2012).

Assim como Capote fez com a literatura e em A sangue frio (1965), Miller faz da linguagem cinematográfica meio pelo qual a realidade é dilatada, ganhando espessura dramática, simbólica e analítica. Tanto Capote quanto Miller olham o fato sem a frieza com a qual um jornalista a olharia. Um crime deixa de ser só mais um crime.

FOXCATCHER

Sob essa perspectiva é que Foxcatcher se desdobra. Adaptação livre de uma história real, de um crime envolvendo um dos homens mais ricos dos Estados Unidos e dois medalhistas olímpicos na modalidade de luta greco-romana. No entanto, o que garante volume e o que é peça fundamental de diferenciação entre esse filme e qualquer outro “baseado em fatos reais”, é a densidade psicológica dos seus três personagens principais e o embate entre eles que movimenta lentamente a narrativa.

O filme que se passa entre a segunda metade dos anos 80 e a primeira metade dos 90, aborda a relação conflituosa entre o multimilionário John du Pont (Steve Carell de Little Miss Sunshine e The 40 years old Virgin), e os irmãos Mark Schultz (Channing Tatum de Magic Mike e Coach Carter) e David Schultz (Mark Ruffalo de Blindness e Shutter Island). Du Pont, mecenas do esporte norte-americano, inicia um processo de busca por medalhas em competições internacionais como meio de restaurar o orgulho dos Estados Unidos. Para tanto, contrata primeiramente o caçula Mark para treinar em sua equipe de luta e posteriormente David.

Tendo seus pés fincados sobre os relatos verdadeiros do crime, Miller não possui espaço para modificar e remodelar a linha que mantém toda a narrativa coesa. É aí, então, que ele se debruça sobre o trabalho dos roteiristas E. Max Frye e Dan Futterman e seus personagens fazendo com que o filme cresça horizontalmente.

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Du Pont, desde o início do filme, apresenta um comportamento relativamente excêntrico. É um homem que necessita de aprovação constante, numa espécie de compensação pela falta de proximidade da figura da mãe (Vanessa Redgrave), que lhe domina. Jean du Pont, matriarca da família, reprova suas escolhas e o seu envolvimento com esse determinado tipo de esporte. Há uma clara referência psicanalítica que perpassa, sobretudo a propriedade dos du Pont e é formadora do caráter de John: sua mãe e seus cavalos são proibidos, intocáveis.

Mark é o espelho de John. Assim como o multimilionário necessita da aprovação da mãe, Mark precisa da aceitação do irmão que faz às vezes de pai e treinador. Mark é uma figura completamente infantilizada, dependente emocionalmente primeiro de David e depois de John. Visto que sempre esteve sob a sombra do irmão, ressente a sua posição diante dele. Sob a regência de John, ressente o fato de ser trocado pelo irmão.

É a partir desse primeiro contato entre John du Pont e Mark Schultz que outro ponto começa a tomar corpo na narrativa. Devido a importância de sua família para os EUA, a necessidade de John de compensar a repressão imposta pela mãe toma proporções absurdas. Sua auto representação enquanto figura paterna se estende para além da esfera dos relacionamentos interpessoais. John precisa ser chamado de “a águia dourada” dos EUA, de pai, de mentor. É o homem que através de Mark, levará a esperança e o orgulho à nação.

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Mark, no entanto, com o apoio material de John, consegue se desvencilhar temporariamente da figura opressora que vê em David, mas justamente por ser a imagem refletida de Du pont, precisa da figura paterna e é justamente nele em que Mark vai depositar suas expectativas. Eis então o que lhes tornam diferente: suas ambições. O primeiro anseia liderar um país, enquanto o segundo quer tomar conta de sua própria vida.

Por sua vez, conferindo equilíbrio para a narrativa e desequilíbrio para a relação entre as personagens, David Schultz. Sem ser posto como um homem autossuficiente, ele é, no entanto, a figura dramática de oposição aos dois primeiros. Calmo, centrado, cordial, David mantém a sua responsabilidade familiar acima de qualquer coisa, além do sucesso profissional. Causador da inveja dos outros dois, ele é o único que atinge seus objetivos. A sua chegada à equipe Foxcatcher acarreta a derrocada efetiva da carreira de Mark e o completo descompasso mental de John.

Miller, então, ao tentar se aproximar de Truman, no que diz respeito à abordagem dessa história real, enxergou uma ótima maneira de explicar e dramatizar um crime que realmente chocou os EUA. Através da psique de seus personagens, ele foi capaz de criar um ambiente de frieza e sobriedade condizente com o descompasso desses três homens.

O trabalho de direção dos atores é primoroso. Não há ponto sem nó na condução das atuações e a representação psicológica das personagens na construção da mise en scène é de ótima qualidade. Do início ao fim, a construção de cada cena e a escolha dos planos é imbuída de significados importantes para o crescimento horizontal da narrativa. Exemplo disso é a primeira cena, onde Mark e David se aquecem com movimentos que chegam a simular abraços ao mesmo tempo em que são golpes da modalidade. Outro momento é a chegada de David à propriedade Foxcatcher: ao encontrar Mark, uma portinhola materializa a barreira emocional entre os dois que já é intransponível. Mesmo Mark, viciado em cocaína, aos pés de John, quase como um bicho de estimação, sujeito aos mandos e desmandos de seu líder.

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As atuações de Steve Carell e Mark Ruffalo são exemplares. Apesar do peso de carregar uma máscara que lhe impossibilitava a devida movimentação do corpo, Carell consegue demonstrar expansividade e excentricidade no tom condizente com o de Bennet Miller. Ruffalo constrói um David Schultz extremamente sóbrio, verdadeiro e cativante desde a caracterização do andar. Mas é na atuação de Tatum a maior surpresa. Ator de comédias e filmes de ação duvidosos, ele foi capaz de dar forma a um personagem completamente introspectivo e comedido que conseguiu evoluir muito bem para os momentos que precisava de uma atuação mais externa.

No entanto, algumas coisas ficam meio soltas, até mesmo vagas. A narrativa de Foxcatcher tenta fazer com que tanto Mark quanto, John e David tenham o mesmo peso, mas isso não acontece. O filme inicia mantendo o foco sobre Mark, mas ainda no começo John toma a posição de protagonista e o caçula dos Schultz se torna uma personagem secundário com alguns momentos pontuais de maior importância. David aparece basicamente como dispositivo para a virada da história, apesar de ser o personagem de tanta força quanto John.

O que é desenhado como justificativa para construção psicológica das três personagens, suas relações familiares, é pouco abordado. Quase não se vê a família de David, a mãe de John aparece pouquíssimas vezes e a maior parte das informações dadas sobre essa questão são mostradas pelos diálogos entre Mark e John.

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Dessa forma, Foxcatcher conseguiu ser talvez um dos melhores filmes estadunidenses de 2014 e receber merecidamente as indicações para o Oscar 2015 nas categorias de melhor diretor, melhor ator e melhor ator coadjuvante, além das categorias de melhor maquiagem e melhor roteiro original. É de fato o maior projeto de Bennet Miller até agora e provavelmente, no que toca a direção de seus elencos, seu melhor trabalho, apesar das falhas da dupla E. Max Frye e Dan Futterman e do exagero da maquiagem.

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O filme concorreu nas categorias Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original e Melhor Maquiagem no Oscar 2015.