Vício Inerente (2014)

por Daniel Lukan

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Classificar o filme Vício Inerente como uma comédia policial – como percebi ser recorrente numa breve pesquisa pela internet – é no mínimo grotesco. Sim, é certo que o filme tem vários momentos cômicos que são trabalhados de forma brilhante; contudo, o humor é apenas uma particularidade que traspassa a prolixa história contada no filme dando uma amenizada no incoerente ritmo da narrativa e ao mesmo tempo potencializando a ironia e o sarcasmo que permeia as personalidades de seus numerosos personagens, o que, ‘ironicamente’, agrava o absurdo da história. Um humor inerente que dá originalidade ao filme de Paul Thomas Anderson, tornando-o extravagante de certo modo, o que lembra bastante o humor praticado pelos irmãos Coen. Ou seja, o humor é abundante, porém, o filme como um todo está um pouco distante de ser uma comédia.

Joaquim Phoenix dá vida ao protagonista da história, Doc Sportello, um hippie que começa a trabalhar como investigador particular. Seu primeiro caso, que dá início à história do filme, é dado por Shasta Fay (Katherine Waterston), sua ex-namorada, que lhe pede auxílio na segurança de Mickey Wolfmann (Eric Roberts), seu novo amor, que está aparentemente desaparecido e o qual suspeita-se que esteja em perigo por causa de sua mulher e o amante dela que planejam interná-lo em uma instituição psiquiátrica. Em seguida, Doc se encontra com Tariq Kahlil (Michael K. Willians) que o contrata para procurar por Glen Charlock (Chritopher Allen Nelson), o qual conheceu na cadeia e lhe deve dinheiro. Glen Charlock é um dos guarda-costas de Wolfmann. Seguindo as pistas por Charlock, Doc é golpeado com um taco de baseball e acorda ao lado do corpo de Charlock cercado de policiais. Ele é interrogado pela polícia e agora vira uma das peças da investigação sobre a morte de Charlock. Após o interrogatório, ele é contratado por Hope Harlingen (Jena Malone) para procurar o marido desaparecido, Coy (Owen Wilson).

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Esse é o mínimo que se pode fazer de resumo da história, entrar em mais detalhes pode torná-la desinteressante, além da forte sujeição ao erro, uma vez que a história vai se tornando cada vez mais complicada e ininteligível a medida que Doc vai se envolvendo mais e os três casos começam a se entrelaçar. O mais interessante de notar nisso tudo – e com isso justificar a indicação do filme ao Oscar de Roteiro Adaptado – é como a desorientação aflora na (e dá prosseguimento a) narrativa de um modo completamente peculiar e divertido, o que evidencia a relação entre nossa interação como espectadores com a história contada à mentalidade nebulosa, débil e aérea de seu protagonista. Desse modo, até em seus momentos mais letárgicos, Vício Inerente possui a capacidade de continuar sendo um filme hipnótico. Como se estivéssemos buscando incessantemente algum detalhe que nos tenha escapado; bem, na verdade, o grande detalhe que nos escapou: a coerência.

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É notório como Paul Thomas Anderson constrói um filme noir com todas suas características mais clássicas presentes: a femme fatale, magnatas corruptos, personagens de moral dúbia e o anti-herói cada vez mais envolvido em sua investigação e mais afundado no “poço de lama” em que está metido. No entanto, um filme de gênero ‘revitalizado’ e recomposto, de modo a quase suscitar uma sátira – sem apelar ao estrambólico e caricato. Doc visivelmente influenciado pelo protagonista de The Big Lebowski dos irmãos Coen, Jeff Lebowski, “the dude” (Jeff Bridges), nem de longe se assemelha aos elegantíssimos e perspicazes detetives dos clássicos filmes noir da década de 40. Suas muletas não são mais whisky e cigarro, mas, sim, cerveja e maconha.

A estrutura básica é mantida, porém, Thomas Anderson consegue reciclar o grande gênero ‘abandonado’ no tempo. Além dessa brilhante reconfiguração do anti-herói adaptado ao final do período da contracultura, o plot alucinante e dividido em várias variáveis que cada vez mais vão prendendo o protagonista à busca das respostas de sua investigação – que já era bem forte no noir clássico – em Inherente Vice se torna uma série tresloucada de perguntas sem respostas e histórias interligadas, mas não muito coesas. Como diz Robbie Collin em sua crítica ao filme no The Telegraph: “There are too many uncanny connections to keep up with and too many loaded coincidences to decode. Forget whodunit. Whoevendunwhat?”. Nosso comportamento enquanto espectadores é um pouco similar ao  do director da CIA (J.K Simmons) em Burn After Reading (2008), também dos irmãos Coen, que fica cada vez confuso e atônito cada vez que ouve os relatórios sobre a série de eventos envolvendo os protagonistas da história, até se conformar com o fim não absolutamente decifrável, mas inteiramente cômodo.

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De forma geral, um filme agradável de ver, sem chegar ao nível dos melhores trabalhos de Paul Thomas Anderson, mas ainda assim, um ótimo filme. Aquele tipo de filme que com uns trinta minutos passados você acha que será preciso ser revisto para uma compreensão melhor, talvez seja, mas, sem dúvidas, a grande proposição de Vício Inerente é a própria incompreensão, a dúvida… o detalhe que parece ter escapado, mas que na verdade nem foi apresentado. Um grande trabalho cinematográfico que homenageia e ao mesmo tempo satiriza aspectos de um grande gênero do cinema.

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Vício Inerente apresenta uma concepção técnica excelente, extremamente eficiente, seja na fotografia, direção de atores, figurino, maquiagem e a direção de arte como um todo, além da trilha sonora bastante adequada e satisfatória. O filme mostra, mais uma vez, o talento e a inteligência de Paul Thomas Anderson como um dos cineastas mais competentes de sua geração.