A cidade é uma só? (2011)

por Gustavo Menezes

A construção de Brasília foi carregada de objetivos inovadores para o Brasil em diversos aspectos: O primeiro e mais óbvio era a própria criação da cidade, uma capital planejada do zero com design e arquitetura modernos. No planejamento urbanístico, cada quadra supriria seus moradores com o próprio comércio, a própria escola, o próprio cinema e a própria igreja. Conforme o plano original, não haveria divisão da cidade em bairros ricos e pobres, para gerar integração entre as diferentes classes sociais. E a UnB foi pensada para fugir à compartimentalização do sistema educacional, dando aos alunos liberdade para gravitar entre os diversos departamentos da forma que seu interesse ditasse.

Mais cedo ou mais tarde, todas essas inovações falharam. Os operários que haviam migrado para construir a cidade não foram alocados no Plano Piloto, mas forçados para fora, originando assentamentos nas proximidades que, mais tarde, foram realocados, dando origem às cidades-satélite. O projeto da UnB foi abortado pela ditadura militar, que causou uma debandada em massa dos professores e intelectuais que haviam se mudado com o intuito de contribuir com a instituição, que hoje funciona como qualquer outra universidade do país.

Décadas depois, dois desses objetivos fracassados de Brasília se encontrariam e seriam subvertidos quando Adirley Queirós, morador da Ceilândia, se formou em cinema pela UnB. Desde então, ele se dedica a retratar em seus filmes o ponto de vista de sua comunidade sobre questões delicadas e urgentes como desigualdade social, racismo, preconceitos de classe e, principalmente, o “sonho falho” que é Brasília. Este é o cerne de seu primeiro longa-metragem, A Cidade é Uma Só?

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O roteiro se concentra em dois moradores da Ceilândia, Nancy e Dildu, e transita entre o documentário e a ficção. Nancy foi uma das crianças escolhidas para participar da vinheta da Campanha de Erradicação de Invasões promovida pelo governo no fim dos anos 60 e início dos 70, a fim de expulsar os moradores da Vila IAPI, nos arredores do Plano Piloto. Na vinheta, as crianças cantam um jingle pedindo aos moradores do Plano que contribuam com a construção da Ceilândia, “porque a cidade é uma só”. O filme transforma a afirmação em pergunta e parte, com Nancy, em busca das origens da campanha e da construção da Ceilândia para mostrar que, desde o início, o Plano Piloto e o entorno estiveram separados.

Enquanto a história de Nancy quer redescobrir as origens da cidade, a de Dildu quer investigar sua situação atual. Dildu trabalha no Plano Piloto como faxineiro e, como consequência, precisa fazer diariamente um longo e desgastante trajeto de ida-e-volta. Esta é a realidade da maior parte da população do entorno do DF. Dildu resolve se candidatar a deputado distrital pelo Partido da Correria Nacional, que ele mesmo fundou, e defende pautas como a indenização dos moradores originais da Vila IAPI, a equidade das passagens dos ônibus do plano e do entorno (que são mais caras por conta da distância) e o direito a alimentação, saúde e lazer de qualidade a preços acessíveis.

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Como não tem dinheiro nem empresários ricos para investir em sua campanha, Dildu se vira com a ajuda dos amigos. Grava seu jingle com o rapper Marquim, num estúdio precário, e sai com seu cunhado, Zé Bigode, num carro de som improvisado para distribuir santinhos e anunciar suas propostas aos pedestres. Nessas sequências, os dois lidam com o traçado incomum de Brasília e sua inospitalidade, que faz com que se percam nos caminhos confusos, nas tesourinhas e nos retornos.

Por falar em Zé Bigode, é interessante notar como os personagens menores integram a discussão do tema central. Ele vende terrenos pelo DF. É a partir daí que se examina a falta de planejamento na construção da cidade-satélite, bem como o descontrole no modo como ela e o DF em geral vêm crescendo até hoje.

Como a própria história da cidade remonta a um jingle, o filme trata rapidamente da memória musical da população. Marquim é apresentado cantando um rap “das antigas” sobre a Ceilândia; depois, em determinado momento, Dildu recita “Meu Enxoval”, canção de Jackson do Pandeiro que lida com a exclusão do migrante nordestino nos grandes centros urbanos.

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Enquanto Nancy vai se aprofundando na história da Ceilândia – que, como é revelado, carrega o estigma da segregação em seu próprio nome -, Dildu se vê, apesar de seus esforços, cada vez mais longe de ser eleito. Depois que o carro de Zé Bigode dá defeito, ele sai a pé pelas ruas e acaba se deparando com uma carreata – real – em apoio a Dilma Rousseff e outros candidatos do PT. Quem é Dildu perto deles? Que chances ele teria de se eleger?

Essa exposição sem rodeios do processo de segregação empreendido na utópica Brasília é o que diferencia A Cidade é Uma Só? de outras produções como 5x Favela – Agora Por Nós Mesmos e 5x Pacificação, que, embora apresentem temática e origem semelhantes, apenas ensaiam tímidas críticas e, no fim, descambam para uma conivência com a visão dominante dos fatos.

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Aqui, não. Este filme vai na contramão inclusive do que se costuma produzir em Brasília. Apresentam-se vários pontos de vista, nenhum de moradores do Plano. Afinal, a visão do Plano é o que não falta na cinematografia da cidade, enquanto a das cidades-satélite sempre foi ignorada.

Era de um filme assim, soco-no-olho, que Brasília precisava.

Texto escrito por Gustavo Menezes – 22 anos, ex-estudante de Letras. Atualmente cursa Audiovisual na UnB.