Smoke (1995)

por Victor Cruzeiro

O cinema estadunidense não tem o costume de mesclar o real e o fantástico de maneira equilibrada em suas histórias. Ou elas optam pelo realismo duro – cujo maior desatino é o melodrama – herança do cinema clássico, ou optam pelo fantástico como fio condutor, como acontece nos filmes ditos não-realistas, a ficção científica, o horror e, quando muito, o cinema “de arte” ou “experimental”. Não há, nesse cinema, muitos filmes que consigam balancear bem ambas as partes, formando uma amálgama de realidade e fantasia que seja, ao mesmo tempo, deslumbrante e convincente. Um dos poucos e excelentes exemplos disso é Smoke, de Wayne Wang e Paul Auster.

O filme independente de 1995, traduzido de forma esdrúxula para o português como Cortina de Fumaça e para o espanhol como El peso de humo [o peso do fumo], traz uma carga lírica muito pouco explorada no cinema norte americano e, de certa forma, no ocidental como um todo. Há na história um realismo mágico, tão caro à literatura através de nomes de peso como Gabriel Garcia Márquez, Franz Kafka e Jorge Luis Borges, transposta à tela nas personagens e histórias que se cruzam em uma pequena tabacaria no Brooklyn, em Nova Iorque.

A história gira em torno de Auggie Wren (Harvey Keitel), o dono de uma tabacaria nova iorquina por onde passam diariamente vários tipos de pessoas, tendo como único elemento em comum o fumo. O filme se divide em pequenos episódios apresentados numericamente como capítulos de um livro e identificados pelo nome das personagens. Há o escritor Paul Benjamin (William Hurt), cuja carreira degringolou desde o trágico assassinato da esposa em um tiroteio entre a polícia e assaltantes de banco. Deprimido e bloqueado, o escritor vaga pelo bairro até que é salvo de um quase atropelamento pelo jovem Rashid Cole (Harold Perrineau, Jr. – fãs de Lost, prestem atenção!). Agradecido, o escritor se oferece para abrigar por alguns dias o taciturno garoto, que se apresenta como novo na cidade, mas na verdade está em uma busca pelo pai. Há também Ruby, uma ex-namorada de Auggie, que reaparece depois de quase vinte anos dizendo ter uma filha com ele que precisa da ajuda dele. Há também o próprio Auggie, cujo grande interesse no momento é realizar uma venda de cigarros cubanos para qual ele economizou por 3 anos.

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Paul Benjamin conta uma anedota sobre cigarros na corte de Elizabeth I.

São pequenas histórias que, a princípio, não apresentam tanta atração se não forem analisadas com sob o prisma das miudezas, das pequenas coisas, da magia do cotidiano, que torna a vida de cada indivíduo tão única e especial, em oposição à grandiosidade de um episódio épico, no qual as particularidades se perdem. O filme é magistral em registrar esses pequenos tesouros que cada personagem – e cada um! – guarda.

Essa riqueza das minúcias é mostrada nos comportamentos de cada personagem, desde o hábito de Paul de fumar apenas uma marca de cigarros e no vocabulário rebuscado e irônico do jovem Rashid. Ela vai se exacerbando nos detalhes mais fantásticos de alguns personagens, como o tapa olho de Ruby, e o braço mecânico de Cyrus, pai de Rashid. E, mais ainda, essa preocupação com as singularidades é explicada com perfeição pelo hábito de Auggie de fotografar a mesma esquina, de frente para a sua tabacaria, pontualmente às oito da manhã. 4 mil fotos do mesmo lugar. Paul, o escritor, interpela Auggie dizendo que as fotos são todas iguais, e ouve a resposta:

Elas são todas iguais, mas cada uma é diferente de todas as outras. Você vê suas manhãs brilhantes e suas manhãs nubladas. Você vê sua luz de verão e sua luz de outono. Você vê seus dias de semana e seus finais de semana. Você vê suas pessoas de casacos e galochas e pessoas de camisetas e bermudas. Às vezes as mesmas pessoas, às vezes pessoas diferentes. E às vezes as pessoas diferentes se tornam as mesmas, e as mesmas desaparecem. A Terra gira em torno do Sol, e todo dia a luz do Sol chega na Terra de um jeito diferente.

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Paul e Auggie veem as fotos da esquina da tabacaria.

Essa é a grande magia de Smoke, que se dedica a esmiuçar os pequenos fios da vida de pessoas comuns. Essa é, aliás, a grande magia de Paul Auster, roteirista do filme e grande escritor estadunidense, cujos livros tem uma mescla quase imperceptível entre fantasia e realidade que prende o espectador de uma maneira hipnotizante. Auster é famoso pela sua combinação de elementos fantásticos no mais duro dos cenários, como na novela-fábula Mr. Vertigo, onde a epopéia de um garoto voador descreve alegoricamente a meteórica trajetória dos Estados Unidos no século XX. Mais ainda, seu romance Música do Acaso também mostra como a história de qualquer indivíduo pode tomar a mais impensada e incrível mudança de caminho graças a uma simples – e aleatória – mudança nos fios do destino.

A premissa do mero acaso, quando bem utilizada mesclada a uma verossimilhança mais típica do cinema, é uma rica fonte para boas histórias, e não é à toa que Paul Auster tem uma carreira considerável na sétima arte, sendo escritor de dez produções e diretor de quatro delas. Dentre elas, Smoke e uma adaptação de Música do Acaso.

A virtude de Smoke não se esgota no roteiro, mas se estende também ao trabalho de câmera. Os planos são geralmente abertos, de modo a mostrar as personagens e seu ambiente ao redor. Nunca fechado demais, mas também nunca aberto demais. Ainda que se passe em Nova Iorque, a cidade não é uma personagem principal, como em muitos filmes. A Grande Maçã é mencionada brevemente com planos da cidade entre os capítulos. No entanto, a história poderia se passar em qualquer lugar, pois o foco são as vidas, não os lugares. Mais ainda, a ausência de um lugar físico totalmente identificado – como o caso da oficina onde o pai de Rashid trabalha – dá um caráter mais onírico à narrativa.

Em outro extremo, a câmera também cuida de se aproximar delicadamente das personagens nos momentos em que elas começam a se abrir, se desabrochar, para o espectador, como na sequência final, em que Auggie narra com detalhes como ganhou sua primeira câmera fotográfica. Essa cena é tão pura e lírica que é reconstituída em preto e branco nos créditos, ao som de Innocent when you dream, de Tom Waits.

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Auggie Wren conta sua história de Natal, enquanto a câmera gentilmente se aproxima do seu rosto.

Smoke deu origem a uma continuação, Blue in the face (Sem fôlego, em português), também de 1995 e que também parte da mesma premissa de cruzar histórias de uma maneira mais lírica, adicionada ao peso da coincidência em oposição à racionalidade de um roteiro clássico. Ainda que já parta mais para a comédia, Blue in the face preza pelos pequenos detalhes de cada personagem, agora tomando um viés mais multiétnico, baseando as atuações no improviso, e partindo para uma análise do microcosmos do Brooklyn, um caldeirão fumegante de várias nacionalidades juntas. No entanto, ainda é uma boa mostra de como se fazem bons filmes a partir do pequeno, e não necessariamente do opulento, do grandioso, do imponente. Em tempos de efeitos especiais e blockbusters – que não são de todo ruins, é bom deixar claro – é ótimo ver essas histórias sublimes, nascidas de pequenezas e acasos, casadas com bons diálogos e uma bela trilha sonora.

E, que fique registrado, no momento Paul Auster está se dedicando a um curta, It was mine, enquanto Wayne Wang se dedicou a grandes bilheterias como Encontro de Amor, com Jennifer Lopez e Ralph Fiennes, e As Férias da Minha Vida, com Queen Latifah, mas nesse momento se dedica a um documentário sobre a introdução da gastronomia chinesa nos Estados Unidos. É uma experiência importante procurar a influência das marcas que Smoke e Blue in the face nos trabalhos de ambos.

Texto escrito pelo convidado Victor Cruzeiro, 25 anos, formado em Filosofia na Unicamp e atualmente cursa Audiovisual na Universidade de Brasília. Também é colunista do periódico Grão de Fato.