O hotel do alpinista morto (1979)

por Elias Fontele Dourado

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Oficial Peter Glebsky.

Muito pouco fala-se sobre o rico cinema estoniano. Antes de diretores como Veiko Õunpuu e Sulev Keedus, que hoje são relativamente conhecidos, a Estônia abrigou diretores como Arvo Kruusement e Grigori Kromanov, dois esquecidos e ousados realizadores do país báltico. Este texto tem o intuito de restaurar um pouco da alma de Kromanov, partindo da análise de uma de suas maiores obras.

“Não haverá, / Além da morte e da imortalidade, / Qualquer coisa maior? Ah, deve haver / Além da vida e morte, ser, não ser, / Um inominável supertranscendente, / Eterno incógnito e incognoscível!”, diz Fernando Pessoa. “Hotel do alpinista morto” é baseado no livro de ficção científica de detetive, de mesmo nome, dos conhecidos Irmãos Strugatsky, também autores de “Roadside Picnic”, livro que gerou “Stalker” de Tarkovsky. O poema de Pessoa transmite bem a atmosfera daquilo que a obra de Kromanov propõe. O filme é uma grande joia, uma raridade, não há notícia de outras ficções científicas no nível de “Hotel do alpinista morto” realizadas na Estônia.

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Glebsky chegando ao hotel do alpinista morto.

Há um equilíbrio fascinante entre a trama policial, a ficção científica e o suspense metafísico nessa pérola de Grigori. O desconhecido que nos cerca é um dos temas que nossa mente evoca durante os oitenta minutos de filme, que passam de maneira muito agradável, graças ao ritmo hipnótico e incitador. Muitos humanos, em sua petulância, acreditam entender tudo e aderem ao vitupério astronômico, do incognoscível ou pouco cognoscível em nossos limites. “Hotel do alpinista morto” questiona o trabalho policial e até onde vai a sua autoridade em assuntos que transcendem qualquer conceito hierárquico. A frase de Schopenhauer cabe bem neste questionamento: “Todas as pessoas tomam os limites de seu próprio campo de visão, pelos limites do mundo”.

Assim como um míope pode enganar-se ante o mundo que lhe é apresentado, um homem de visão normal pode equivocar-se justamente pela normalidade, que o priva de ver formas obscuras e inusitadas que podem explicar o real de outra maneira. Falemos um pouco sobre a trama do filme para essas ideias ficarem mais claras. Depois de receber uma ligação urgente, o oficial Glebsky dirige até o hotel do alpinista morto, local totalmente inóspito entre montanhas de gelo. Quando chega, não encontra nenhum crime, mas percebe algumas coisas estranhas. Decidido de que logo ia embora, após aproveitar um pouco da estadia, uma enorme avalanche desce das montanhas e deixa o hotel sem contato com o mundo exterior. Andando pelo hotel, Glebsky encontra um homem e entende que ele está morto, de modo que todos os hospedados viram suspeitos.

O que o oficial não entendia era que o “homem” não estava morto, estava apenas sem bateria, um robô residente de outro planeta. Onde imanente e transcendente se confundem, o policial toma a atitude tida como a mais racional, mas somente nos padrões de seu saber. Glebsky não ajuda os extraterrestres e tenta os prender sob acusação de terrorismo. Os seres de outro planeta, porém, queriam apenas ajudar a humanidade, conhecida pela história das guerras. O final é trágico.

É um filme muito apurado visualmente e interessante por ser, praticamente, um anunciador da estética oitentista: sombrio e trash. Dentro do hotel há muitas cores destoantes que criam um estado de psicodelia e anunciam o lugar insólito que é. Fora do imóvel, tudo é filmado com a bela luz natural que emana da neve, com exceção dos pequenos abajures em formato de bola que cercam o hotel.

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O hotel, visto de fora.

A fotografia escura, geometricamente apurada, e o vasto uso de espelhos transformam a obra em uma experiência hipnótica que permanece marcada em nossas mentes. Os espelhos, acredito eu, possuem uma finalidade poética, para anunciar as ilusões ali presentes e invocar outras esferas da realidade. O uso de flare também é frequente, e deixa o filme ainda mais hipnótico, transmitindo a ideia do etéreo, de algo que nos transcende, uma matéria para além de nosso saber.

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Um dos muitos planos com espelho no filme.

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Uma das cenas com flare.

A música é um espetáculo à parte. A belíssima trilha sonora de Sven Grünberg transforma “Hotel do alpinista morto” em um mistério ainda maior do já proposto pelas palavras. É interessante notar que o estilo muito lembra os sintetizadores sci-fi, sendo um filme de setenta e nove, que virariam marca registrada nas trilhas dos anos oitenta. As composições de Sven deixam a obra com um ritmo mágico e captam bem a frieza das montanhas e o estado inseguro dos personagens.

Kromanov optou por registrar as dúvidas epistêmicas dos personagens com a câmera diretamente neles, com planos mais fechados que abertos. A geometria do hotel é tão rica que pode nos confundir e exige um pouco da atenção. Há alguns planos-sequência rústicos, mas que muito contribuem para o ritmo do filme, como o subir de uma escada ou alguém escorregando em um corrimão. Alguns planos são inusitados como a própria trama, aspecto que contribui para a riqueza da linguagem.

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Glebsky no chão após os robôs se recarregarem.

Diante de um caso mais complicado do que aparenta, o oficial Glebsky nunca conforma-se com a perene dúvida que limitou e limita a atuação racional na epopéia dos milênios: o que um policial deve fazer quando confrontado por leis que o transcendem? O esvair da vida, para nós, fecha um ciclo, para outros,  pode ser apenas uma (des)continuidade, tal como um computador, que liga e desliga ante o seu criador.

Pôster - o hotel do alpinista morto

Pôster do filme.

Texto escrito por Elias Dourado (18 anos). Estudante de filosofia pela Universidade de Brasília, violinista pela Escola de Música de Brasília, poeta e tradutor no portal de cinema “MakingOff”.