O jogo da vida (1977)

por Thiago Campelo

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Todos os anos, a “Mostra do Filme Livre” homenageia algum cineasta nacional que tenha mantido uma carreira baseada na inventividade ou tenha, de certa forma, se mantido em certo cenário marginal. Nos anos anteriores, o evento fez questão de prestigiar figuras emblemáticas com Edgard Navarro, Andrea Tonacci e Carlos Alberto Prates e, na edição desse ano, o homenageado é o paulista Maurice Capovilla.

Capô, como é tratado, é tido como uma das figuras mais inventivas do cinema nacional no período dos anos 70. Seu cinema compartilha a mesma fonte que o cinema de Rogério Sganzerla: a boca do lixo e, antes disso, a temática terceiro-mundista tão em voga na época.

Talvez por ser um filme mais maduro, “O jogo da vida” não tenha a pungência das imagens de escárnio e denúncia tão características desse terceiro-mundismo, mas nem de longe deixa de trabalhar questões intrínsecas a ele. O filme é uma adaptação do romance “Malagueta, Perus e Bacanaço”, de João Antônio Ferreira Filho, escritor e jornalista paulistano, que narra um recorte na vida de três figuras – que dão título ao romance – marginalizadas numa jornada de golpes efetuados nas mesas de bilhar dos bares paulistanos.

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Perus (Gianfrancesco Guarniere) é um jovem operário que desiste da fábrica com a certeza de que ganhar dinheiro jogando seria muito mais proveitoso. Junto a ele, Malagueta (Lima Duarte), um mendigo já velho em busca do mínimo de conforto e Bacanaço (Maurício do Vale), um malandro inveterado que procura pela glória de um grande golpe. O trio se organiza para, cada um a sua maneira, tentar cumprir seus objetivos.

Como visto, os personagens são arquétipos das classes mais basilares da sociedade brasileira e seus dramas são também os dramas mais fundamentais da estrutura urbana de um país subdesenvolvido. Sob essa perspectiva é que Capovilla tenta construir ou mostrar o modo de vida, a adequação desses arquétipos à realidade de miséria que a grande metrópole brasileira pode oferecer. Se não há o apelo das imagens de contraste, de denúncia dessa miséria, há, por sua vez, uma percepção mais detalhada das nuances dessas classes sociais.

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O trambique, para as três personagens é um trampolim para a realização de seus objetivos, mas nem de longe é intrínseco à sua natureza. O que se desenha é uma artimanha para driblar as agruras da vida no subdesenvolvimento, ao mesmo tempo em que, essas dificuldades se mostram intransponíveis. Tal exemplo é destacável na cena em que Perus é agredido por um malandro mais antigo e de maior categoria. As próprias estruturas da miséria gerenciam a sua manutenção com uma autonomia que aparenta não ter relações sociais mais profundas.

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De fato, “O jogo da vida” não aborda um discurso enviesado do embate entre classes, muito pelo contrário, o problematiza desde os primeiros planos; sobretudo na figura de Perus e nas assembleias dos operários. A verticalização das relações de classe é deixada de lado e é possível ver a pobreza e a miséria por elas mesmas. O que é apresentado é o organismo do próprio subdesenvolvimento.

É de destaque, em primeiro momento, ainda tratando de questões pertinentes ao enredo, o enfoque que se dá sobre as figuras de pobreza. O filme de Capovilla possibilita a abertura de um local de fala dessas personagens da pobreza e não assume diretamente a postura de portador do discurso para libertação das massas.

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No que tange o caráter mais formal do filme, é destacável a atuação de Maurício do Valle, na época, figura já carimbada de grandes filmes da cinematografia brasileira. Bacanaço, pela pompa e profundidade dada por seu interprete, acaba por roubar a posição de protagonista que é desenhada sobre Perus. O que não diminui a sua importância. Em realidade, o que acontece, é a simbiose entre Malagueta, Perus e Bacanaço, que atuam – cada qual em sua especialidade – como organismo sobrevivente da cidade de São Paulo. Isso se dá até mesmo na construção da mise en scene, onde estão sempre os três juntos, posicionados de maneira equilibrada em cada quadro. Capovilla acerta muito ao imprimir esse tipo de percepção sobre a construção do espaço diegético do filme.

Outro ponto é a montagem primorosa de Maurício Wilke que dá espaço para pontos de silêncio extremamente importantes para construção do drama dos três protagonistas, bem como a inserção de fragmentos de memória de cada um deles. Esses fragmentos, por sua vez, não são flashbacks, eles não existem para mostrar o passado ou explicar suas origens; estão lá como recortes de uma memória muito mais sensorial comum a todas as personagens e comum ao próprio filme. Os problemas de Malagueta são absorvidos por Perus e Bacanaço e assim por diante. Um ciclo de experiências negativas que os levaram subjetivamente a sequencia final, o grande duelo na mesa de sinuca.

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Essa última sequência por si só é memorável. Dib Lutfi é responsável por um dos melhores planos-sequencia do cinema brasileiro. Construindo um clima de tensão e angustia ao mesmo tempo em que agracia a visão com um balé imagético em torno de uma mesa de bilhar, a câmera para e se detém sobre a espera ou a tacada de Malagueta ou de seu adversário, possibilitando uma leitura muitas vezes dialética de cada enquadramento.

“O jogo da vida” é uma grande obra do cinema nacional, uma aula de direção de atores e de perfeccionismo fotográfico. É importante tanto pelo viés técnico quanto pela guinada a uma análise mais profunda e menos maniqueísta sobre as relações de classe e o subdesenvolvimento brasileiro.