Presidente (1919)

por Gustavo Fontele Dourado

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Carl Th. Dreyer.

Sempre é um grande aprendizado descobrir e rever as obras dos grandes mestres. Mais interessante ainda é conferir a primeira obra da trajetória de um gênio da sétima arte no seu grande campo de destaque: a direção cinematográfica. Carl Theodor Dreyer é uma dessas pessoas que se encontram no cânone da “arte do século XX” e o seu primeiro filme é Presidente (1919) ou também conhecido por O Juiz. Um longa metragem com aproximadamente 80 minutos baseado no livro do popular escritor austríaco do século XIX, Karl Emil Franzos – Der President (1884).

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Montagem de frames a partir de sequências chaves do filme.

“Presidente” tem um significado arcaico no continente europeu que é o de juiz chefe da corte, aquele que preside a hierarquia máxima de um tribunal e também a pessoa que fará o julgamento final. A história se passa na virada do século XIX para o XX em uma cidade misteriosa e onde Victor von Sendlingen, interpretado por Halvard Hoff, é o “presidente” e pertencente à uma linhagem de aristocratas decadentes – os Sendlingen.

Ao longo do filme acompanhamos três momentos da vida adulta de Victor, filho de um casamento indesejado e proveniente do descuido entre seu pai, Franz, e sua mãe vinda de uma baixa classe social. No leito de morte de seu pai, Victor prometeu para ele jamais criar uma aliança com uma plebeia senão isso trará a ruína. Após descobrirmos o passado de Victor, as suas origens e os seus vínculos – testemunhamos o conflito dele como o “presidente” que deve condenar sua filha Victorine à morte.

Ela era até então desconhecida e ilegítima, originada de uma relação despretensiosa entre Victor e uma plebeia renegada que morreu ao dar a luz à Victorine, até então Victor não sabia da existência dela. Sua filha cometeu um infanticídio contra o próprio filho e assim há o conflito do filme: as escolhas e as decisões de Victor entre a vida na corte, sua filha e as promessas que fez no passado.

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Victor.

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O passado do pai de Victor.

Desde a década de 1910, o cinema dinamarquês lidava com temas impactantes em filmes como Den hvide Slavehandel (1910), Morfinisten (1911) e Opiumsdrommen (1914).  Presidente (1919) está em confluência com um estilo de produção que já estava com grande destaque mundialmente e também com a história de vida de Dreyer.

Após fazer inúmeros intertítulos para filmes, ter feito trabalhos como roteirista e montador, Dreyer finalmente teve a primeira oportunidade para se descobrir no cinema como diretor. Percebe-se o grande talento de Dreyer para a construção densa, cheias de fardos nas existências de suas personagens e dilemas morais inquietantes como os de Victor que deve escolher entre a vida da filha ou a ética da justiça judicial.

Característica poderosa do filme é o retrato da maldição da aristocracia: criar vínculos com o outro, com o que é considerado inferior e uma aliança feita por deslizes. A decadência dos Sendlingen talvez venha do descuido e talvez do excesso de compaixão algumas vezes. Victor já estava amaldiçoado e o que resta é a clemência ao castelo destruído de seus antepassados, a ruína. A sua necessidade é o transcendente inalcançável, uma fuga inútil da destruição. Salvar sua filha por compaixão lhe trouxe a condenação, isto é, ele mesmo se destruiu por atitudes repressoras com as pessoas vindas de origens mais humildes e em especial as mulheres. Ele abandonou a mãe de Victorine e trouxe um ciclo de atos trágicos que agora é de seu conhecimento.

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Victorine, filha de Victor.

Como primeiro contato na chefia estética de um filme, apesar de uma fibra pulsante nas suas escolhas, Dreyer teve como carência uma clareza na articulação dos seus flashbacks (um recurso que demonstra a ousadia e a sua ambição como cineasta já naquela época) e provavelmente um mote que aproveitasse melhor as descobertas chocantes de Victor na primeira parte do desenvolvimento da obra e um tratamento rítmico mais apurado. A segunda parte e o final trazem o que há de melhor na tensão para salvar a vida de Victorine e ao mesmo tempo que ele (Victor) não seja descoberto pela justiça ao sacrificar sua carreira para que a filha continue no mundo. Victor já está condenado pelo seu peso na consciência, então ele opta em apenas se destruir e não pela morte da filha.

A segunda parte necessitava de uma conexão mais organizada na montagem, mesmo com os esforços de Dreyer para fazer um filme que se destacasse e o seu empenho na função de diretor. Ele disse que esteve muito orgulhoso quando finalizou suas escolhas na filmagem, porém não ficou satisfeito ao ver o corte final – ele criticou a estrutura de junção narrativa entre o passado e o presente e o avaliou como pouco eficaz. Esta avaliação já foi feita muitos anos depois com sua carreira e consagração já difundidas no mundo do cinema. Vale a pena conferir o filme, porém recomendo primeiro os grandes clássicos de Dreyer para os novatos.

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Bela composição.

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O passado e o fardo de gerações.

Dreyer desde sempre tinha uma capacidade de autocrítica poderosa e sempre uma ambição excepcional com boas escolhas, o que provocou um amadurecimento rápido e que se consolidou em seu primeiro longa-metragem de alto nível em poucos anos: Mikael (1924). Dreyer precisava se descobrir no cinema e também usá-lo para se conhecer melhor. Presidente (1919) foi uma espécie de estudo de muitos elementos de seu histórico similares ao de Victor von Sendlingen.

Dreyer foi um filho ilegítimo de um casamento indesejado, ele foi adotado por seu padastro de mesmo nome: Carl Theodor Dreyer e, de acordo com o costume dinamarquês, não é colocado algo parecido como o “jr.” no nome. Já desde o primeiro filme percebemos a inclinação religiosa de Dreyer em suas personagens com fortes influências da educação rígida vinda de sua família – elementos que também encontramos na formação e na cultura de Victor.

Na época, Dreyer teve muita liberdade na produção e no processo de criação. O filme não recebeu muita atenção e teve recepções misturadas da crítica. Mesmo com uma indiferença na promoção do filme – apesar de ser exibido em vários países na época, o estúdio ofereceu mais chances para Dreyer e reconheceu o seu esforço.

O que pareceu uma combinação audaciosa e em excelente medida entre uma vida cheia de acontecimentos marcantes (os antecedentes biográficos de Dreyer) com a coragem e a vontade para a inovação, o filme não alcançou em todos os seus aspectos uma realização totalmente feliz. Entretanto, a obra se destaca em seu período pela densidade psicológica que sentimos ao experienciarmos os problemas morais de Victor e à abordagem poderosa de Dreyer na condução dos elementos cinematográficos com ângulos, contrastes de luz, movimentação de câmera incríveis e a encenação sofisticada demais para a época. Dreyer nos mostra novos horizontes.

Dreyer usou como referência o pintor dinamarquês Vilhem Hammershøi para mostrar muitas cenas em interiores, o uso de sombras e o perfil das pessoas dentro dos quadros. Culto e erudito, Dreyer buscava continuamente seus ancestrais artísticos e a história da arte na Dinamarca como no curta Thorvaldsen (1949), sobre o escultor dinamarquês Bertel Thorvaldsen.

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“Interior, Strandgade 30” (1909), de Vilhem Hammershøi.

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“Bedroom” (1890), Vilhem Hammershøi. Outra referência pictórica foi o pintor estadunidense James Abbott McNeill Whistler.

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Cena do filme.

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Outra cena.

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Mais uma cena. Não é à toa que David Bordwell defende Presidente (1919) como uma das obras mais inventivas em mise en scene do cinema mudo.

Dreyer usou de uma realidade que ele conhecia muito bem e de experiências pessoais talvez para fazer uma crítica à aristocracia? Ou é uma tragédia do fardo das gerações? Victor carrega a aristocracia próxima de seu fim e com a sua morte, uma maldição acaba com a esperança de uma nova vida para a sua filha. Se Victor não pode se libertar, ele ajudou a ajudou para isso. A doença dos seus ancestrais termina junto com a queda do último aristocrata no castelo em pedaços, do qual só serve agora para crianças brincar.

O que define ou quais elementos que se definem como mais importantes para um diretor já criar uma obra-prima logo em sua estreia? Obviamente há casos como Orson Welles e Satoshi Kon e há diretores que se consagram mais pela regularidade de suas carreiras do que em uma aposta única. Dreyer tinha bastante referências tanto artísticas quanto filosóficas, ele já tinha trabalhado quase uma década no cinema e portanto conhecia o meio. Ele também tinha um bom livro para adaptar e uma bagagem de vida impactante. Mesmo que sua primeira obra não tenha alcançado a excelência que desejava, sua longa carreira e no entanto, com apenas uma dúzia de filmes, vingou e influenciou uma geração de cineastas que buscavam o transcendental, o austero e o sublime. Antonioni, Bergman e Bresson devem muito a Dreyer.

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Bertel Thorvaldsen fotografado por um daguerreótipo. Uma das primeiras fotografias feitas na Dinamarca.

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Vilhem Hammershøi.

Provavelmente a função de um diretor exige que certas habilidades precisam ser focalizadas ou internalizadas para que a coordenação e a comunicação estética seja mais impactante. E isso varia de acordo com os objetivos do diretor e quais habilidades e quais temáticas serão formadoras do seu discurso e do seu diálogo. Mesmo que um diretor de fotografia faça 30 filmes como tal, não é garantido que a execução na função como diretor seja perfeita.

Ao compararmos o primeiro filme de Dreyer com obras-primas absolutas não só do cinema, mas da arte de modo geral, como O martírio de Joana D’Arc (1928), A palavra (1955) e Gertrud (1964), sua estreia como diretor realmente deixa bastante a desejar. Porém para evitar anacronismos e não obscurecer sua primeira obra, deve-se considerar que é um filme importante para o seu contexto e uma tentativa acima da média para diretores estreantes na direção. A persistência de Dreyer o coloca em uma lista de poucos cineastas que provocaram o cinema do início ao fim em suas carreiras como Fritz Lang e Luís Buñuel.

O primeiro passo na direção é fundamental para descobrir se é realmente do gosto da pessoa o trabalho com isso e também para a construção de uma estética, o aprendizado de um estilo. O gênio de Dreyer muitas vezes nomeado como o austero e, que futuramente encontraria paralelos com Bresson e Bergman, expõe que a ambição precisa ser prática e o primeiro filme não define para sempre o destino de um cineasta.

Se há sinas e obstáculos que podem se levantados na confecção do primeiro filme, a cautela e a seriedade (no caso de Dreyer) encaminharam muito bem sua forte ambição e a vontade de deixar sua marca no cinema. Para isso ele precisou se conhecer e também se aperfeiçoar na articulação de todas as suas ótimas ideias em execuções admiráveis e que perduram nas mentes de muitos cinéfilos. Está longe de ser um filme de segunda categoria. Recomendado, 3 1/2 estrelas de 5.

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Carl Th. Dreyer.

Bibliografia consultada:

CTD: carl th. dreyer.dk, http://english.carlthdreyer.dk/Films/Praesidenten.aspx, acessado em 17/05/2015.

BERGAN, Ronald. 2009. Cinema. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

COUSINS, Mark. 2013. História do Cinema, Dos Clássicos Mudos ao Cinema Moderno. São Paulo: Martins Fontes Editora.

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Nota: o filme usa em algumas cenas do alívio cômico que cachorros e gatos podem trazer em cena. É interessante perceber que isso já era usado em 1919 e provoca reflexões de onde vieram certos costumes cinematográficos muito usados hoje em dia, eles podem ser muito antigos e já mostravam bastante utilidade e eficiência. O tom cômico das cenas com esses animais traz diversidade interessante para esta obra que já é predominantemente sombria.

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Os três cachorros e o gato acompanham a jornada de Victor.

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Os três cachorros crescidos e em um momento de grande alívio cômico durante uma cena de casamento.