Como era gostoso o meu francês (1971)

por Gustavo Menezes

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O indianismo não é tema novo no cinema brasileiro. Já no início do século XX, tratavam do assunto documentários como No Paiz das Amazonas (1922), de Silvino Santos. Para os filmes de ficção, o romance indigenista de José de Alencar foi a inspiração principal. Na segunda metade dos anos 10, o italiano Vittorio Capellaro dirigiu uma adaptação de Iracema (1919) e duas de O Guarani (1916 e 1920). As duas obras de Alencar, seminais, seriam readaptadas outras tantas vezes ao longo do século. Até o pai do cinema brasileiro, Humberto Mauro, passou pelo tema no seu O Descobrimento do Brasil (1937) além de inserir um trecho documental em Argila (1940) dedicado ao estudo da estética marajó.

Mas nossos filmes indianistas em geral adotaram a perspectiva do homem branco em contato com os “selvagens”, os “não-civilizados”. Nessas histórias, o índio encarnava o estereótipo do bom selvagem – o ser ingênuo e ignorante, mas de bom coração. Muitas vezes essa ingenuidade vinha acompanhada por uma erotização, a exemplo da própria Iracema, imortalizada no imaginário nacional como “a virgem dos lábios de mel”. Quando não, sobretudo por influência do cinema americano, o índio representava uma ameaça: o cruel canibal, o violento primitivo. Aí veio o Cinema Novo, que rompeu com os estilos consolidados e propôs uma revisão, em diversos aspectos, do país; o que gerou marcos como Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, e Como Era Gostoso o Meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos.

Este filme conta a história de um mercenário francês que vem ao Brasil como prisioneiro e acaba capturado por uma tribo de tupinambás no final do século XVI. Seus captores andam nus, falam uma língua estranha, se pintam com urucum e, pior, são canibais (daí o título). Mas, longe do que se possa pensar, o francês não é o típico bravo herói que precisa lutar contra os índios maus. Tampouco é o colonizador que impõe seu modo de vida aos incivilizados. Ao contrário, é o francês quem adota a cultura tupinambá – aprende a falar sua língua, passa a andar nu e, informado que será devorado num ritual antropofágico, prepara-se de acordo com os costumes da tribo. A maior parte dos diálogos do filme, vale notar, são em tupi – e escritos por ninguém menos que Humberto Mauro.

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Com o elenco nu a maior parte do tempo, sem que seus corpos sejam enfocados de forma erótica, há uma ruptura com a imagem do indígena sensual e uma naturalização da nudez. Assim, o espectador acaba se acostumando, em lugar de se chocar ou se excitar.

A obra também desconstrói o mito do “bom selvagem”, ao mostrar os tupinambás discutindo estratégias de guerra contra os tupiniquins ou negociando com os europeus. Esses índios têm plena noção do que acontece a seu redor. Trata-se de um feito raro na cinematografia nacional.

Ao conferir aos tupinambás uma legítima representatividade linguística e corporal e fazer com que os personagens europeus fiquem nus e falem tupi, o filme coloca os índios acima dos colonizadores, os empodera. Além disso, inverte a lógica de representatividade dos colonizadores culturais. É comum que, em filmes americanos ou europeus, as minorias étnicas sejam vistas como “intercambiáveis”. São recorrentes os casos de atores espanhóis interpretando brasileiros, mexicanos interpretando indianos, etc.. Normalmente, essas representações vêm recheadas de estereótipos e preconceitos.

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Aqui, os índios é que não conseguem diferenciar os franceses e os portugueses – e é ótima a cena em que os tupinambás mandam os prisioneiros falarem para que consigam identificar suas nacionalidades pela forma como soam, já que visualmente são iguais. Também é bom notar que o ator que faz o francês, Arduíno Colassanti, é de origem italiana. Porém, nem todos os atores que interpretam os tupinambás são de fato índios. Seboipebe, que se torna companheira do francês, é vivida por Ana Maria Magalhães.

A visão eurocêntrica é ironizada desde o início pelo roteiro, que abre com a leitura em off de uma carta enviada do Brasil para a França em que um certo “almirante Villegagnon” descreve uma série de fatos que são simultaneamente desmentidos pelas ações que vemos em tela. Os indígenas “sem nenhuma cortesia nem humanidade” e “verdadeiros animais com figuras de homens” recebem os franceses de forma dócil, estampando sorrisos e entregando presentes; e o personagem principal, que na carta foi “liberto a fim de que pudesse defender sua causa, mas, ao ver-se livre, (…) jogou-se ao mar”, é na verdade acorrentado e atirado ao mar por seus conterrâneos.

Em consonância, os costumes dos tupinambás, por mais espanto que causem ao europeu, são retratados com a maior naturalidade – sobretudo a antropofagia. Nada de tons escuros na fotografia, close-ups em rostos ameaçadores ou acusações de selvageria irracional. O canibalismo é uma prática comum e natural para eles, e todos – incluindo aquele que será devorado, ainda que ofereça resistência – o aceitam.

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Pode-se dizer que Como Era Gostoso o Meu Francês, além de uma resposta imaginada do tupi ao europeu, é sobretudo uma resposta de um cinema colonizado a um cinema colonizador. Ou, como gosto de chamar, colonialismo às avessas.