A sala de música (1958)

por Elias Fontele Dourado

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Huzur Biswambhar em seu auge.

Um grande candelabro tremula no espaço. Carrega consigo toda pompa e glória de uma nobre família. “Jalsaghar”, de Satyajit Ray, uma das suas muitas obras-primas, parece um filme fácil e com pouco desenvolvimento do enredo. Essa pérola visual e musical, porém, possui uma riqueza estilística muito avançada e uma estória brilhantemente desenvolvida pelas sutis metáforas visuais. É desta maneira que somos introduzidos ao filme, com um antigo candelabro meneando para lá e para cá, uma imagem tão simbólica e carregada de emoção que, ao final do filme, temos uma profunda epifania sobre o seu significado. Após essa introdução, uma fusão apresenta-nos ao personagem principal. Huzur Biswambhar, o atual representante de uma riquíssima família e senhor de terras habita o palácio de seus ancestrais que, no início da película, parece decadente e desolado, assim como Huzur. Logo entendemos as razões de sua solitude com um abrupto flashback que mostra-nos o senhor de terras um pouco mais jovem e sorridente.

O filme parece começar devagar e com poucos fatos relevantes, tal impressão parece-me proposital, uma vez que trata de um homem rico que nada faz além de dar grandes festas e preservar seus bens materiais. “Jalsaghar” é o ‘Cidadão Kane’ da Índia, uma das maiores representações da queda de um aristocrata que o cinema já viu. Toda brandura do início é convertida na tristura do meio para o fim. O ritmo, contudo, prossegue brando em estilo, mas fervilhando no interior de Huzur, adicionando ao filme uma carga emocional mais catártica, envolvente. Quando lemos o título do filme parece que vamos assistir um musical ou algo do gênero. Sim e não, a película de Ray mostra-nos o que há de melhor na música indiana, seja em dança ou em harmonia. Uma sala de música em um palácio é um luxo que mesmo os proprietários de tal imóvel têm dificuldade em ter, Huzur é detentor de uma das mais nobres. Seu amor pela música é colossal, a ponto de não fazer muito mais além de apreciá-la em seus longos dias, mas amor maior que a música em geral é o seu relacionamento com a harmonia, seja de som, seja de classe.

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Um dos concertos na sala de música de Huzur.

Os grandes conflitos do filme são os problemas de um burguês que não consegue viver sem música. Para mim é uma grande metáfora, o coração de Huzur só está em paz quando enxerga a harmonia nas coisas, inclusive a social, a estabilidade de seu status. A sala de música é seu ego, o templo de seus antepassados e seu maior orgulho. Dentre as tantas metáforas que o antigo candelabro evoca, uma delas é a instabilidade de seu interior, que balança para lá e para cá como uma folha ao vento. A sala, portanto, por ser representação maior de seu estado interno, de seu ego, pode inflar e aviltar em qualquer momento. É com a apresentação de vários músicos e dançarinos em sua nobre sala para seus amigos aristocratas que Huzur encontra a paz, através da exibição e conclusão de que sua família continua rica e poderosa.

No meio do filme, entendemos as razões da decadência do palácio e a tristeza do nobre senhor de terras, uma situação devastadora com sua família fez com que ele se isolasse de tal maneira que muito tempo foi transcorrido. O palácio começava a juntar poeira, teias de aranha, assim como no interior de seu dono, que também sofria apertos financeiros, uma vez que fez concertos caríssimos em sua sala com músicos da mais alta estirpe.  A sala de música, assim como seu ser, perdiam-se entre o pó e o tempo, seu ego estava aviltado e sua consciência lúgubre. São esses fatores, resumidamente, que ocorrem até quase a primeira hora de filme, de modo sempre sutil, com muito mais imagens que palavras. Os admiradores do cinema indiano, geralmente, conhecem artistas como Satyajit Ray, Ritwik Ghatak, Bimal Roy, Adoor Gopalakrishnan e Mehboob Khan. Com a exceção deste último, todos os outros são diretores não tão divulgados na própria Índia, onde o gosto pelos filmes bollywoodianos imperam massivamente, assim como hollywood nos Estados Unidos. Os quatro primeiros citados foram, talvez, os maiores representantes do cinema novo indiano, uma onda que ia por caminhos dramáticos contrários aos de bollywood, principalmente aos gêneros do melodrama e do musical.

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Satyajit Ray e Akira Kurosawa.

Não bastasse a profunda e fantástica estória que Ray nos conta sobre a decadência de um rico senhor de terras, ele também faz, ao meu ver, uma sátira mordaz ao estilo cinematográfico dos filmes bollywoodianos, que usavam os números musicais, em sua maioria, como um alívio ou uma apresentação normal. Ray utiliza os concertos de maneira mais profunda, de modo metafórico, poético, para mostrar os sentimentos de um alto burguês frente aos seus “amigos”. Toda essa apuração e perfeccionismo metafórico de Ray em nada devem ao perfeccionismo executado nos números musicais, os músicos são, de fato, de alta qualidade e deixam o filme com cenas musicais até mais belas que as do cinema bollywoodiano. A brandura apresentada no início de “Jalsaghar” também é um aspecto contrário ao comum do que a indústria indiana produzia na época. Vale lembrar aqui o que Akira Kurosawa falava sobre Satyajit Ray, dizia que nunca se ter assistido um filme dele é como viver no mundo sem alguma vez ter visto o sol ou a lua. Os dois artistas, que foram peças fundamentais para o novo cinema de seus países admiravam-se mutuamente, e com razão.

Depois dos fatores apresentados até a primeira hora de filme, partimos para o seu ápice, os últimos trinta minutos. Huzur, após tanto tempo mofando junto aos seus móveis e ter fechado sua sala de música, ou seja, ter lacrado o seu ego, fugido por um momento de qualquer aparição pública, recebe um convite de um de seus “amigos” para comparecer ao concerto que aconteceria em sua sala de música com o grupo musical mais cotado que se pode conceber. Ele recusa o convite, com o pretexto de que não tinha vontade de sair devido aos fatos recentemente ocorridos com sua família. Obviamente que ele, ao receber um convite desses, tem o seu ego aceso novamente, não poderia aparecer publicamente como um mero convidado. Com seu interior inflamado mais uma vez, Huzur levanta de sua poltrona e vai até a sala de música, completamente empoeirada, assim como seu ser.

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Huzur reabre a sala de música.

O nobre viu aquele convite como um desafio e logo tratou de convidar o mesmo grupo tão cotado para apresentar-se em sua sala de música, não na de seu “amigo”. Huzur, porém, sofria de alguns problemas financeiros. Sem se importar com dinheiro, o senhor de terras mais nobre da região reabre a sala de música, tira o candelabro de debaixo dos panos e volta aos impulsos exibicionistas. É depois desses acontecimentos que, para mim, surgem as sequências mais belas do filme: o fantástico número de música e dança e as cenas logo após o concerto. O número musical é impecável e longo, são mais de dez minutos, um verdadeiro concerto de um estilo totalmente diferente do nosso. A sequência foca na alternação entre a fantástica dançarina com os músicos ao fundo e a reação dos aristocratas que os assistem. Um deleite maior que o comum é perceptível no rosto de Huzur que, aliás, é magnificamente interpretado pelo ator Chhabi Biswas.

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Huzur em deleite com o seu último concerto.

Ao término do concerto, os aristocratas aplaudem enormemente. O “amigo” de Huzur, que convidou-lhe para ver esse mesmo concerto em sua sala de música, estendia um grande bônus financeiro para a dançarina. Huzur impede ele de entregar tal presente afirmando que é o anfitrião que tem a honra de oferecer o primeiro presente. Uma cena muito forte, acompanhada pela esplêndida atuação de Biswas, talvez a maior representação do ego inflado de Huzur, e não poderia ser mais lógico, afinal, a sala de música, seu ego, acabara de, talvez, mostrar o seu maior evento em anos.

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Huzur impede o “amigo” de dar seu presente.

Logo após o fantástico concerto, temos a sequência que eu considero a mais bela e carregada de metáforas. Huzur está embriagado em sua sala de música enquanto um de seus dois servos aparece. Ele mostra ao subalterno toda sua nobre linhagem, apontando para os quadros da sala de música, revelando quem foi seu pai, seu avô, bisavô e até tataravô, todos muito ricos e bem sucedidos em vida. É depois dessa apresentação egocêntrica que temos a belíssima cena. De repente, as chamas do antigo candelabro se apagam, de maneira inexplicável. Essas chamas, para mim, representam as almas de seus antepassados, ou a memória. Elas sumiam, como se estivessem negando Huzur e a sua má administração do palácio que fez levá-lo a ruína, sumiam como se subitamente não aprovassem mais os atos do senhor de terras. Durante o filme, nas cenas da sala de música, Huzur olha para o candelabro de maneira desconfiada, como quem aguarda a aprovação de algo ou algúem. Depois dessa fantástica cena, acompanhamos o fim trágico de Huzur, um homem que viveu para mostrar todos os seus valores materiais e seu amor pela harmonia que, fatalmente, acaba desaparecendo nas horas mais sombrias.

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Huzur no ápice de seu orgulho.

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Huzur assustado com o apagar das chamas.