Harmada (2003)

por Daniel Lukan

Cineasta homenageado na Mostra do Filme Livre de 2015, o cineasta brasileiro Maurice Capovilla é reconhecido por defender a expressão livre dentro do meio cinematográfico, além disso, possui notável trabalho no meio como crítico, professor, assim como suas realizações para o meio televisivo. Depois de seus maiores sucessos, produzidos entre o final da década de 60 e ao longo da década de 70 (Bebel, Garota Propaganda; O Profeta da fome; e O Jogo da Vida), o diretor retornou no início dos anos 2000 com o lançamento de Harmada.

No epílogo de sua história como diretor de cinema, após um hiato de pouco mais de um quarto de século do seu penúltimo trabalho na direção de um longa de ficção – O jogo da vida (1977) – Capovilla transformou o romance homônimo de João Gilberto Noll numa obra cinematográfica. O que em termos temporais parece ser um lapso, de forma alguma suscitou danos à capacidade produtiva do diretor; afinal, não significa que ele estivesse totalmente parado. No filme, lançado em 2003, Capovilla não faz apenas uma adaptação (ipsis litteris) da obra do escritor gaúcho, mas efetua todo um processo de refinação e adequação à linguagem cinematográfica que amplifica o desenvolvimento da incerteza e da fragilidade – notavelmente trabalhados no romance – como elementos fundamentais na atmosfera metalinguística que circunda os protagonistas, o que acontece tanto da obra literária quanto do filme.

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Rico de símbolos e alegorias, aos quais o espectador precisa estar atento e disposto a decifrar, o filme narra a história de um ‘ator’ que não é definido e delimitado por um nome, apesar das diversas oportunidades que se tem para uma identificação, esse personagem (interpretado por Paulo César Peréio) vive como uma incongruência indefinida na crise central de sua, há muito tempo, decadente carreira. Essa indefinição possui a sagacidade de, ao não isolar a história como um caso único de determinado indivíduo, tornar-se geral e, ao fazer isso, retratar com maior abrangência a negligenciada situação das artes e da cultura – tanto em seu acesso quanto em sua procura; sobretudo num cenário nacional; obviamente que no caso representado no filme esse descaso ganha enfoque na arte teatral, contudo, ao analisarmos com maior afinco é certo que podemos fazer uma relação com a problematização do narrador proposta no ensaio O narrador, de Walter Benjamin, e, a partir disso, definir esse ‘ator’ de caráter fugaz como uma representação do narrador que, carente de experiência e de memória, vive a crise da narrativa. Assim, esse protagonista que vive histórias desconexas, em meio a grandes lapsos temporais e sem grandes vicissitudes e tramas é um produto de artes narrativas que não possuem o quê falar. Seu caráter é indefinido, porém, sua atividade delimitada (teatro). No entanto, sua indefinição se expande, o descaso e a negligência são para com toda a situação artística.

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Outro aspecto interessante de observar em Harmada é o modo como Capovilla consegue criar uma atmosfera lúdica em meio a um contexto, muita das vezes, deplorável. Seus apetrechos superficiais contrapõem a um modelo de cinema baseado na verossimilhança e nos nexos lógicos e psicológicos, suas dúvidas e interrogações que compõem uma tralha indefinível na qual tempo e espaço possuem (não completamente perceptíveis) descontinuidades. O filme começa sem sabermos muito bem quem é o suposto protagonista e, ao familiarizarmo-nos com ele, seus companheiros de repente desaparecem. Nesse corte abrupto e sem qualquer explicação na composição dos personagens em cena, quase nada se sabe até que, já no final, aparece Cris – a menina que o ‘ator’ carregara no colo no princípio do filme. As duas situações que estão entre esse início com companheiros que compõe uma trupe de atores teatrais e o final acompanhado da filha de uma dessas companheiras são também bastante incoerentes em alguns aspectos: o ‘ator’ já num estado de indigente consegue subitamente um emprego de datilógrafo e num corte está casando com a sobrinha do seu chefe, o fim do casamento (que acaba também num piscar de olhos) leva o personagem a viver num abrigo/asilo.

A partir da chegada ao abrigo talvez seja o único momento em que a história tome um percurso mais lógico e palpável. Lá que o ‘ator’ encontra Cris, a filha de sua antiga companheira (também atriz) e com quem suas relações foram abruptamente rompidas. Ele sai de lá acompanhado de Cris e a partir daí todo o absurdo, superficialidade e incerteza desse universo narrativo se unem em volta do mais forte indício metalinguístico sobre a que corresponde a produção: a capacidade que a arte possui de estabelecer embates contra a miséria do mundo. O ‘ator’ é a arte decadente e negligenciada, Cris é a miséria do mundo, o absurdo e a incerteza são os estados atuais das artes (teatro) e daí tudo passa a girar em torno da estruturação e formação de Cris como uma atriz. A expressão de suas tristezas, infortúnios e misérias não se dará mais por meio da violência e da loucura, mas por meio da arte e da representação.

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Harmada é um filme extremamente singelo que ressalta as particularidades do teatro sem falhas e, no entanto, não o faz negligenciando sua linguagem própria que é o cinema. Não se trata de teatro filmado, mas de um filme teatralizado. Ou seja, seu compromisso é com a arte; o filme de Capovilla aborda como a linguagem artística (como um todo) é incerta, frágil e por vezes superficial, mas ao mesmo tempo, agudamente forte e deslumbrante. Sua representação caótica, densa e parada traz a tona referências básicas, sobretudo no que concerne à representação do teatro dentro do cinema, tais como: O Sétimo Selo e Depois do Ensaio, de Ingmar Bergman. Contudo, referências à parte, vale ressaltar a criatividade que circunda essa obra que possui o poder de nos postular interrogações sobre o que é a representação, qual a sua preocupação e, de fato, o que ela diz e interfere no mundo.