Whisky (2004)

por Thiago Campelo

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Catálogos, almanaques, livros inteiros ou micro capítulos de história do cinema destinados à América do Sul, via de regra, resumem toda a região em três ou quatro países e tendem a considerar a filmografia uruguaia irrelevante. De fato, não se pode negar que durante todo o século XX o Uruguai não produziu mais do que 30 filmes. Entre 1898, ano de lançamento do primeiro filme do país, uma vista chamada Carrerra de bicicletas en el velódromo de Arroyo Seco e 1993, com o longa-metragem de estreia de Beatriz Flores Silva, La historia casi verdadera de Pepita la Pistolera, a realização de filmes era raríssima.

De meados dos anos 90 para cá, o cinema uruguaio ganhou certo gás e a produção cresceu um pouco. O início do século XXI, no entanto, deixou claro que, apesar de ainda serem lançados poucos filmes por ano, o país começava a gerar um cinema mais consistente e de maior repercussão internacional por mais que a baliza estrangeira não seja o único método de avaliação adequado.

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Dessa maneira é que Juan Pablo Rebella, falecido em 2006, e Pablo Stoll são, sem sombra de dúvidas, os principais nomes dessa guinada cinematográfica do paisito. 25 Watts (2001) e Whisky (2004), dois primeiros longas-metragens da dupla, são considerados pela crítica dois dos melhores filmes da história do cinema uruguaio. O primeiro conquistou os festivais de Rotterdam, Havana, Gramado e outros mais; o segundo foi premiado em Cannes, Guadalajara, Chicago e de novo em Gramado. De lá pra cá, muito provavelmente graças aos primeiros trabalhos dos dois, é que se veem cada vez mais filmes uruguaios aparecendo em lugares de destaque nos festivais internacionais e recebendo sempre boas avaliações, como são os casos de El viaje hacia el mar (2003), El baño del papa (2007), Gigante (2009), Tanta agua (2013) e, mais recentemente ainda Mr. Kaplan (2014).

Whisky, por sua vez, recebeu a honra de ser considerado pelo festival de Valdivia, no Chile, em 2013, como o melhor filme latino-americano dos últimos 20 anos, tamanha a sua importância. Roteiro triplamente assinado por Stoll, Rabella e Gonzalo Delgado, segundo os diretores, demorou muito para ficar pronto; o processo que teve início ainda no período de montagem de 25 Watts, em 2000, só foi realmente ser concluído uma semana antes da filmagem.

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José Luis Martinez, professor uruguaio do Curso de Letras da Universidade de Brasília, disse, numa conversa na porta de um cineclube improvisado, fazendo um paralelo com a minha intromissão em falar de Mario Benedetti e Juan Carlos Onetti, que Whisky, assim como as obras dos dois escritores, era um filme que trabalhava bem o que há de mais característico no imaginário uruguaio: o olhar minucioso sobre a banalidade.

O filme trata de um homem velho e amargurado, Jacobo Koller (Andrés Pazos), herdeiro de uma fábrica de meias que vive numa rotina extremamente entediante. Ao saber da visita de seu irmão Herman Koller (Jorge Bolani), faz um trato com sua principal funcionária, Marta Acuña (Mirella Pascual), para participe da mentira, durante o período de estadia do irmão, de ser sua esposa.

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Para além das dificuldades da codireção e de um roteiro triplo que já se sabe ser um processo bem doloroso Whisky é, de fato, um filme que estabelece suas bases sobre a simplicidade. Rebella afirmava que não seria necessariamente a história do filme o grande atrativo – a história do filme é sim interessante – mas sim a forma como ela é contada.

O filme traz a tona uma narrativa formadora da civilização ocidental. Jacobo e Herman, judeus uruguaios, formam uma espécie de Caim e Abel da América do Sul. A competição entre os dois é extrema e não há uma só área da vida de ambos que não seja pautada por esse embate. Jacobo faz meias medianas e básicas em máquinas velhas, Herman tem coleções diferentes e maquinário renovado. Herman tem sua própria família, enquanto Jacobo mascara os últimos anos dedicados à mãe com a farsa do casamento com Marta.

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Tendo esse invólucro de tema inseparável da natureza humana, a narrativa de Whisky vai se ramificando justamente pelo seu olhar delicado, pertinente e muito detalhista. Herman se mudou para o Brasil e lá cresceu na vida; a rixa que reaparece com seu retorno e uma tentativa de compensar sua ausência constitui até mesmo uma relação entre os países vizinhos. E a tríade se completa no hotel/cassino de Piriápolis, ao encontro de Jacobo, Herman e Marta com o casal argentino em lua de mel cujo homem está manco. Espremido entre os dois, Herman se mantém apegado a sua tradicional introspecção. Talvez uma maneira de manter intacto o que realmente pode definir como seu: esses silêncios, repetições, tempos mortos e a lentidão que povoam melancolicamente, de certa maneira, a narrativa de um país.

No que toca a questão da “forma como a história é contada”, mais uma vez Whisky se mantem firme à suas características. Não há no filme um só movimento. Sem planos sequências, sem travellings, sem pans… A câmera imóvel, no tripé, juntamente com a centralização da narrativa quase que exclusiva na relação das três personagens, passa por certo a noção de fábula. Cada enquadramento fixo é uma ilustração da letargia do cotidiano das personagens; não há só a preocupação de mostrar as ações – até porque elas são bem poucas – mas, através do enquadramento, mostrar as características de suas personagens e de toda a atmosfera construída.

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A direção de arte do filme, feita pelo também roteirista Gonzalo Delgado, é também de grande qualidade. Sobretudo o apartamento de Jacobo empoeirado, guardando a memória da presença da mãe, figura que a personagem ainda não se libertou. Por mais que a história possa ser corriqueira, capaz de ser encontrada em qualquer lugar, é essa construção dos ambientes – que a escolha dos planos ressalta – que dá um ar de estranhamento, um toque de fantasia na narrativa.

Whisky é um filme que se debruça sobre o cotidiano mais banal possível, assumindo, obviamente, seus ápices e declives e o observa demoradamente, sem se mover. A partir desse tipo de construção, sem nenhum ponto solto, é que emerge uma história simbólica que tangencia tanto questões geopolíticas da América do Sul quanto a base da cultura ocidental.