Exemplo regenerador (1919) + Fragmentos da vida (1929)

por Gustavo Fontele Dourado

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São Paulo dos anos 1920 em Fragmentos da vida (1929).

José Medina teve uma vida longa, viveu de 1894 até 1980 – alcançou 86 anos com grandes saudades de fazer um filme novamente. A sua última realização no cinema foi O canto da raça (1943), do qual foi barrado pela censura na época.  Outro incidente infeliz foi um incêndio em seu laboratório, há alguns anos da censura do último filme, que era divido com o diretor de fotografia Gilberto Rossi para trabalhos fotográficos, Medina perdeu a vontade de continuar trabalhos no cinema.

Os seus únicos filmes que sobraram após o incêndio e os acidentes de projeção são Exemplo regenerador (1919) e Fragmentos da vida (1929) que tinham cópias em exibição em algumas mostras e conseguiram sobreviver. Se totalizarmos a minutagem das duas obras elas alcançam aproximadamente 48 minutos, o que não é considerado como longa-metragem em muitos sistemas de classificação. O cinema brasileiro sofreu uma árdua luta para deixar alguns remanescentes dos seus primeiros anos de produção, a maioria dos filmes daquela época (décadas de 1910 e 1920) foram destruídos ou considerados como perdidos.

Medina teve uma trajetória bastante produtiva em seu auge desde a sua primeira realização com Exemplo regenerador (1919) até o Fragmentos da vida (1929), adaptação de um conto de O. Henry, com 8 filmes feitos e todos mudos. Praticamente toda a sua carreira foi um auge, exceto pela sua tentativa derradeira de retorno ao cinema em 1943 com O canto da raça. O cineasta ficou 14 anos sem produzir e o que aconteceu foi uma grande frustração. Entretanto, podemos ver a nossa própria história em pequenas doses e notar as nossas diferenças ao longo de épocas e no que podemos nos identificar ou colocar como estranho.

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Medina e Rossi criaram uma produtora, a Rossi Film, e continuaram a produzir ao longo dos próximos anos. Ela foi criada em época próxima de Exemplo Regenerador (1919).

Portanto, conseguimos ver através das obras que sobraram de Medina o início e o fim de seu auge. Seus filmes foram um grande sucesso de público e segundo integrantes de sua equipe os filmes eram financiados com recursos em grande parte vindos de Medina e todos os filmes tinham retorno financeiro, não havia prejuízo. Algo que provavelmente falta em certas curtas audiovisuais contemporâneos, uma busca detalhista pela pesquisa e pelo planeajamento.

Nas duas obras percebe-se um bom encadeamento de Medina para captar os costumes e maneiras da época de forma eficaz e extremamente comunicável. Com os dois filmes ainda é possível detectar na atualidade tipos de moralidades que permeiam o imaginário de muitas pessoas e as suas formas de corrupção e dilemas dessa conduta moral. Tanto o filme de 1919 quanto o de 1929 são formas de aviso para que as pessoas tenham cautela com o desvio de suas “trilhas” ou de seus objetivos, de suas promessas e do bem-estar pessoal (a relação entre vagabundo-emprego e a relação família-emprego).

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Exemplo regenerador (1919).

Apesar de sua equipe pequena, Medina e Rossi, eram muito organizados e para eles o principal fator do sucesso de um filme é o planejamento. Percebe-se nos dois filmes um bom ritmo de montagem, o domínio da gramática Griffthiana (uso de cortes intercalados, flashbacks, closes) e o retrato popular de preocupações morais do padrão de vida do Brasil naquela época.

As duas obras são bastante simples e não tem um apelo extremamente ambicioso, exceto por conseguir um público amplo e em fazer um filme bem executado com poucos recursos. Medina tinha muitos contatos internacionais, inclusive o filme Exemplo regenerador (1919) foi exibido para o cineasta Raoul Walsh sob o título de “Returning Point” e foi elogiado.

Suas personagens se encontram em situações constrangedoras: o homem se sente ameaçado de traição por sua mulher enquanto sai para muitas conferências em Exemplo regenerador (1919). Outra situação é o filho que recebe uma cobrança para seguir o caminho do trabalho no leito de morte do pai se torna um vagabundo anos depois e, assim, ele busca ser preso para conseguir auxílio do governo em Fragmentos da vida (1929). O primeiro é centrado em uma elite, o segundo foca em um deslocado e perdido.

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Personagem principal de Fragmentos da vida (1929), interpretado por Carlos Ferreira.

Medina foi eficaz em transitar entre a comédia e o drama e no domínio de uma linguagem clássica, o cinema brasileiro tinha um representante capaz de usar muito bem o cinema para alcançar um grande público e para representar o espírito de sua época, porém sem inovações tremendas.

O empreendedor que pode fracassar e as pessoas que provavelmente não sabem onde estão e por quê se encontram em momentos de uma sociedade que quer impor cada um em seu devido lugar como mecanismo de desigualdade são conflitos principais da obra de Medina, que nos trouxe um início relativamente promissor.

Referências bibliográficas:

NORONHA, Jurandyr. 2002. A longa luta do cinema brasileiro – Os Pioneiros. Rio de Janeiro: Funarte.