Aitaré da praia (1925)

por Elias Fontele Dourado

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Poster americano de Aitaré da Praia.

Sem dúvida que Aitaré da Praia é um dos mais importantes filmes do ciclo de cinema do Recife dos anos 20: de 1920 até 1931, para ser preciso. Como uma ode bem cantada, o filme de Gentil Roiz é entusiástico e interessante, mas às vezes não tem a simetria que elas exigem, sendo confuso em vários momentos. Conseguimos entender bem a narrativa e até onde ela quer chegar, contudo, é perceptível a falta de ações mais interessantes no decorrer do tempo. A maior ação do filme, que serve de catálise ao conflito principal, acontece por volta dos trinta minutos de filme que, até então, não apresenta dados muito relevantes além de, claro, o romance dos personagens principais e os conflitos de Aitaré, mas tudo muito demorado.

Aitaré da Praia tinha uma estória muito interessante e detalhes ainda mais fascinantes para fazer dele uma grande obra de arte, mas ele não passa do bom, tudo isso devido a falta de clareza e a demora para certos acontecimentos ocorrerem, mesmo em um filme de apenas uma hora. As cenas onde temos o sofisticado flashback de Aitaré, que representa sua descendência indígena, fator que serve como óbice para o relacionamento dele com a jovem Cora, uma vez que é visto com preconceito pela mãe dela, e também o outro no momento em que somos apresentados ao verdadeiro paradeiro do coronel e sua filha são segmentos do filme que nos mostram que ele possuiu uma estrutura notável e uma edição relativamente avançada, pelo menos para o Brasil daquela época.

Somos convidados a ver de perto a vida de um jangadeiro do nordeste do Brasil, com sua labuta, amores e diversas histórias. O filme é, primordialmente, um romance, a estória de amor entre Aitaré e Cora, mas logo percebemos que a obra reserva algumas sutilezas que dão o maior charme ao filme, aquilo que me fez dar três estrelas, de cinco, para a criação de Gentil Roiz. Há uma minuciosa valorização da cultura brasileira, desde os poemas colocados nos intertítulos até os problemas do nordeste brasileiro, além de, claro, o próprio tema do jangadeiro, que foi escolhido após a Aurora-Film, produtora fundada por Edson Chagas, o próprio Roiz e Ary Severo, ter recebido uma crítica quanto as temáticas dos filmes deles até então, que eram um tanto americanizadas. Chagas, aliás, foi o grande fotógrafo do ciclo de Recife, sendo o dito cujo no próprio Aitaré da Praia.

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O diretor Gentil Roiz, que também foi gravador.

A ironia que Roiz tece entre a existência de Aitaré como jangadeiro e sua vida, no final do filme, como um burguês, também é um dos pontos altos da obra, como se o amor dele só fosse possível quando a alta classe impregnasse seu ser. A imagem de que tem raízes de índio praticamente é extirpada quando o dinheiro é a raiz principal em sua vida.

Os planos são em sua maioria mais abertos, tendem para o médio, o americano e o geral, com alguns primeiros planos também. A maior abertura na decupagem, creio eu, serve para mostrar a grandeza do nordestino, da ruralidade, do regional, afinal, o filme foi lançado com a proposta de ser uma oposição aos temas americanos. Certamente que Aitaré da Praia é uma das maiores aquisições do modernismo brasileiro no cinema, ainda mais para quem sabe da história da Aurora-Film.

Todos esses detalhes e cenas, porém, que surgem após muitas ondas já terem quebrado no litoral, deixando a praia cada vez mais molhada, mais intragável, fazendo com que Aitaré ande sobre um chão quase insustentável, ou melhor, o filme em si ande, aparecem como segmentos que não corroboram para que a totalidade da obra seja surpreendente, mas ela é, no mínimo, de boa qualidade, com algumas metáforas fascinantes e, certamente, uma importante aquisição para o modernismo brasileiro, que havia atingido seu ápice três anos antes de Aitaré da Praia.