A filha do advogado (1926)

por Thiago Campelo

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A década de 20 e os primeiros anos da década subsequente, dentro da história do cinema brasileiro, formaram o período em que o cinema mudo ficcional atingiu por certo a maturidade. Nesse recorte temporal, e mesmo algum tempo antes, bem se sabe que o esquema de exibição e produção de filmes nacionais era quase restrito a filmes de caráter documental e pequenos filmes que reconstituíam crimes famosos.

Pois justamente nesse panorama que determinados ciclos regionais floresceram e produziram filmes importantíssimos da nossa história cinematográfica. Via de rega fitas feitas por jovens que de alguma forma tentavam se articular em torno do cinema em pontos que não eram tão próximos dos centros econômicos do país. Dos principais pontos onde os ciclos se desenvolveram destacam-se as cidades de Pelotas, Campinas, Cataguases, João Pessoa, Belo Horizonte e Recife.

Sem sombra de dúvidas, o ciclo de Recife foi um dos mais importantes, apesar da quase que restrita circulação local dos filmes. Obviamente houveram exceções quanto a exibição nacional, mesmo que pontualmente. Aitaré da praia (1925), filme de Gentil Roiz, e A filha do advogado (1926) circularam relativamente bem; sendo o último exibido, entre os anos de 27 e 28, nas cidades do Rio de Janeiro, Curitiba, Fortaleza, Belém e São Paulo. Foi um dos mais diversificados no que toca as questões temáticas: foram produzidos filmes de aventura, filmes de temática regional, filmes de cunho religioso e melodramas burgueses. Além disso, foi, entre todos, o que mais produziu: 13 filmes em 8 anos, como destaca Paulo Emílio Sales Gomes.

A filha do advogado, único filme dirigido por Jota Soares, também coroteirista de Aitaré da praia e ator num outro punhado de filmes do Recife, é de fato um dos filmes mais importantes do ciclo da cidade. Junto com o longa-metragem de Roiz, é hoje o filme que mais recebe destaque histórico desse determinado contexto.

Basicamente, a história narra, com certas lacunas, um fratricídio que se perde ao longo dos 93 minutos de exibição. Dr. Paulo, advogado renomado da cidade, decidindo viajar para a Europa em busca de descanso, pede o auxílio de um jornalista, seu amigo próximo, para levar uma filha sua de fora do casamento, Heloísa, para morar na capital pernambucana. No entanto, Helvécio, bon vivant e filho legítimo do advogado, ao se engraçar pela moça, sem saber que é sua irmã, tenta estuprá-la. Em defesa de sua honra, Heloísa lhe acerta um tiro na testa que acarreta na morte de seu meio-irmão. O que segue após o assassinato é o óbvio julgamento de Heloísa com algumas reviravoltas em certa medida sem sentido e reaparição de personagens completamente fora de contexto.

O filme de Jota Soares é de uma estrutura simples que segue todos os arquétipos da narrativa melodramática abusivamente trabalhada pelo cinema estadunidense. O efeito moralizante, por exemplo, permeia a construção de todas as personagens ao ponto de se tornar mais acentuado do que a própria história e estabelecer mesmo uma valoração negativa sobre algumas, caso de Gerôncio, funcionário da casa de Heloísa.

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Nos primeiros minutos, logo após anunciar que Jota Soares só tinha 20 anos enquanto rodou o longa, uma sequencia de imagens do centro de Recife é mostrada pouco antes da introdução das personagens. O que se percebe é talvez uma tentativa de fazer confluir a estrutura da cidade com a significação de cada personagem. Infelizmente a sequência se perde em sentido. Não há, além de mostrar os prédios, uma legítima relação entre esses dois objetos, até porque a história contada é de certa forma comum a qualquer contexto burguês brasileiro.

Em seguida, cada personagem é apresentado já como dispositivo de movimentação da trama – menos Gerôncio, cuja importância é deixada para a sequência final. Dr. Paulo apresenta o primeiro conflito, o jornalista seu amigo cumpre o prometido e de quebra se apaixona por Heloísa numa sequência que culmina com um intertítulo extremamente desnecessário de tão óbvio que diz “falam os olhos”? Talvez fruto da insegurança da primeira e única direção de Soares. Helvécio, representado pelo diretor, aparece logo em seguida, como contraponto ao amor do casal recém-formado e assim segue.

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Uma coisa que, de certa forma, fica um pouco confusa é a escolha da personagem que assume o papel de protagonista. O título, numa primeira vista, pode indicar Heloísa; a primeira metade ensaia o jornalista e par romântico da jovem; Helvécio já assume a figura de antagonista. Em realidade, o papel principal é ocupado por Dr. Paulo que se ausenta do filme quase inteiro, voltando disfarçado para defender a filha no julgamento e, por incrível que pareça, sem dar a mínima para a morte do filho. Talvez nem mesmo ele, mas a honra de seu nome.

Outro aspecto que talvez demonstre a insegurança e inexperiência – há de se considerar que boa parte dos realizadores era inexperientes, nesse período – de Jota Soares é o uso excessivo do flashback. São 9 analepses ao longo dos 93 minutos de filme que, tirando a parte do depoimento de Gerôncio, são retomadas de coisas já mostradas, fazendo voltar justificativas para as ações das personagens. O filme inteiro é muito explicativo o que o torna, sobretudo aos olhos de quase 100 anos depois, um pouco enfadonho.

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Entretanto, o ponto mais negativo da fita é o trato com a personagem de Gerôncio. Funcionário negro da propriedade, Gerôncio é chantageado e manipulado por Helvécio para que levasse correspondências e arrumasse o encontro dele com Heloísa. A partir de seu depoimento final, é que de fato se vê como o crime ocorreu e que a inocência da jovem era real. De objeto de manobra, de vítima, na primeira parte do filme, ele se torna o malfeitor responsável pelo crime, na sequência final. Só lhe resta a prisão. Até mesmo Helvécio, estuprador, tem de certa forma seu momento de redenção no encontro com a morte, quando – através de mais um flashback – lembra dos conselhos ditos pelo pai de conservação da honra. Apesar disso, é dele a melhor sequência do filme: atordoado pelo crime ocorrido e de sua parcial participação, Gerôncio vê no dinheiro do suborno o sangue de Helvécio escorrer. Pouco mais adiante, é o fantasma do rapaz que aparece pra lhe perturbar.

A filha do advogado tem inúmeras incoerências e de fato erros técnicos em questões de linguagem – tecnicamente os erros são releváveis, visto as condições de produção cinematográfica no nordeste brasileiro nos anos 20. Jota Soares, por sua vez, é bem importante, no que diz respeito ao filme em si, mais como ator do que como diretor. A caracterização de Helvécio é de fato a que possui melhor acabamento e corroboram, de certa forma, para o andamento da película. De qualquer forma, a importância histórica desse filme é inigualável.